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Amor de Perdio
Camilo Castelo Branco
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Prefcio da segunda edio
Nas Memrias do Crcere, referindo-me ao romance que novamente se
imprime, escrevi estas linhas:
"O romance, escrito em seguimento daquele, (O Romance de um Homem Rico)
foi o Amor de Perdio. Desde menino, ouvia eu contar a triste histria de meu
tio paterno Simo Antnio Botelho. Minha tia, irm dele, solicitada por minha
curiosidade, estava sempre pronta a repetir o facto aligado  sua mocidade.
Lembrou-me naturalmente, na cadeia, muitas vezes, meu tio, que ali deveria
estar inscrito no livro das entradas no crcere e no das sadas para o degredo.
Folheei os livros desde os de 1800, e achei a notcia com pouca fadiga, e
alvoroos de contentamento, como se em minha alada estivesse adornar-lhe
a memria como recompensa das suas trgicas e afrontosas dores em vida to
breve. Sabia eu que em casa de minha irm estavam acantoados uns maos
de papis antigos, tendentes a esclarecer a nebulosa histria de meu tio. Pedi
aos contemporneos que o conheceram notcias e miudezas, a fim de entrar de
conscincia naquele trabalho. Escrevi o romance em quinze dias, os mais
atormentados de minha vida. To horrorizada tenho deles a memria, que
nunca mais abrirei o Amor de Perdio, nem lhe passarei a lima sobre os
defeitos nas edies futuras, se  que no saiu tolhio incorrigvel da primeira.
No sei se l digo que meu tio Simo chorava, e menos sei se o leitor chorou
com ele. De mim lhe juro que..."
Vo passados quase dois anos, depois que protestei no mais abrir este
romance. No decurso de dois anos tive de afrontar-me com uns infortnios
menos vulgares que a privao da liberdade, e esqueci os horrores dos outros,
a ponto de os recordar sem espanto, e simplesmente como fuzis
indispensveis nesta minha cadeia, em que j me vou retorcendo e
saboreando com infernal deleitao. Abri o livro, como se o tivesse escrito nos
dias mais festivos da minha mocidade; se bem que eu falo em dias de
mocidade por me dizer a minha certido de idade que eu j fui moo; que, no
tocante a festas de juventude, estou agora esperando que elas venham no
Outono, e  de crer que venham, acamaradas com o reumatismo e gota.
Este livro, cujo xito se me antolhava mau, quando eu o ia escrevendo, teve
uma recepo de primazia sobre todos os seus irmos. Movia-me 
desconfiana o ser ele triste, sem interpolao de risos, sombrio, e rematado
por catstrofe de confranger o nimo dos leitores, que se interessam na boa
sorte de uns, e no castigo de outros personagens. Em honra e louvor das
pessoas que estimaram o meu livro, confessarei agradvelmente que julguei
mal delas. No aprovo a qualificao; mas a crtica escrita conformou-se com a
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opinio da maioria, que antepe o Amor de Perdio ao Romance de um
Homem Rico e s Estrelas Propcias.
 grande parte neste favorvel, embora insustentvel, juzo, a rapidez das
peripcias, a derivao concisa do dilogo para os pontos essenciais do enredo,
ausncia de divagaes filosficas, a lhaneza da linguagem e desartificio das
locues. Isto, enquanto a mim, no se estribar em outras recomendaes
mais slidas deve ter uma voga muito pouco duradoura.
Estou quase convencido de que o romance, tendendo a apelar da inqua
sentena que o condena a fulgir e apagar-se, tem de firmar sua durao em
alguma espcie de utilidade, tal como o estudo da alma, ou a pureza do dizer.
E dou mais pelo segundo merecimento; que a alma est sobejamente
estudada e desvelada nas literaturas antigas, em nome e por amor das quais
muita gente abomina o romance moderno, e jura morrer sem ter lido o melhor
do mais apregoado autor. Dou-me por suspeito nesta questo. Graas a Deus,
ainda no escrevi duas linhas a meu favor, nem sequer nas locais do
jornalismo. At escrupulizo em dizer que devem ler-se romances, no vo
cuidar que eu recomendo os meus.
 certo que tenho querido imprimir em alguns de meus livros o cunho da
utilidade com o valor da linguagem s e ajeitada  expresso de ideias, que
pareciam estranhas, como de feito eram, e no se nos deparam nos escritos
dos Sousas, Lucenas e Bernardes. Em verdade, foi isto mirar muito longe com
vista muito curta; assim mesmo, fiz o que pude; e neste livro direi que fiz
menos do que podia. Nos quinze atormentados dias em que o escrevi, faleceume
o vagar e conteno que requer o acepilhar e brunir perodos. O que eu
queria era afogar as horas, e afogar talvez a necessidade de vender o meu
tempo, as minhas meditaes silenciosas, e o direito de me espreguiar como
toda a gente, e o prazer ainda de ser to lustroso na linguagem, quanto, em
diversas circunstncias, podia ser.
O que ento no fiz, tambm agora o no fao, seno em pouqussimo e muito
de corrida. O livro agradou como est. Seria desacerto e ingratido demudar
sensivelmente, quer na essncia, quer na compostura, o que, tal qual , foi
bem recebido.
Porto.--Setembro de 1863
CAMILO CASTELO BRANCO
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Prefcio da quinta edio
Publiquei, h vinte e dois anos, o romance Onde Est a Felicidade?--Pouco
depois, Alexandre Herculano, republicando as Lendas e Narrativas, escrevia na
Advertncia: "...Nestes quinze ou vinte anos, criou-se uma literatura, e pode
dizer-se que no h ano que no lhe traga um progresso. Desde as Lendas e
Narrativas at o livro Onde Est a Felicidade? que vasto espao transposto?"
Se comparo o Amor de Perdio, cuja 5.a edio me parece um xito
fenomenal e extralusitano, com O Crime do Padre Amaro e O Primo Baslio,
confesso, voluntriamente resignado, que para o esplendor destes dois livros
foi preciso que a Arte se ataviasse dos primores lavrados no transcurso de
dezasseis anos. O Amor de Perdio, visto  luz eltrica do criticismo moderno,
 um romance romntico, declamatrio, com bastantes aleijes lricos, e umas
idias celeradas que chegam a tocar no desaforo do sentimentalismo. Eu no
cessarei de dizer mal desta novela, que tem a boal inocncia de no devassar
alcovas, a fim de que as senhoras a possam ler nas salas, em presena de
suas filhas ou de suas mes, e no precisem de esconder-se com o livro no seu
quarto de banho. Dizem, porm, que o Amor de Perdio fez chorar. Mau foi
isso. Mas, agora, como indenizao, faz rir: tornou-se cmico pela seriedade
antiga, pelo raposinho que lhe deixou o rano das velhas histrias do Trancoso
e do padre Teodoro de Almeida.
E por isso mesmo se reimprime. O bom senso pblico rel isto, compara com
aquilo, e vinga-se barrufando com frouxos de riso realista as pginas que h
dez anos aljofarava com lgrimas romnticas.
Faz-me tristeza pensar que eu floresci nesta futilidade da novela, quando as
dores da alma podiam ser descritas sem grande desaire da gramtica e da
decncia. Usava-se ento a retrica de preferncia ao calo. O escritor
antepunha a freqncia de Quintiliano  do Colete-encarnado.. A gente
imaginava que os alcouces no abriam gabinetes de leitura e artes
correlativas. Ai! quem me dera ter antes desabrochado hoje com os punhos
arregaados para espremer o pus de muitas escrfulas  face do leitor!
Naquele tempo, enflorava-se a pstula; agora, a carne com vareja pendura-se
na escpula e vende-se bem, porque muita gente no desgosta de se narcisar
num espelho fiel.
Pois que estou a dobrar o cabo tormentrio da morte, j no verei onde vai
desaguar este enxurro que rola no bojo a Idia Novssima. Como a
honestidade  a alma da vida civil, e o decoro  o n dos liames que atam a
sociedade, lembra-me se vergonha e sociedade ruiro ao mesmo tempo por
efeito de uma grande evoluo-rigolboche. A lgica diz isto; mas a Providncia,
que usa mais da metafsica que da lgica, provavelmente far outra coisa. Se,
por virtude da metempsicose, eu reaparecer na sociedade do sculo XX, talvez
me regozije de ver outra vez as lgrimas em moda nos braos da retrica, e
esta 5.a edio do Amor de Perdio quase esgotada.
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S. Miguel de Seide,
8 de Fevereiro de 1879
CAMILO CASTELO BRANCO
Amor de Perdio
Camilo Castelo Branco
AO
ILMO. E EXMO. SR.
ANTNIO MARIA DE FONTES PEREIRA DE MELO
DEDICA
O AUTOR
Ilmo. e Exmo. Sr.
H de pensar muita gente que V. Exa. no d valor algum a este livro,
que a minha gratido lhe dedica. porque muita gente est persuadida
que ministros do Estado no lem novelas.  um colega de V. Exa.
discorrer no parlamento acerca de caminhos de ferro - Com tanto
engenho o fazia, de tantas flores matizara aquela matria. que me
deleitou ouvi-lo. Na noite desse dia, encontrei o colega de V. Exa. a ler
"Fanny", aquela "Fanny" que sabia tanto de caminhos de ferro como eu.
Que V. Exa. tem romances na sua biblioteca,  convico minha. Que l
tem alguns, que no leu, porque o tempo lhe falece e outros porque no
merecem tempo, tambm o creio. D V. Exa., no lote dos segundos, um
lugar a este livro. e ter assim V. Exa. significado que o recebe e
aprecia, por levar em si o nome do mais agradecido e respeitador criado
de V. Exa..
Na cadeia da Relao do Porto,
aos 24 de setembro de 1861.
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CAMILO CASTELO BRANCO.
INTRODUO
Folheando os livros de antigos assentamentos, no cartrio das cadeias
da Relao do Porto, li, no das entradas dos presos desde 1803 a 1805,
a folhas 232, o seguinte:
Simo Antnio Botelho, que assim disse chamar-se, ser solteiro, e
estudante na Universidade de Coimbra, natural da cidade de Lisboa, e
assistente na ocasio de sua priso na cidade de Viseu, idade de dezoito
anos, filho de Domingos Jos Correia Botelho e de D. Rita Preciosa
Caldeiro Castelo Branco; estatura ordinria, cara redonda, olhos
castanhos, cabelo e barba preta, vestido com jaqueta de baeto azul,
colete de fusto pintado e cala de pano pedrs. E fiz este assento, que
assinei - Filipe Moreira Dias.
A margem esquerda deste assento est escrito:
Foi para a ndia em 17 de maro de 1807.
No seria fiar demasiadamente na sensibilidade do leitor, se cuido que o
degredo de um moo de dezoito anos lhe h de fazer d.
Dezoito anos! O arrebol dourado e escarlate da manh da vida! As
louanias do corao que ainda no sonha em frutos, e todo se
embalsama no perfume das flores! Dezoito anos! O amor daquela idade!
A passagem do seio da famlia, dos braos de me, dos beijos das irms
para as carcias mais doces da virgem, que se lhe abre ao lado como flor
da mesma sazo e dos mesmos aromas, e  mesma hora da vida!
Dezoito anos!... E degredado da ptria, do amor e da famlia! Nunca
mais o cu de Portugal, nem liberdade, nem irmos, nem me, nem
reabilitao, nem dignidade, nem um amigo!...  triste!
O leitor decerto se compungiria; e a leitora, se lhe dissessem em menos
de uma linha a histria daqueles dezoito anos, choraria!
Amou, perdeu-se, e morreu amando.
 a histria. E histria assim poder ouvi-la a olhos enxutos a mulher, a
criatura mais bem formada das branduras da piedade, a que por vezes
traz consigo do cu um reflexo da divina misericrdia?! Essa, a minha
leitora, a carinhosa amiga de todos os infelizes, no choraria se lhe
dissessem que o pobre moo perdera honra, reabilitao, ptria,
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liberdade, irms, me, vida, tudo, por amor da primeira mulher que o
despertou do seu dormir de inocentes desejos?!
Chorava, chorava! Assim eu lhe soubesse dizer o doloroso sobressalto
que me causaram aquelas linhas, de propsito procuradas, e lidas com
amargura e respeito e, ao mesmo tempo, dio. dio, sim... A tempo
vereo se  perdovel o dio, ou se antes me no fora melhor abrir mo
desde j de uma histria que me pode acarear enojos dos frios
julgadores do corao, e das sentenas que eu aqui lavrar contra a falsa
virtude de homens, feitos brbaros, em nome da sua honra.
I
Domingos Jos Correia Botelho de Mesquita e Meneses, fidalgo de
linhagem e um dos mais antigos solarengos de Vila-Real de Trs-os-
Montes, era em 1779, juiz de fora de Cascais, e nesse mesmo ano
casara com uma dama do pao, D. Rita Teresa Margarida Preciosa da
Veiga Caldeiro Castelo Branco, filha dum capito de cavalos, neta de
outro Antnio de Azevedo Castelo Branco Pereira da Silva, tem notvel
por sua jerarquia, como por um, naquele tempo, precioso livro acerca
da Arte de Guerra.
Dez anos de enamorado, mal sucedido, consumira em Lisboa o bacharel
provinciano. Para fazer-se amar da formosa dama de D. Maria I
minguavam-lhe dotes fsicos: Domingos Botelho era extremamente feio.
Para se inculcar como partido conveniente a uma filha segunda,
faltavam-lhe bens de fortuna: os haveres dele no excediam a trinta mil
cruzados em propriedades no Douro. Os dotes de esprito no o
recomendavam tambm: era alcanadssimo de inteligncia, e granjeara
entre os seus condiscpulos da Universidade o epteto de "brocas", com
que ainda hoje os seus descendentes em Vila-Real so conhecidos. Bem
ou mal derivado, o epteto Brocas vem de broa. Entenderam os
acadmicos que a rudeza do seu condiscpulo procedia de muito po de
milho que ele digeria na sua terra.
Domingos Botelho devia ter uma vocao qualquer, e tinha: era
excelente flautista; foi a primeira flauta do seu tempo; e a tocar flauta
se sustentou dois anos em Coimbra, durante os quais seu pai lhe
suspendeu as mesadas, porque os rendimentos da casa no bastavam a
livrar outro filho de um crime de morte (1).
Formara-se Domingos Botelho em 1767, e fora a Lisboa ler no
Desembargo do Pao, iniciao banal dos que aspiravam  carreira da
magistratura. J Ferno Botelho, pai do bacharel, fora bem aceite em
Lisboa, e mormente ao duque de Aveiro, cuja estima lhe teve a cabea
em risco, na tentativa regicida de 1758. O provinciano saiu das
masmorras da Junqueira ilibado da infamante ndoa, e at benquisto do
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conde de Oeiras, porque tomara parte na prova que este fizera do
primor de sua geneologia sobre a dos Pintos Coelhos, do Bomjardim do
Porto: pleito ridculo, mas estrondoso, movido pela recusa que o fidalgo
portuense fizera de sua filha ao filho de Sebastio Jos de Carvalho.
As artes como que o bacharel flautista vingou insinuar-se na estima de
D. Maria I e Pedro III no as sei eu.  tradio que o homem fazia rir a
rainha com as suas faccias, e por ventura com os trejeitos de que
tirava o melhor do seu esprito. O certo  que Domingos Botelho
freqentava o pao, e recebia do bolsinho da soberana uma farta
penso. com a qual o aspirante a juiz de fora se esqueceu de si, do
futuro e do ministro da justia, que, muito rogado, fiara das suas letras
o encargo de juiz de fora de Cascais.
J est dito que ele se atreveu aos amores do pao. no poetando como
Lus de Cames ou Bernardim Ribeiro; mas namorando na sua prosa
provinciana, e captando a bem-querena da rainha para amolecer as
durezas da dama. Devia de ser, afinal, feliz "doutor bexiga" - que assim
era na corte conhecido - para se no desconcertar a discrdia em que
andam rixados o talento e a felicidade. Domingos Botelho casou com D.
Rita Preciosa. Rita era uma formosura, que ainda aos cinqenta anos se
podia prezar de o ser. E no tinha outro dote. se no  dote uma srie
de avoengos, uns bispos, outros generais, e entre estes o que morrera
frigido em caldeiro de no sei que terra da mourisma, glria, na
verdade, um pouco ardente. mas de tal monta que os descendentes do
general frito se assinaram Caldeires.
A dama do pao no foi ditosa com o marido. Molestavam-na saudades
da corte, das pompas das cmaras reais. e dos amores de sua feio e
malde, que imolou ao capricho da rainha. Este desgostoso viver, porm,
no empreceu que se reproduzissem em dois filhos e trs meninas. O
mais velho era Manuel, o segundo Simo; das meninas uma era Maria, a
segunda Ana e a ltima tinha o nome de sua me, e alguns traos de
beleza dela,
O Juiz de fora de Cascais, solicitando lugar de mais graduado banco,
demorava em Lisboa, na freguesia da Ajuda. em 1784. Neste ano  que
nasceu Simo, o penltimo dos seus filhos. Conseguiu ele, sempre
balanceado da fortuna,. transferncia para Vila-Real, sua ambio
suprema.
A distncia duma lgua de Vila-Real estava a nobreza da vila esperando
o seu conterrneo. Cada famlia tinha a sua liteira com o braso da
casa. A dos Correias de Mesquita era a mais antiquada no feitio, e as
librs dos criados as mais surradas e traadas que figuravam na
comitiva.
D. Rita, avistando o prstito das liteiras, ajustou ao olho direito a sua
grande luneta de oiro, e disse:
-  Meneses, aquilo que ?
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- So os nossos amigos e parentes que vm esperar-nos.
- Em que sculo estamos ns nesta montanha? - tornou dama do pao.
- Em que sculo?! O sculo tanto  dezoito aqui como em Lisboa.
- Ah! sim? Cuidei que o tempo parara aqui no sculo doze...
O marido achou que devia rir-se do chiste, que o no lisonjeara
grandemente.
Ferno Botelho, pai do juiz de fora, saiu  frente do prstito para dar a
mo  nora, que apeava da liteira, e conduzi-la  de casa. D. Rita, antes
de ver a cara de seu sogro, contemplou-lhe a olho armado as fivelas de
ao, e a bolsa do rabicho. Dizia ela depois que os fidalgos de Vila-Real
eram muito menos limpos que os carvoeiros de Lisboa. Antes de entrar
na avoenga liteira de seu marido, perguntou, com a mais refalsada
seriedade, se no haveria risco em ir dentro daquela antigidade.
Ferno Botelho asseverou a sua nora que a sua liteira no tinha ainda
cem anos, e que os machos no excediam a trinta.
O modo altivo como ela recebeu as cortesias da nobreza - velha
nobreza, que para ali viera em tempo de D. Deniz, fundador da vila - fez
que o mais novo do prstito, que ainda vivia h doze anos, me dissesse
a mim: "Sabamos que ela era dama da Senhora D. Maria I; porm, da
soberba com que nos tratou ficamos pensando que seria ela a prpria
rainha". Repicaram os sinos da terra quando a comitiva assomou 
Senhora de Almudena. D. Rita disse ao marido que a recepo dos sinos
era a mais estrondosa e barata.
Apearam  porta da velha casa de Ferno Botelho. A aia do pao
relanceou os olhos pela fachada do edifcio, e disse de si para si: " uma
bonita vivenda para quem foi criada em Mafra e Sintra, na Bemposta e
Queluz".
Decorridos alguns dias, D. Rita disse ao marido que tinha medo de ser
devorada das ratazanas; que aquela casa era um covil de feras; que os
tetos estavam a desabar; que as paredes no resistiriam ao inverno;
que os preceitos de uniformidade conjugal no obrigavam a morrer de
frio uma esposa delicada e afeita s almofadas do palcio dos reis,
Domingos Botelho conformou-se com a estremecida consorte, e
comeou a fbrica dum palacete. Escassamente lhe chegavam os
recursos para os alicerces: escreveu  rainha, e obteve generoso
subsdio com que ultimou a casa. As varandas das janelas foram a
ltima ddiva que a real viva fez  sua dama. Quer-nos parecer que a
ddiva  um testemunho, at agora indito, da demncia da Senhora D.
Maria I.
Domingos Botelho mandara esculpir em Lisboa a pedra de armas; D.
Rita, porm, teimara que no escudo se esquarteassem tambm as suas;
mas era tarde, porque j a obra tinha vindo do escultor, e o magistrado
no podia com segunda despesa, nem queria desgostar seu pai,
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orgulhoso de seu braso. Resultou daqui ficar a casa sem armas e D.
Rita vitoriosa (2).
O juiz de fora tinha ali parentela ilustre. O aprumo da fidalga dobrou-se
at aos grandes da provncia, ou antes houve por bem levant-los at
ela. D. Rita tinha uma corte de primos, uns que se contentavam de
serem primos, outros que invejavam a sorte do marido. O mais
audacioso no ousava fit-la de rosto, quando ela o remirava com a
luneta, em jeito de tanta altivez e zombaria, que no ser estranha
figura dizer que a luneta de Rita Preciosa era a mais vigilante sentinela
da sua virtude.
Domingos Botelho desconfiava da eficcia dos merecimentos prprios
para cabalmente encher o corao de sua mulher. Inquietava-o o
cime; mas sufocava os suspiros, receando que Rita se desse por
injuriada da suspeita. E razo era que se ofendesse. A neta do general
frgido no caldeiro sarrareno ria dos primos, que, por amor dela,
erriavam e empoavam as cabeleiras com desgracioso esmero, e
cavaleavam estrepitosamente na calada os seus ginetes, fingindo que
os picadores da provncia no desconheciam as graas hpicas do
marqus de Marialva.
No o cuidava assim, porm, o juiz de fora, O intriguista que lhe trazia o
esprito em nsias era o seu espelho. Via-se sinceramente feio, e
conhecia Rita cada vez mais em flor, e mais enfadada no trato ntimo.
Nenhum exemplo da histria antiga, exemplo de amor sem quebra entre
o esposo disforme e a esposa linda, lhe ocorria. Um s lhe mortificava a
memria, e esse, com quanto fosse da fbula, era-lhe avesso, e vinha a
ser o casamento de Vnus e Vulcano. Lembravam-lhe as redes que o
ferreiro coxo fabricara para apanhar os deuses adlteros, e assombravase
da pacincia daquele marido. Entre si, dizia ele, que, erguido o vu
da perfdia, nem se queixaria a Jpiter, nem armaria ratoeiras aos
primos. A par do bacamarte de Lus Botelho, que varara em terra o
alfares, estava uma fileira de bacamartes em que o juiz de fora era
entendido com muito superior inteligncia  que revelava na
compreenso do Digesto e das Ordenaes do Reino.
Este viver de sobressaltos durou seis anos, ou mais seria. O juiz de fora
empenhara os seus amigos na transferncia, e conseguiu mais do que
ambicionava: foi nomeado provedor para Lamego. Rita Preciosa deixou
saudades em Vila-Real, e duradoura memria da sua soberba,
formosura e graas de esprito. O marido tambm deixou anedotas que
ainda agora se repetem. Duas contarei somente para no enfadar.
Acontecera um lavrador mandar-lhe o presente duma vitela, e mandar
com ela a vaca, para se no desgarrar a filha. Domingos Botelho
mandou recolher  loja a vitela e a vaca, dizendo que quem dava a filha
dava a me. Outra vez, deu-se o caso de lhe mandarem um presente de
pastis em rica salva de prata. O juiz de fora repartiu os pastis pelos
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meninos, e mandou guardar a salva, dizendo que receberia como
escrnio um presente de doces, que valiam dez pataces, sendo que
naturalmente os pastis tinham vindo como ornato da bandeja, E assim
 que, ainda hoje, em Vila-Real, quando se d um caso anlogo de ficar
algum com o contedo e continente, diz a gente da terra: "Aquele 
como o doutor Brocas".
No tenho assunto de tradio com que possa reter-me em miudezas da
vida do provedor em Lamego. Escassamente sei que D. Rita aborrecia a
comarca, e ameaava o marido de ir com seus cinco filhos para Lisboa,
se ele no sasse daquela intratvel terra, Parece que a fidalguia de
Lamego, em todo o tempo orgulhosa de uma antigidade que principia
na aclamao de Almacave, desdenhou a filucia da dama do pao, e
esmerilhou certas vergnteas podres do tronco dos Botelhos Correais de
Mesquita, desprimorando-lhe as cs com o fato de ele ter vivido dois
anos em Coimbra tocando flauta.
Em 1801, achamos Domingos Jos Correia Botelho de Mesquita
corregedor em Viseu.
Manuel, o mais velho de seus filhos, tem vinte e dois anos, e freqenta
o segundo ano jurdico. Simo, que tem quinze, estuda humanidades
em Coimbra. As meninas so o prazer e a vida toda do corao de sua
me.
O filho mais velho escreveu a seu pai queixando-se de no poder viver
com seu irmo, temeroso do gnio sanguinrio dele. Conta que a cada
passo se v ameaado na vida, porque Simo emprega em pistolas o
dinheiro dos livros, convive com os mais famosos perturbadores da
academia, e corre de noite as ruas insultando os habitantes e
provocando-os  luta com assuadas. O corregedor admira a bravura de
seu filho Simo, e diz  consternada me que o rapaz  a figura e o
gnio de seu bisav Paulo Botelho Correia, o mais valente fidalgo que
dera Trs-os-Montes.
Manuel, cada vez mais aterrado das arremetidas de Simo, sai de
Coimbra antes de frias e vai a Viseu queixar-se e pedir que lhe d seu
pai outro destino, D. Rita quer que seu filho seja cadete de cavalaria. De
Viseu parte para Bragana Manuel Botelho, e justifica-se nobre dos
quatro costados para ser cadete.
No entanto, Simo recolhe a Viseu com os seus exames feitos e
aprovados. O pai maravilhava-se do talento do filho, e desculpa-o da
extravagncia por amor do talento. Pede-lhe explicaes do seu mau
viver com Manuel, e ele responde que seu irmo o quer forar a viver
monsticamente.
Os quinze anos de Simo tm aparncias de vinte.  forte de
compleio; belo homem com as feies de sua me, e a corpulncia
dela; mas de todo avesso em gnio. Na plebe de Viseu  que ele escolhe
amigos e companheiros. Se D. Rita lhe censura a indigna eleio que
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faz, Simo zomba das genealogias, e mormente do general Caldeiro
que morreu frito. Isto bastou para ele granjear a malquerncia de sua
me. O corregedor via as coisas pelos olhos de sua mulher, e tomou
parte no desgosto dela e na averso ao filho. As irms temiam-no,
tirante Rita, a mais nova, com quem ele brincava puerilmente, e a quem
obedecia, se ela lhe pedia, com meiguices de criana, que no andasse
com pessoas mecnicas.
Finalizavam as frias, quando o corregedor teve um grave dissabor. Um
dos seus criados tinha ido levar a beber os machos, e, por descuido ou
propsito, deixou quebrar algumas vasilhas que estavam  vez no
parapeito do chafariz. Os donos das vasilhas conjuraram contra o
criado; espancaram-no. Simo passava nesse ensejo; e, armado de um
fueiro que descravou de um carro, partiu muitas cabeas, e rematou o
trgico espetculo pela farsa de quebrar todos os cntaros. O povolu
intacto fugira espavorido, que ningum se atrevia ao filho do
corregedor; os feridos, porm, incorporaram-se e foram clamar justia 
porta do magistrado.
Domingos Botelho bramia contra o filho, e ordenava ao meirinho geral
que o prendesse  sua ordem. D. Rita, no menos irritada, mas irritada
como me, mandou, por portas travessas, dinheiro ao filho para que,
sem detena, fugisse para Coimbra, e esperasse l o perdo do pai.
O corregedor quando soube o expediente de sua mulher, fingiu-se
zangado, e prometeu faz-lo capturar em Coimbra. Como, porm, D.
Rita lhe chamasse brutal nas suas vinganas e estpido juiz de uma
rapaziada, o magistrado desenrugou a severidade postia da testa, e
confessou tacitamente que era brutal e estpido juiz.
II
Simo Botelho levou de Viseu para Coimbra arrogantes convices da
sua valentia. Se recordava os chibantes pormenores da derrota em que
pusera trinta aguadeiros, o som cavo das pancadas, a queda atordoada
deste, o levantar-se daquele, ensangentado, a bordoada que abrangia
trs a um tempo, a que afocinhava dois, a gritaria de todos, e o
estrpito dos cntaros afinal, Simo deliciava-se nestas lembranas,
como ainda no vi nalgum drama, em que o veterano de cem batalhas
relembra os louros de cada uma, e esmorece, afinal, estafado de
espantar, quando no  de estafar, os ouvintes.
O acadmico, porm, com os seus entusiasmos, era incomparavelmente
muito mais prejudicial e perigoso que o mata-mouros de tragdia. As
recordaes esporeavam-no a faanhas novas, e naquele tempo a
academia dava azo a elas. A mocidade estudiosa, em grande parte,
14
simpatizava com as balbuciantes teorias da liberdade, mais por
pressentimento, que por estudo. Os apstolos da revoluo francesa no
tinham podido fazer revoar o trovo dos seus clamores neste canto do
mundo; mas os livros dos enciclopedistas, as fontes onde a gerao
seguinte bebera a peonha que saiu no sangue de noventa e trs, no
eram de todo ignorados. As doutrinas da regenerao social pela
guilhotina tinham alguns tmidos sectrios em Portugal, e esses de ver 
que deviam pertencer  gerao nova. Alm de que, o rancor 
Inglaterra lavrara nas entranhas das classes manufatureiras, e o
desprender-se do jugo aviltador de estranhos, apertado, desde o
princpio do sculo anterior, com as sogas de ruinosos e prfidos
tratados, estava no nimo de muitos e bons portugueses que se
queriam antes alianados com a Frana. Estes eram os pensadores
reflexivos; os sectrios da academia, porm, exprimiam mais a paixo
da novidade que as doutrinas do raciocnio.
No ano anterior de 1800, sara Antnio de Arajo de Azevedo, depois
conde da Barca, a negociar em Madrid e Paris a neutralidade de
Portugal. Rejeitaram-lhe as potncias aliadas as propostas, tendo-lhe
em conta de nada os dezesseis milhes que o diplomata oferecia ao
primeiro cnsul. Sem delongas, foi o territrio portugus infestado pelos
exrcitos de Espanha e Frana. As nossas tropas, comandadas pelo
duque de Lafes, no chegaram a travar a luta desigual, porque a esse
tempo Lus Pinto de Sousa, mais tarde visconde de Balsemo, negociara
ignominosa paz em Badajoz, com cedncia de Olivena  Espanha,
excluso de ingleses de nossos portos, e indenizao de alguns milhes
 Frana.
Estes sucessos tinham irritado contra Napoleo os nimos daqueles que
odiavam o aventureiro, e para outros deram causa a congratularem-se
do rompimento com Inglaterra. Entre os desta parcialidade, na
convulsiva e irrequieta academia, era voto de grande monta Simo
Botelho, apesar dos seus imberbes dezesseis anos. Mirabeau, Danton,
Robespierre, Desmoulins, e muitos outros algozes e mrtires do grande
aougue, eram nomes de soada musical aos ouvidos de Simo. Difamlos
na sua presena era afrontarem-no a ele, e bofetada certa, e pistolas
engatilhadas  cara do difamador. O filho do corregedor de Viseu
defendia que Portugal devia regenerar-se num batismo de sangue, para
que a hidra dos tiranos no erguesse mais uma das suas mil cabeas
sob a dava do Hrcules popular.
Estes discursos, arremedo de alguma clandestina objurgatria de Saint-
Just, afugentavam da sua comunho aqueles mesmos que o tinham
aplaudido em mais racionais princpios de liberdade. Simo Botelho
tornou-se odioso aos condiscpulos, que, para se salvarem pela infmia,
o delataram ao bispo-conde e ao reitor da Universidade.
15
Um dia, proclamava o demagogo acadmico na praa de Sanso aos
poucos ouvintes que lhe restaram fiis, uns por medo, outros por
analogia de bossas. O discurso ia no mais acrisolado da idia regicida,
quando uma escolta de verdeais lhe aguou a escandescncia. Quis o
orador resistir, aperrando as pistolas, mas de sobra sabiam os braos
musculosos da corte do reitor com quem as haviam. O jacobino,
desarmado e cercado, entre a escolta dos arqueiros foi levado ao
crcere acadmico, donde saiu seis meses depois, a grandes instncias
dos amigos de seu pai e dos parentes de D. Rita Preciosa.
Perdido o ano letivo, foi para Viseu Simo. O corregedor repeliu-o da
sua presena com ameaas de o expulsar de casa. A me, mais levada
do dever que do corao. intercedeu pelo filho e conseguiu sent-lo 
mesa comum.
No espao de trs meses fez-se maravilhosa mudana nos costumes de
Simo. As companhias da rel desprezou-as. Saa de casa raras vezes,
ou s, ou com a irm mais nova, sua predileta. O campo, as rvores e
os stios mais sombrios e ermos eram o seu recreio. Nas doces noites de
estio demorava-se por fora at ao repontar da alva. Aqueles que assim
o viam admiravam-lhe o ar cismador e o recolhimento que o
seqestrava da vida vulgar. Em casa encerrava-se no seu quarto, e saa
quando o chamavam para a mesa.
D. Rita pasmava da transfigurao, e o marido, bem convencido dela, ao
fim de cinco meses, consentiu que seu filho lhe dirigisse a palavra.
Simo Botelho amava. A est uma palavra nica, explicando o que
parecia absurda reforma aos dezessete anos.
Amava Simo uma sua vizinha, menina de quinze anos, rica herdeira,
regularmente bonita e bem nascida. Da janela do seu quarto  que ele a
vira pela primeira vez, para am-la sempre. No ficara ela inclume da
ferida que fizera no corao do vizinho: amou-o tambm, e com mais
seriedade que a usual nos seus anos.
Os poetas cansam-nos a pacincia a falarem do amor da mulher aos
quinze anos, como paixo perigosa, nica e inflexvel. Alguns prosadores
de romances dizem o mesmo. Enganam-se ambos. O amor dos quinze
anos  uma brincadeira;  a ltima manifestao do amor s bonecas; 
a tentativa da avezinha que ensaia o vo fora do ninho, sempre com os
olhos fitos na ave-me, que a est de fronte prxima chamando: tanto
sabe a primeira o que  amar muito, como a segunda o que  voar para
longe.
Teresa de Albuquerque devia ser, porventura, uma exceo no seu
amor.
O magistrado e sua famlia eram odiosos ao pai de Teresa, por motivo
de litgios, em que Domingos Botelho lhe deu sentenas contra. Afora
isso, ainda no ano anterior dois criados de Tadeu de Albuquerque
tinham sido feridos na celebrada pancadaria da fonte. E, pois, evidente
16
que o amor de Teresa, declinando de si o dever de obtemperar e
sacrificar-se ao justo azedume de seu pai, era verdadeiro e forte.
E este amor era singularmente discreto e cauteloso. Viram-se e falaramse
trs meses, sem darem rebate  vizinhana e nem sequer suspeitas
s duas famlias. O destino que ambos se prometiam era o mais
honesto: ele ia formar-se para poder sustent-la, se no tivessem
outros recursos; ela esperava que seu velho pai falecesse para, senhora
sua, lhe dar, com o corao, o seu grande patrimnio.
Espanta discrio tamanha na ndole de Simo Botelho, e na presumvel
ignorncia de Teresa em coisas materiais da vida, como so um
patrimnio!
Na vspera da sua ida para Coimbra, estava Simo Botelho despedindose
da suspirosa menina, quando subitamente ela foi arrancada da
janela. O alucinado moo ouviu gemidos daquela voz que, um momento
antes, soluava comovida por lgrimas de saudade. Ferveu-lhe o sangue
na cabea; contorceu-se no seu quarto como o tigre contra as grades
inflexveis da jaula. Teve tentaes de se matar, na impotncia de
socorr-la. As restantes horas daquela noite passou-as em raivas e
projetos de vingana. Com o amanhecer esfriou-lhe o sangue, e
renasceu a esperana com os clculos.
Quando o chamaram para partir para Coimbra, lanou-se do leito de tal
modo transfigurado, que sua me, avisada do rosto amargurado dele,
foi ao quarto interrog-lo e despersuadi-lo de ir enquanto assim
estivesse febril. Simo, porm, entre mil projetos, achara melhor o de ir
para Coimbra, esperar l notcias de Teresa, e vir a ocultar a Viseu falar
com ela. Ajuizadamente discorrera ele; que a sua demora agravaria a
situao de Teresa.
Descera o acadmico ao ptio, depois de abraar a me e irms, e
beijar a mo do pai, que para esta hora reservara uma admoestrao
severa, a ponto de lhe asseverar que de todo o abandonaria se ele
casse em novas extravagncias. Quando metia o p no estribo, viu a
seu lado uma velha mendiga, estendeu-lhe a mo aberta como quem
pede esmola, e, na palma da mo, um pequeno papel. Sobressaltou-se
o moo; e, a poucos passos distante de sua casa, leu estas linhas:
"Meu pai diz que me vai encerrar num convento por tua causa. Sofrerei
tudo por amor de ti. No me esqueas tu, e achar-me-s no convento,
ou no cu, sempre tua do corao, e sempre leal. Parte para Coimbra.
L iro dar as minhas cartas; e na primeira te direi em que nome hs de
responder  tua pobre Teresa".
A mudana do estudante maravilhou a academia. Se o no viam nas
aulas, em parte nenhuma o viam. Das antigas relaes restavam-lhe
apenas as dos condiscpulos sensatos que o aconselhavam para bem, e
o visitaram no crcere de seis meses, dando-lhe alentos e recursos, que
seu pai lhe no dava, e sua me escassamente supria. Estudava com
17
fervor, como quem j dali formava as bases do futuro renome e da
posio por ele merecida, bastante a sustentar dignamente a esposa. A
ningum confiava o seu segredo, seno s cartas que enviava a Teresa,
longas cartas em que folgava o esprito da tarefa da cincia. A
apaixonada menina escrevia-lhe a mido, e j dizia que a ameaa do
convento fora mero terror de que j no tinha medo, porque seu pai no
podia viver sem ela.
Isto afervorou-lhe para mais o amor ao estudo. Simo, chamado em
pontos difceis das matrias do primeiro ano, tal conta deu de si, que os
lentes e os condiscpulos o houveram como primeiro premiado.
A este tempo. Manuel Botelho, cadete em Bragana, destacado no
Porto, licenciou-se para estudar na Universidade as matemticas.
Animou-o a notcia do reviramento que se dera em seu irmo. Foi viver
com ele; achou-o quieto. mas alheado numa idia que o tornava
misantropo e intratvel noutro gnero. Pouco tempo conviveram, sendo
a causa da separao um desgraado amor de Manuel Botelho a uma
aoreana casada com um acadmico. A esposa apaixonada perdeu-se
nas iluses do cego amante. Deixou o marido e fugiu com ele para
Lisboa, e da para Espanha. Em outro relano desta narrativa darei
conta do remate deste episdio.
No ms de fevereiro de 1803 recebeu Simo Botelho uma carta de
Tereza. No seguinte captulo se diz minuciosamente a peripcia que
forara a filha de Tadeu de Albuquerque a escrever aquela carta de
pungentssima surpresa para o acadmico, convertido aos deveres, 
honra,  sociedade e a Deus pelo amor.
III
O pai de Teresa no embicaria na impureza do sangue do corregedor, se
o ajustarem-se os dois filhos em casamento se compadecesse com o
dio de um e o desprezo do outro. O magistrado mofava do rancor do
seu vizinho, e o vizinho malsinava de venalidade a reputao do
magistrado. Este sabia da injuriosa vingana em que o outro se ia
despicando; fingia-se invulnervel  detrao; mas de dia para dia se
lhe azedava a blis; e  de crer que, se o no contivessem consideraes
da famlia, sofreria menos, desabafando pela boca dum bacamarte,
arma da predileo dos Botelhos Correais de Mesquita. Seria impossvel
o reconciliarem-se.
Rita, a filha mais nova, estava um dia na janela do quarto de Simo, e
viu a vizinha rente com os vidros e a testa apoiada nas mos. Sabia
Teresa que era aquela menina a mais querida irm de Simo, e a que
mais semelhana de parecer tinha com ele. Saiu da sua artificial
18
indiferena, e respondeu ao reparo de Rita, fazendo-lhe com a mo um
gesto e sorrindo. A filha do corregedor sorriu tambm, mas fugiu logo
da janela, porque sua me tinha proibido s filhas de trocarem vistas
com pessoa daquele casa.
No dia seguinte,  mesma hora, levada da simpatia que lhe causara
aquele gesto de amizade, tornou Rita  janela, e l viu Teresa com os
olhos fitos na sua, como se a estivesse esperando. Sorriram-se com
resguardo, afastando-se a um pouco do peitoril das janelas; e assim,
ambas de p, no interior dos quartos, se estavam contemplando. Como
a rua era estreita, podiam ouvir-se, falando baixo. Tereza, mais pelo
movimento dos lbios que por palavras, perguntou a Rita se era sua
amiga. A menina respondeu com um gesto afirmativo, e fugiu,
acenando-lhe um adeus. Estes rpidos instantes de se verem repetiramse
sucessivos dias, at que, perdido o maior medo de ambas, ousaram
demorar-se em palestras a meia voz. Tereza falava de Simo, contava 
menina de onze anos o segredo do seu amor, e dizia-lhe que ela havia
de ser nada sua irm, recomendando-lhe muito que no dissesse nada 
sua famlia.
Numa dessas conversaes, Rita descuidara-se, e levantou de modo a
voz que foi ouvida de uma irm, que a foi logo acusar ao pai. O
corregedor chamou Rita, e forou-a pelo terror a contar tudo que ouvira
 vizinha. Tanta foi sua clera, que, sem atender s razes da esposa,
que viera espavorida dos gritos, correu ao quarto de Simo, e viu ainda
Teresa  janela.
- Ol! - disse ele  plida menina - No tenha a confiana de pr olhos
em pessoa de minha casa, Se quer casar, case com um sapateiro, que 
um digno genro de seu pai.
Tereza no ouviu o remate da brutal apstrofe: tinha fugido aturdida e
envergonhada. Porm, como o desabrido ministro ficasse bramindo no
quarto, e Tadeu de Albuquerque sasse a uma janela, a clera do doutor
redobrou, e a torrente das injrias, longo tempo represada, bateu no
rosto do vizinho, que no ousou replicar-lhe.
Tadeu interrogou sua filha, e acreditou que foi causa  sanha de
Domingos Botelho estarem as duas meninas praticando inocentemente,
por trejeitos, em coisas de sua idade. Desculpou o velho a criancice de
Teresa, admoestando-a que no voltasse quela janela.
Esta mansido do fidalgo, cujo natural era bravio, tem a sua explicao
no projeto de casar em breve a filha com seu primo Baltasar Coutinho,
de Castro-d'Aire, senhor de casa, e igualmente nobre da mesma
prospia. Cuidava o velho, presunoso conhecedor do corao das
mulheres, que a brandura seria o mais seguro expediente para levar a
filha ao esquecimento daquele pueril amor a Simo. Era mxima sua
que o amor, aos quinze anos, carece de consistncia para 50breviver a
uma ausncia de seis meses. No pensava errado o fidalgo, mas o erro
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existia. As excees tm sido o ludbrio dos mais acerados pensadores,
tanto no especulativo como no experimental. No era muito que Tadeu
de Albuquerque fosse enganado em coisas de amor e corao de
mulher, cujas variantes so tantas e to caprichosas, que eu no sei se
alguma mxima pode ser-nos guia, a no ser esta: "Em cada mulher,
quatro mulheres incompreensveis, pensando alternadamente como se
ho de desmentir umas s outras". Isto  o mais seguro; mas no 
infalvel. A est Teresa que parece ser nica em si. Dir-se- que as trs
da conta, que diz a sentena, no podem coexistir com a quarta aos
quinze anos? Tambm o penso assim, posto que a fixidez, a constncia
daquele amor, funda em causa independente do corao:  porque
Teresa no vai  sociedade, no tem um altar em cada noite na sala,
no provou o incenso doutros gals, nem teve ainda uma hora de
comparar a imagem amada, desluzida pela ausncia, com a imagem
amante, amor nos olhos que a fitam, e amor nas palavras que a
convencem de que h um corao para cada homem, e uma s
mocidade para cada mulher. Quem me diz a mim que Teresa teria em si
as quatro mulheres da mxima, se o vapor de quatro incensrios lhe
estonteasse o esprito? No  fcil, nem preciso decidir. E vamos ao
conto.
Acerca de Simo Botelho, nunca diante de sua filha Tadeu de
Albuquerque proferiu palavra, nem antes nem depois do disparate do
corregedor. O que ele fez logo foi chamar a Viseu o sobrinho de Castrod'Aire,
e preveni-lo do seu desgnio, para que ele, em face de Teresa,
procedesse como convinha a um enamorado de feio, e mutuamente
se apaixonassem e prometessem auspicioso futuro ao casamento.
Por parte de Baltasar Coutinho a paixo inflamou-se to depressa,
quanto o corao de Teresa se congelou de terror e repugnncia. O
morgado de Castro-d'Aire, atribuindo a frieza de sua prima a modstia,
inocncia e acanhamento, lisonjeou-se do virginal melindre daquela
alma, e saboreou de antemo o prazer de uma lenta, mas segura
conquista. Verdade  que Baltazar nunca se explicara de modo que
Teresa lhe desse resposta decisiva. Um dia, porm, instigado por seu
tio, afoitou-se o ditoso noivo a falar assim  melanclica menina:
-  tempo de lhe abrir o meu corao, prima. Est bem disposta a ouvirme?
- Eu estou sempre bem disposta a ouvi-lo, primo Baltasar.
O desdm aborrecido desta resposta abalou algum tanto as convices
do fidalgo, respeito  inocncia, modstia e acanhamento de sua prima.
Ainda assim, quis ele no momento persuadir-se que a boa vontade no
poderia exprimir-se doutro modo, e continuou:
- Os nossos coraes penso eu que esto unidos; agora  preciso que as
nossas casas se unam.
Teresa empalideceu, e baixou os olhos.
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- Acaso lhe diria eu alguma coisa desagradvel?! - prosseguiu Baltasar,
rebatido pela desfigurao de Teresa.
- Disse-me o que  impossvel fazer-se - respondeu ela sem turvao -
O primo engana-se: os nossos coraes no esto unidos. Sou muito
sua amiga, mas nunca pensei em ser sua esposa, nem me lembrou que
o primo pensasse em tal.
- Quer dizer que me aborrece, prima Teresa? - atalhou, corrido, o
morgado.
- No, senhor: j lhe disse que o estimava muito, e por isso mesmo no
devo ser esposa dum amigo a quem no posso amar. A infelicidade no
seria s minha...
- Muito bem... Posso eu saber - tornou com refalsado sorriso o primo -
quem  que me disputa o corao de minha prima?
- Que lucra em o saber?
- Lucro saber, pelo menos, que a minha prima ama outro homem... E
exato?
- .
- E com tamanha paixo que desobedece a seu pai?
- No desobedeo: o corao  mais forte que a submissa vontade duma
filha. Desobedeceria, se casasse contra a vontade de meu pai; mas eu
no disse ao primo Baltasar que casava; disse-lhe unicamente que
amava.
- Sabe a prima que eu estou espantado do seu modo de falar!... Quem
pensaria que os seus dezesseis anos estavam to abundantes de
palavras!...
- No so s palavras, primo - retorquiu Teresa com gravidade - so
sentimentos que merecem a sua estima, por serem verdadeiros. Se eu
lhe mentisse, ficaria mais bem vista de meu primo?
- No, prima Teresa; fez bem em dizer a verdade, e de a dizer em tudo.
Ora olhe: no duvida declarar quem  o ditoso mortal da sua
preferncia?
- Que lhe faz saber isso?
- Muito, prima: todos temos a nossa vaidade, e eu folgaria muito de me
ver vencido por quem tivesse merecimentos que eu no tenho aos seus
olhos. Tem a bondade de me dizer o seu segredo, como o diria a seu
primo Baltasar, se o tivesse em conta de seu amigo intimo?
- Nessa conta  que eu o no posso j ter... - respondeu Teresa,
sorrindo, e pausando, como ele, as slabas das palavras.
- Pois nem para amigo me quer?!
- O primo no me perdoa a sinceridade que eu tive, e ser de hoje em
diante meu inimigo.
- Pelo contrrio... - tornou ele com mal rebuada ironia - muito pelo
contrrio... Eu lhe provarei que sou seu amigo, se alguma vez a vir
casada com algum miservel indigno de si.
21
- Casada!... - interrompeu ela. Mas Baltasar cortou-lhe logo a rplica
deste modo:
- Casada com algum famoso brio ou jogador de pau, valento de
aguadeiros, distinto cavalheiro, que passa os anos letivos encarcerados
nas cadeias de Coimbra...
Claro est que Baltasar Coutinho conhecia o segredo de Teresa. Seu tio,
naturalmente, lhe comunicara a criancice da prima, talvez antes de
destinar-lhe a esposa.
Ouvira Teresa o tom sarcstico daquelas palavras, e erguera-se
respondendo com altivez:
- No tem mais que me diga, primo Baltasar?
- Tenho, prima; queira sentar-se algum tempo mais. No cuide agora
que est falando com o namorado infeliz: convena-se de que fala com
o seu mais prximo parente, mais sincero amigo, e mais decidido
guarda da sua dignidade e fortuna. Eu sabia que minha prima, contra a
expressa vontade de seu pai, uma ou outra vez conversava da janela
com o filho do corregedor. No dei valor ao sucesso, e tomei-o como
brincadeira prpria da sua idade. Como eu freqentasse o meu ltimo
ano em Coimbra, h dois anos, conheci de sobra Simo Botelho. Quando
voltei, e me contaram a sua afeio ao acadmico, pasmei da boa f da
priminha; depois entendi que a sua mesma inocncia devia ser o seu
anjo da guarda. Agora, como seu amigo, compunjo-me de a ver ainda
fascinada pela perversidade do seu vizinho No se recorda de ter visto
Simo Botelho suciando com a nfima vilanagem desta terra?! No viu
os seus criados com as cabeas quebradas pelo tal varredor de feiras?
No lhe constou que ele, em Coimbra, abarrotado de vinho, andava
pelas ruas armado como um salteador de estradas, proclamando 
canalha a guerra aos nobres e aos reis, e  religio de nossos pas? A
prima ignoraria isto porventura?
- Ignorava parte disso e no me aflige a sab-lo. Desde que conheci
Simo, no me consta que ele tenha dado o menor desgosto  sua
famlia, nem ouo falar mal dele.
- E est por isso persuadida de que Simo deve ao seu amor a reforma
de costume?
- No sei, nem penso nisso - replicou com enfado Tereza.
- No se zangue, prima. Vou-lhe dizer as minhas ltimas palavras: eu
hei de, enquanto viver, trabalhar por salv-la das garras de Simo
Botelho. Se seu pai lhe faltar, fico eu. Se as leis a no defenderem dos
ataques do seu demnio, eu farei ver ao valento que a vitria sobre os
aguadeiros no o poupa ao desgosto de ser levado a pontaps para fora
da casa de meu tio Tadeu de Albuquerque.
- Ento o primo quer me governar!? - atalhou ela com desabrida
irritao.
22
- Quero-a dirigir enquanto a sua razo precisar de auxlio. Tenha juzo e
eu serei indiferente ao seu destino. No a enfado mais, prima Teresa.
Baltasar Coutinho foi dali procurar seu tio, e contou-lhe o essencial do
dilogo. Tadeu, atnito da coragem da filha e ferido no corao e
direitos paternais, correu ao quarto dela, disposto a espanc-la. Reteveo
Baltasar, reflexionando-lhe que a violncia prejudicaria muito a crise,
sendo coisa de esperar que Teresa fugisse de casa. Refreou o pai a sua
ira, e meditou. Horas depois, chamou sua filha, mandou-a sentar ao p
de si, em termos serenos e gesto bem composto, lhe disse que era sua
vontade cas-la com o primo; porm, que ele j sabia que a vontade de
sua filha no era essa. Ajuntou que a no violentaria; mas tambm no
consentiria que ela, sovando aos ps o pundonor de seu pai, se desse de
corao ao filho do seu maior inimigo. Disse mais que estava a resvalar
na sepultura, e mais depressa desceria a ela, perdendo o amor da filha,
que ele j considerava morta. Terminou perguntando a Teresa se ela
duvidava entrar num convento, e a esperar que seu pai morresse, para
depois ser desgraada  sua vontade.
Teresa respondeu, chorando, que entraria num convento, se essa era a
vontade de seu pai; porm, que se no privasse ele de a ter em sua
companhia nem a privasse a ela dos seus afetos, por medo de que sua
filha praticasse alguma ao indigna, ou lhe desobedecesse no que era
virtude obedecer.
Prometeu-lhe julgar-se morta para todos os homens, menos para seu
pai.
Tadeu ouviu-a, e no lhe replicou.
IV
O corao de Teresa estava mentindo. Vo pedir sinceridade ao corao!
Para finos entendedores, o dilogo do anterior captulo definiu a filha de
Tadeu de Albuquerque. E mulher varonil, tem fora de carter, orgulho
fortalecido pelo amor, desapego das vulgares apreenses, se so
apreenses a renncia que uma filha fez do seu alvedrio s
imprevidentes e caprichosas vontades de seu pai. Diz boa gente que
no, e eu abundo sempre no voto da gente boa. No ser aleive
atribuir-lhe uma pouca de astcia ou hipocrisia, se quiserem;
perspiccia seria mais correto dizer. Teresa adivinha que a lealdade
tropea a cada passo na estrada real da vida, e que os melhores fins se
atingem por atalhos onde no cabem a franqueza e a sinceridade. Estes
ardis so raros na idade inexperta de Teresa; mas a mulher do romance
quase nunca  trivial, e esta de que rezam os meus apontamentos era
23
distintssima. A mim me basta crer em sua distino, a celebridade que
ela veio a ganhar  conta da desgraa.
Da carta que ela escreveu a Simo Botelho, contando as cenas
descritas, a crtica deduz que a menina de Viseu contemporizava com o
pai, pondo a mira no futuro, sem passar pelo dissabor do convento, nem
romper com o velho em manifesta desobedincia. Na narrativa que fez
ao acadmico omitiu ela as ameaas do primo Baltasar, clusula que. a
ser transmitida, arrebataria de Coimbra o moo, em quem sobejavam
brios e bravura para mant-los.
Mas no  esta ainda a carta que surpreendeu Simo Botelho.
Parecia bonanoso o cu de Teresa. Seu pai no falava em claustro nem
em casamento. Baltasar Coutinho voltara ao seu solar de Castro-d'Aire.
A tranqila menina dava semanalmente estas boas novas a Simo, que,
aliando s venturas do corao as riquezas do esprito, estudava
incessantemente, e desvelava as noites arquitetando o seu edifcio de
futura glria.
Ao romper d'alva dum domingo de junho de 1803, foi Teresa chamada
para ir com seu pai  primeira missa da igreja paroquial. Vestiu-se a
menina, assustada, e encontrou o velho na antecmara a receb-la com
muito agrado, perguntando-lhe se ela se erguia de bons humores para
dar ao autor de seus dias um resto de velhice feliz. O silncio de Teresa
era interrogador.
- Vais hoje dar a mo de esposa a teu primo Baltasar, minha filha. 
preciso que te deixes cegamente levar pela mo de teu pai. Logo que
deres este passo difcil, conhecers que a tua felicidade  daquelas que
precisam ser impostas pela violncia. Mas repara, minha querida filha,
que a violncia dum pai  sempre amor. Amor tem sido a minha
condescendncia e brandura para contigo. Outro teria subjugado a tua
desobedincia com maus tratos, com os rigores do convento, e talvez
com o desfalque do teu grande patrimnio. Eu, no. Esperei que o
tempo te aclarasse o juzo, e felicito-me de te julgar desassombrada do
diablico prestgio do maldito que acordou o teu inocente corao. No
te consultei outra vez sobre este casamento, por temer que a reflexo
fizesse mal ao zelo de boa filha com que tu vais abraar teu pai, e
agradecer-lhe a prudncia com que ele respeitou o teu gnio, velando
sempre a honra de te encontrar digna do seu amor.
Teresa no desfitou os olhos do pai; mas to abstrada estava, que
escassamente lhe ouviu as primeiras palavras, e nada das ltimas.
- No me respondes, Teresa?! - tornou Tadeu, tomando-lhe
cariciosamente as mos.
- Que hei de eu responder-lhe, meu pai? - balbuciou ela.
- D-me o que te peo? Enches de contentamento os poucos dias que
me restam?
- E ser o pai feliz com o meu sacrifcio?
24
- No digas sacrifcio, Teresa... Amanh a estas horas vers que
transfigurao se fez na tua alma. Teu primo  um composto de todas
as virtudes; nem a qualidade de ser um gentil moo lhe falta, como se a
riqueza, a cincia e as virtudes no bastassem a formar um marido
excelente.
- E ele quer-me. depois de eu me ter negado? - disse ela com amargura
irnica.
- Se ele est apaixonado, filha!... e tem bastante confiana em si para
crer que tu hs de am-lo muito!...
- E no ser mais certo odi-lo eu sempre?! Eu agora mesmo o abomino
como nunca pensei que se pudesse abominar! Meu pai... - continuou
ela, chorando, com as mos erguidas - mate-me; mas no me force a
casar com meu primo!  escusada a violncia, porque eu no caso!
Tadeu mudou de aspecto, e disse irado:
- Hs de casar! - Quero que cases! Quero!... Quando no, amaldioada
sers para sempre, Teresa! Morrers num convento! Esta casa ir para
teu primo! Nenhum infame h de aqui pr p nas alcatifas de meus
avs. Se s uma alma vil, no me pertences, no s minha filha, no
podes herdar apelidos honrosos, que foram pela primeira vez insultados
pelo pai desse miservel que tu amas! Maldita sejas! Entra nesse
quarto, e espera que da te arranquem para outro, onde no vers um
raio de Sol.
Teresa ergueu-se sem lgrimas, e entrou serenamente no seu quarto.
Tadeu de Albuquerque foi encontrar seu sobrinho, e disse-lhe:
- No te posso dar minha filha, porque j no tenho filha. A miservel, a
quem dei este nome, perdeu-se para ns e para ela.
Baltasar, que, a juzo de seu tio, era um composto de excelncia, tinha
apenas um quebra; a absoluta carncia de brios. Malograda a tentativa
do seu amor de emboscada, tornou para a terra o primo de Teresa,
dizendo ao velho que ele o livraria do assdio em que Simo Botelho lhe
tinha o corao da filha. No aprovou a recluso no convento,
discorrendo sobre as hipteses infamantes que a opinio pblica
inventaria. Aconselhou que a deixasse estar em casa, e esperasse que o
filho do corregedor viesse de Coimbra.
Ponderaram no nimo do velho as razes de Baltasar. Teresa
maravilhou-se da quietao inesperada de seu pai e desconfiou da
incoerncia. Escreveu a Simo. Nada lhe escondeu do sucedido; nem as
ameas de Baltasar por delicadeza suprimiu. Rematava comunicandolhe
as suas suspeitas de algum plano de violncia.
O acadmico, chegando ao perodo das ameas. j no tinha clara luz
nos olhos para decifrar o restante da carta. Tremia sezes, e as artrias
frontais arfavam-lhe intumescidas. No era sobressalto do corao
apaixonado: era a ndole arrogante que lhe escaldava o sangue. Ir dali a
Castro-d'Aire e apunhalar o primo de Teresa na sua prpria casa, foi o
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primeiro conselho que lhe segredou a fria do dio. Neste propsito
saiu, alugou cavalo, e recolheu a vestir-se de jornada. J preparado, a
cada minuto de espera assomava-se em frenesis. O cavalo demorou-se
meia hora, e o seu bom anjo, neste espao, vestido com as galas com
que ele vestia na imaginao Teresa, deu-lhe rebates de saudade
daqueles tempos e ainda das horas daquele mesmo dia em que cismava
na felicidade que o amor lhe prometia, se ele a procurasse no caminho
do trabalho, e da honra. Contemplou os seus livros com tanto afeto,
como se em cada um estivesse uma pgina da histria do seu corao.
Nenhuma daquelas pginas tinha ele lido, sem que a imagem de Teresa
lhe aparecesse a fortalec-lo para vencer os tdios da continuada
aplicao, e os mpetos dum natural inquieto e ansioso de comoes
desusadas. "E h de tudo acabar assim? - pensava ele, com a face entre
as mos, encostado  sua banca de estudo. - Ainda h pouco eu era to
feliz!... - Feliz! - repetiu ele, erguendo-se de golpe. - Quem pode ser
feliz com a desonra duma ameaa impune Mas eu perco-a! Nunca mais
hei de v-la!. . . Fugirei como um assassino, e meu pai ser o meu
primeiro inimigo, e ela mesmo h de horrorizar-se da minha vingana...
A ameaa s ela a ouviu; e, se eu tivesse sido aviltado no conceito de
Teresa pelos insultos do miservel, talvez que ela os no repetisse.
Simo Botelho releu a carta duas vezes, e  terceira leitura achou
menos afrontosas as bravatas do fidalgo cioso. As linhas finais
desmentiam formalmente a suspeita do aviltamento, com que o seu
orgulho o atormentava: eram expresses ternas, splicas ao seu amor
como recompensa dos passados e futuros desgostos, vises
encantadoras do futuro, novos juramentos de constncia, e sentidas
frases de saudade.
Quando o arreeiro bateu  porta, Simo Botelho j no pensava em
matar o homem de Castro-d'Aire; mas resolvera ir a Viseu, entrar de
noite, esconder-se e ver Teresa. Faltava-lhe, porm, casa de confiana
onde se ocultasse. Nas estalagens, seria logo descoberto. Perguntou ao
arreeiro se conhecia alguma casa em Viseu onde ele pudesse estar
escondido uma noite ou duas, sem receio de ser denunciado. O arreeiro
respondeu que tinha, a um quarto de lgua de Viseu, um primo
ferrador; e no conhecia em Viseu seno os estalajadeiros. Simo achou
aproveitvel o parentesco do homem, e logo da o presenteou com uma
jaqueta de peles e uma faixa de seda escarlate,  conta de maiores
valores prometidos, se ele o bem servisse numa empresa, amorosa.
No dia seguinte, chegou o acadmico a casa do ferrador. O arreeiro deu
conta ao seu parente do que vinha tratado com o estudante.
Foi Simo Botelho cautelosamente hospedado, e o arreeiro abalou no
mesmo ponto para Viseu, com uma carta destinada a uma mendiga, que
morava no mais impraticvel beco da terra. A mendiga informou-se
miudamente da pessoa que enviava a carta, e saiu, mandando esperar o
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caminheiro. Pouco depois. voltou ela com a resposta, e o arreeiro partiu
a galope.
Era a resposta um grito de alegria. Teresa no refletiu, respondendo a
Simo que naquela noite se festejavam os seus anos, e se reuniam em
casa os parentes. Disse-lhe que s onze horas em ponto ela iria ao
quintal e lhe abriria a porta.
No esperava tanto o acadmico. O que ele pedia era falar-lhe da rua
para a janela do seu quarto, e receava impossvel este prazer, que ele
avaliava o mximo. Apertar-lhe a mo, sentir-lhe o hlito, abra-la
talvez, cometer a ousadia de um beijo, estas esperanas, to alm de
suas modestas e honestas ambies, igualmente o enlevavam e
assustavam. Enlevo e susto em coraes que se estreiam na comdia
humana so sentimentos congeniais.
A hora da partida, Simo tremia, e a si mesmo pedia contas da timidez,
sem saber que os encantos da vida, os mais anglicos momentos da
alma, so esses lances de misterioso alvoroo que aos mais serdios de
corao sucedem em todas as razes da vida, e a todos os homens,
uma vez ao menos.
As onze horas em ponto estava Simo encostado  porta do quintal, e a
distncia convencionada o arreeiro com o cavalo  rdea. A toada da
msica, que vinha das salas remotas, alvoroava-o, porque a festa em
casa de Tadeu de Albuquerque o surpreendera. No longo termo de trs
anos nunca ele ouvira msica naquela casa. Se ele soubesse o dia
natalcio de Teresa, espantara-se menos da estranha alegria daquelas
salas, sempre fechadas como em dias de mortrio. Simo imaginou
desvairadamente as quimeras que voejam, ora negras, ora translcidas,
em redor da fantasia apaixonada. No h baliza racional para as belas,
nem para as horrorosas iluses, quando o amor as inventa. Simo
Botelho, com o ouvido colado  fechadura, ouvia apenas o som das
flautas, e as pancadas do corao sobressaltado.
V
Baltasar Coutinho estava na sala, simulando vingativa indiferena por
sua prima. As irms do fidalgo e a demais parentela da casa no
deixavam respirar Teresa. Moas e velhas, todas, uma, se repetiam,
aconselhando-a a reconciliar-se com seu primo, e dar a seu pai a alegria
que o pobre velho tanto rogava Deus, antes de fechar os olhos.
Replicava Teresa que no queria mal a seu primo, nem sequer estava
sentida dele; que era sua amiga, e s-lo-ia sempre enquanto ele lhe
deixasse livre o corao.
O velho esperava muito daquela noitada de festa. Alguns parentes
presumidos de circunspetos, lhe tinham dito que seria proveitoso regalar
a filha com os prazeres congruentes  sua idade, dando-lhe ensejo a
27
que ela repartisse o esprito, concentrado num s ponto, por diverses
em que a natural vaidade se preocupa, e a fora do amor contrariado se
vai a pouco e pouco quebrantando. Aconselharam-lhe as reunies
amidas, j em sua casa, j na dos seus parentes, para deste modo
Teresa se mostrar a muitos, ser cortejada de todos, e ter em opinio de
menos valia o nico homem com quem falava, e a quem julgava
superior a todos. O fidalgo acedeu, mas com dificuldade:  que tinha l
um sistema seu de ajuizar das mulheres, vivera trinta anos de vida
libertina e dispendiosa, e se estava agora saboreando na economia e na
quietao. Os anos de Teresa eram pela primeira vez festejados com
estrondo. A morgada viu ento o que era o minueto da corte e certos
jogos de prendas com que os intervalos naqueles tempos se aligeiravam
em delcias, sem fadiga do corpo, nem desagrado da moral.
Mas, de agitada que estava, Teresa no compartia do gozo dos seus
hspedes. Desde que soaram as dez horas daquela noite, a rainha da
festa parecia to alienada das finezas com que as senhoras e homens 
competncia a lisonjeavam, que Baltasar Coutinho deu tento do
desassossego de sua prima, e teve a modstia de imaginar que ela se
ofendera da indiferena dele, Generoso at ao perdo, o morgado de
Castro-d'Aire, compondo o rosto com gesto grave e melanc6lico, dirigiuse
a Teresa, e pediu-lhe desculpa da frieza que ele disse ser como a das
montanhas, que tm vulces por dentro e neve por fora. Teresa teve a
sinceridade de responder que no tinha reparado na frieza de seu primo,
e chamou para junto dela uma menina, para evitar que a montanha se
fendesse em vulces. Pouco depois ergueu-se e saiu da sala.
Eram dez horas e trs quartos. Teresa correra ao fundo do quintal,
abrira a porta, e, como no visse algum, tornou de corrida para a sala.
No momento, porm, de subir a escada que ligava o jardim  casa,
Baltasar Coutinho, que a espiava desde que ela saiu da sala, chegou a
uma das janelas sobre o jardim, bem longe de imaginar que a via.
Retirou-se, e entrou com Teresa na sala, ao mesmo tempo, por diversa
porta. Decorridos alguns minutos, a menina saiu outra vez e o primo
tambm. Teresa ouviu, a distncia, o estrpito dum cavalo, quando
passou ao patamar da escada. Baltasar tambm o ouviu, e notou que
sua prima, receosa de ser vista e conhecida pela alvura do vestido,
levava uma capa ou chale que a envolvia toda. O de Castro-d'Aire fez p
atrs para no ser visto. Teresa, porm, num relance de olhar
temeroso, ainda vira um vulto retirar-se. Teve medo, e retrocedeu a
largar a capa, e entrou na sala, ofegante de cansao e plida de medo.
- Que tens, minha filha? - disse-lhe o pai - J duas vezes saste da sala,
e vens to alvoraada! Tens algum incmodo, Teresa?
- Tenho uma dor: preciso de ir respirar de vez em quando... Nada ,
meu pai.
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Tadeu acreditou, e disse a toda a gente que a sua filha tinha uma dor;
s o no disse a seu sobrinho, porque o no encontrou, e soube que ele
tinha sado.
Tambm Teresa dera pela ausncia do primo, e fingiu que o ia procurar,
resoluo de que o velho gostou muito. Desceu ela ao jardim, correu 
porta onde a esperava Simo, abriu-a, e, com a voz cortada pela
ansiedade, apenas disse:
- Vai-te embora; vem amanh s mesmas horas... Vai, vai!
Simo, quando isto ouvia, os olhos fitos num vulto que se aproximava
dele, rente com o muro do quintal. O arreeiro, que primeiro o vira, dera
um sinal, e entalara as rdeas do cavalo entre umas pedras, para ficar
desembaraado, se o estudante se no pudesse haver com o inimigo.
Simo Botelho no se moveu do local, e Baltasar Coutinho parou na
distncia de seis passos. O arreeiro tinha lentamente avanado a meio
caminho do patro, quando este lhe disse que no se aproximasse. E,
caminhando para o vulto, aperrou duas pistolas, e disse-lhe:
- Isto aqui no  caminho. Que quer?
O fidalgo no respondeu.
- Parece-me que lhe abro a boca com uma bala - tornou Simo.
- Que lhe importa o senhor quem est?! - disse Baltasar - Se eu tiver
um segredo, como o senhor parece que tem o seu nestes stios, sou
obrigado a confessar-lhe?
Simo refletiu, e replicou.
- Este muro pertence a uma casa onde mora uma s famlia, e uma s
mulher.
- Esto nessa casa mais de quarenta mulheres esta noite - redargiu o
primo de Teresa. - Se o cavalheiro espera uma, eu posso esperar outra.
- Quem  o senhor? - tornou com arrogncia o filho do corregedor.
- No conheo a pessoa que me interroga, nem quero conhecer.
Fiquemos cada um com o nosso incgnito. Boas noites.
Baltasar Coutinho retrocedeu, dizendo entre si:
- "Que partido tem uma espada contra dois homens e duas pistolas?"
Simo Botelho cavalgou, e partiu para casa do hospitaleiro ferrador.
O sobrinho de Tadeu de Albuquerque entrou na sala sem denunciar
levemente alterao de nimo. Viu que Teresa o observava de revs, e
soube dissimular-se de modo que a sossegou. A pobre menina, ansiosa
por se ver sozinha, viu com prazer erguer-se para sair a primeira
famlia, que deu rebate s outras, menos ao de Castro-d'Aire e suas
irms, que ficaram hospedados em casa de seu tio, com teno de se
demorarem oito dias em Viseu.
Velou Teresa o restante da noite, escrevendo a Simo a longa histria
dos seus terrores, e pedindo-lhe perdo de o ela no ter advertido do
baile, por ficar doida de alegria com a sua vinda. No tocante ao plano de
se encontrarem na seguinte noite no havia alterao na carta. Isto
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espantou o acadmico. A seu ver, o vulto era Baltasar Coutinho, e o pai
de Teresa devia ser avisado naquela mesma noite.
Respondeu ele contando a histria do incidente com o encapotado;
receando, porm, assustar Teresa e privar-se da entrevista, escreveu
nova carta em que no transluzia medo de ser atacado, nem sequer
receio de marear-lhe a fama. Quis parecer a Simo Botelho que este era
o digno porte de um amante corajoso.
Passou o estudante aquele dia contando as longas horas, e meditando
instantes nos funestos resultados que podia ter a sua temerria ida, se
Baltasar Coutinho era aquele homem que reservara para melhor relance
a vingana da provocao insolente. Mas de si para si tinha ele que
pensar em que tal era mais cobardia que prudncia.
O ferrador tinha uma filha, moa de vinte e quatro anos, formas bonitas,
um rosto belo e triste. Notou Simo os reparos em que ela se demorava
a contempl-lo, e perguntou-lhe a causa daquele olhar melanclico com
que ela o fitava. Mariana corou, abriu um sorriso triste, e respondeu:
- No sei o que me adivinha o corao a respeito de vossa senhoria.
Alguma desgraa est para lhe suceder...
- A menina no dizia isso - replicou Simo - sem saber alguma coisa da
minha vida.
- Alguma coisa sei... - tornou ela.
- Ouviu contar ao arreeiro?
- No, senhor. E que meu pai conhece o paizinho de vossa senhoria, e
tambm conhece o senhor. E h bocadinho que eu ouvi estar meu pai a
dizer a meu tio, que  o arreeiro que veio com vossa senhoria, que tinha
suas razes para saber que alguma desgraa lhe estava para
acontecer...
- Por qu?
- Por amor duma fidalga de Viseu, que tem um primo em Castro-d'Aire.
Simo espantou-se da publicidade do seu segredo, e ia colher
pormenores do que ele julgava mistrio entre duas famlias, quando o
mestre ferrador Joo da Cruz entrou no sobrado, onde o precedente
dilogo se passara. A moa, como ouvisse os passos do pai, sara
lentamente por outra porta.
- Com sua licena - disse mestre Joo.
Dizendo, fechou por dentro ambas as portas, e sentou-se sobre uma
arca.
- Ora, meu fidalgo - continuou ele, descendo as mangas arregaadas da
camisa, e apertando-as com dificuldade nos grossos pulsos, como quem
sabe as etiquetas das mangas - h de desculpar que eu viesse assim em
mangas de camisa; mas no dei com a jaqueta...
- Est muito bem, senhor Joo - atalhou o acadmico.
- Pois, senhor, eu devo um favor a seu pai, e um favor daquela casta.
Uma vez armou-se aqui  minha porta uma desordem, a troco de um
30
couce que um macho dum almocreve deu numa gua, que estava
ferrando, e, em to boa hora foi, que lhe partiu rente o jarrete por aqui,
salvo tal lugar.
Joo da Cruz mostrou na sua perna o ponto por onde fora fraturada a da
gua, e continuou:
- Eu tinha ali  mo o martelo, e no me tive que no pregasse com ele
na cabea do macho, que foi logo pra terra. O recoveiro de Caro, que
era chibante, deitou as unhas a um bacamarte, que trazia entre uma
carga, e desfechou comigo, sem mais tirte nem garte. " alma danada!
- disse-lhe eu - pois tu vs que o teu macho me aleijou esta gua, que
custou vinte peas a seu dono, e que eu tenho de pagar, e ds-me um
tiro por eu te atordoar o macho!?"
- E o tiro acertou-lhe? - atalhou Simo.
- Acertou; mas saber vossa senhoria que me no matou; deu-me aqui
por este brao esquerdo com dois quartos. E vai eu, entro em casa, vou
 cabeceira da cama, e trago uma clavina, e desfecho-lha na tbua do
peito. O almocreve caiu como um tordo, e no tugiu nem mugiu.
Prenderam-me, e fui para Viseu e j l estava h trs anos, no ano que
o pazinho de vossa senhoria veio corregedor. Andava muita gente a
trabalhar contra mim, e todos me diziam que eu ia pernear na forca.
Estava l na enxovia comigo um preso a cumprir sentena, e disse-me
ele que o senhor corregedor tinha muita devoo com as sete dores de
Nossa Senhora. Uma vez que ele ia passando com a famlia para a
missa, disse-lhe eu: - "Senhor corregedor, peo a vossa senhoria, pelas
sete dores de Maria Santssima, que me mande ir  sua presena para
eu explicar a minha culpa a vossa senhoria". O paizinho de vossa
senhoria chamou o meirinho-geral, e mandou tomar o meu nome. Ao
outro dia fui chamado ao senhor corregedor, e contei-lhe tudo,
mostrando-lhe ainda as cicatrizes do brao. Seu pai ouviu-me, e disseme:
- "Vai-te embora, que eu farei o que puder". O caso , meu fidalgo,
que eu sa absolvido, quando muita gente dizia que eu havia de ser
enforcado  minha porta. Faz favor de me dizer se eu no devo andar
com a cara onde o seu paizinho pe os ps?!
- Tem o senhor Joo motivo para lhe ser grato, no h dvida nenhuma.
- Agora faz favor de ouvir o mais. Eu, antes de ser ferrador, fui criado
de farda em casa do fidalgo de Castrod'Aire, que  o senhor Baltasar.
Conhece-o vossa senhoria? Ora, se conhece...
- Conheo de nome.
- Foi ele que me abonou dez moedas de ouro para me estabelecer; mas
paguei-lhes, Deus louvado. H de haver seis meses que ele me mandou
chamar a Viseu, e me disse que tinha trinta peas para me dar, se eu
lhe fizesse um servio. - "O que vossa senhoria quiser, fidalgo". E vai
ele disse-me que queria que eu tirasse a vida a um homem. Isto buliu
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c por dentro comigo, porque. a falar a verdade, um homem que mata
outro num aperto no  matador de oficio, acho eu, no  assim?
- De certo... - respondeu Simo, adivinhando o remate da histria. -
Quem era o homem que ele queria morto?
- Era vossa senhoria... O homem! - disse o ferrador com espanto - O
senhor nem sequer mudou de cor!
- Eu no mudo nunca de cor, senhor Joo - disse o acadmico.
- Estou pasmado!
- E vossemec no aceitou a incumbncia, pelo que vejo - tornou
Simo.
- No, senhor; e, ento, logo que ele me disse quem era, a minha
vontade era pregar-lhe com a cabea numa esquina.
- E ele disse-lhe a razo por que me mandava matar?
- No, meu fidalgo; eu lhe conto: Na semana adiante, quando soube
que o senhor Baltasar (raios o partam!> tinha sado de Viseu, fui falar
com o senhor corregedor, e contei-lhe tudo como se passara. O senhor
corregedor esteve a cismar um pouquinho, e disse-me, e vossa senhoria
h de perdoar por eu lhe dizer o que seu pai me disse, tal e qual.
- Diga.
- Seu pai comeou a esfregar o nariz, e disse-me: -"Eu sei o que  isso.
Se aquele brejeiro de meu filho Simo tivesse honra, no olharia para a
prima desse assassino. Cuida o patife que eu consentia que meu filho se
ligasse a uma filha de Tadeu de Albuquerque Ainda disse mais coisas
que me no lembram; mas eu fiquei sabendo tudo. Ora aqui tem o que
houve. Agora apareceu-me aqui vossa senhoria, e a noite passada foi a
Viseu. Perdoar a minha confiana: mas vossa senhoria foi falar com a
tal menina; e eu estive vai no vai a segui-lo; mas, como ia meu
cunhado, que  homem para trs, fiquei descansado. Ele contou-me um
encontro que vossa senhoria teve  porta do quintal da menina. Se l
torna, senhor Simo, v preparado para alguma coisa de maior. Eu bem
sei que vossa senhoria no  medroso; mas duma traio ningum se
livra. Se quer que eu v tambm, estou s suas ordens; e a clavina que
deu polcia ao almocreve ainda ali est, e d fogo debaixo de gua,
como diz o outro. Mas, se vossa senhoria d licena que eu lhe diga a
minha opinio, o melhor  no andar nessas encamisadas. Se quer
casar com ela, v pedir a seu pai licena, e deixe o resto c por minha
conta; ponto  que ela queria. que eu, num abrir e fechar de olhos, atiro
com ela para cima duma gua de chupeta. que ali tenho, e o pai e mais
o primo ficam a ver navios.
- Obrigado, meu amigo - disse Simo - aproveitarei os seus bons
servios quando me forem necessrios. Esta noite hei de ir, como fui a
noite passada, a Viseu. Se houver novidade, ento veremos o que se h
de fazer. Conto com vossemec, e creia que tem em mim um amigo.
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Mestre Joo da Cruz no replicou. Dali foi examinar mudamente a
fecharia da clavina, e entender-se com o cunhado sobre cautelas
necessrias, enquanto descarregava a arma, e a carregava de novo com
uns zagalotes especiais, que ele denominava "amndoas de pimpes".
Neste intervalo, Mariana, a filha do ferrador, entrou no sobrado, e disse
com meiguice a Simo Botelho:
- Ento sempre  certo ir?
- Vou; para que no hei de ir?!
- Pois Nossa Senhora v na sua companhia - tornou ela, saindo logo
para esconder as lgrimas.
VI
As dez horas e meia da noite daquele dia, trs vultos convergiram para
o local, raro freqentado, em que se abria a porta do quintal de Tadeu
de Albuquerque. Ali se detiveram alguns minutos discutindo e
gesticulando. Dos trs vultos havia um, cujas palavras eram ouvidas em
silncio e sem rplica pelos outros. Dizia ele a um dos dois:
- No convm que estejas perto desta porta. Se o homem aparecesse
aqui morto, as suspeitas caiam logo sobre mim ou meu tio. Afastem-se
vocs um do outro, tenham o ouvido aplicado ao tropel do cavalo.
Depois apressem o passo at o encontrarem, de modo que os tiros
sejam dados longe daqui.
- Mas... - atalhou um - quem nos diz que ele veio ontem a cavalo, e
hoje vem a p?
- E verdade! - acrescentou o outro.
- Se ele vier a p, eu lhes darei aviso para o seguirem depois at o
terem a jeito de tiro, mas longe daqui, percebem vocs? - disse Baltasar
Coutinho.
- Sim, senhor: mas se ele sal. de casa do pai, e entra sem nos dar
tempo?
- Tenho a certeza de que no est em casa do pai, j lhe disse. Basta de
palavreado. Vo esconder-se atrs da Igreja, e no adormeam.
Debandou o grupo, e Baltasar ficou alguns momentos encostado ao
muro. Soaram os trs quarto depois da dez. O de Castro-d'Aire colocou
o ouvido  porta, e retirou-se aceleradamente, ouvindo o rumor da
folhagem seca que Teresa vinha pisando.
Apenas Baltasar, cosido com o muro, desaparecera, um vulto assomou
do outro lado a passo rpido. No parou: foi direito a todos os pontos
onde uma sombra podia figurar um homem. Rodeou a igreja, que
estava a duzentos passos de distncia. Viu os dois vultos direitos com o
recanto que formava a juno da capela-mor, e sobre o qual caram as
33
sombras da torre. Fitou-os de passagem, e suspeitou; no os conheceu,
mas eles disseram entre si, depois que ele desaparecera:
- E o Joo da Cruz, ferrador, ou o diabo por ele!...
- Que far a estas horas por aqui?!
- Eu sei!
- No desconfias que ele entre nisto?
- Agora! se entrasse, era por ns. No sabes que ele foi mochila do
nosso amo?
- Pois ento que medo tens?
- No h medo; mas tambm sei que foi o corregedor que o livrou da
forca...
- Isso que tem! O corregedor no se importa com isso, nem sabe que o
filho c est...
- Assim ser; mas no estou muito contente... Ele  homem dos
diabos...
- Deix-lo ser... Tanto entram as balas nele como noutro...
A discusso continuou sobre vrias conjeturas. De tudo o que eles
disseram uma coisa era certssima: ser o vulto o Joo da Cruz, ferrador.
Teria este dado trezentos passos, quando os criados de Baltasar
ouviram o remoto tropel da cavalgadura.
Ao tempo que eles saam do seu esconderijo, saa Joo da Cruz  frente
do cavaleiro. Simo aperrou as pistolas, e o arreeiro uma clavina.
- No h novidade - disse o ferrador -; mas saiba vossa senhoria que j
podia estar em baixo do cavalo com quatro zagalotes no peito.
O arreeiro reconheceu o cunhado, e disse:
- s tu, Joo?
- Sou eu. Vim primeiro que tu.
Simo estendeu a mo ao ferrador, e disse, comovido.
- D c a sua mo; quero sentir na minha a mo dum homem honrado.
- Nas ocasies  que se conhecem os homens - redargiu o ferrador. -
Ora vamos... no h tempo para falatrios. O senhor doutor tem uma
espera.
- Tenho - disse Simo.
- Atrs da igreja esto dois homens que eu no pude conhecer; mas no
se me dava de jurar que so criados do Sr. Baltasar. Salte abaixo do
cavalo, que h de haver mostarda. Eu disse-lhe que no viesse; mas
vossa senhoria veio, e agora  andar com a cara para frente.
- Olhe que eu no tremo, mestre Joo! - disse o filho do corregedor.
- Bem sei que no; mas,  vista do inimigo, veremos.
Simo tinha apeado. O ferrador tomou as rdeas do cavalo, recuou
alguns passos na rua, e foi prend-lo  argola da parede duma
estalagem.
34
Voltou, e disse a Simo que o seguisse a ele e ao cunhado na distncia
de vinte passos; e que, se os visse parar perto do quintal de
Albuquerque, no passasse do ponto donde os visse.
Quis o acadmico protestar contra um plano que o humilhava como
protegido pela defesa dos dois homens; o ferrador, porm, no admitiu
a rplica
- Faa o que eu lhe digo, fidalgo - disse ele com energia.
Joo da Cruz e o cunhado, espiando todas as esquinas, chegaram
defronte do quintal de Teresa, e viram, um vulto a sumir-se no ngulo
da parede.
- Vamos sobre eles - disse o ferrador - que l passaram para o adro da
igreja; nestes entrementes, o doutor chegar  porta do quintal e entra;
depois voltaremos para lhe guardar a sada.
Neste propsito, moveram-se apressados, e Simo Botelho caminhou
com as pistolas aperradas na direo da porta.
Em frente do muro do jardim de Teresa haviam uma cascalheira
escarpada. que se esplainava depois numa alameda sombria.
Os dois criados de Baltasar, quando o tropel do cavalo parou,
recordaram as ordens do amo, no caso de vir a p Simo. Buscaram
sitio azado para o espreitarem na sada, e entraram na alameda quando
o acadmico chegara  porta do quintal.
- Agora est seguro - disse um,
- Se l no ficar dentro... - respondeu o outro, vendo-o entrar, e fecharse
a porta.
- Mas alm vm dois homens... - disse o mais assustado, olhando para
a outra entrada da alameda.
- E vm direitos a ns... Aperra l a cravina...
- O melhor  retirarmos. Ns estamos  espera do outro, e no deste.
Vamos embora daqui...
Este no esperou convencer o companheiro: desceu a ribanceira do
cascalho. O mais intrpido teve tambm a prudncia de todos os
assassinos assalariados: seguiu o assustadio, e deu-lhe razo, quando
ouviu aps de si os passos velozes dos perseguidores. Saiu-lhes o amo
de frente quando dobravam a esquina do quintal, disse-lhes:
- Vocs a que fogem, seus poltres?
Os homens pararam de envergonhados, aperrando os bacamartes.
Joo da Cruz e o arreeiro apareceram, e Baltasar caminhou para eles,
brandando:
- Alto a!
O ferrador disse ao cunhado:
- Fala-lhe tu, que eu no quero que ele me conhea.
- Quem manda fazer alto? - disse o arreeiro.
- So trs clavinas - respondeu Baltasar.
35
- Olha se os demoras a dar tempo que o doutor saa - disse Joo da
Cruz ao ouvido do arreeiro.
- Pois ns c estamos parados - replicou o criado de Simo. - Que nos
querem vocs?
- Quero saber o que tm que fazer neste stio.
- E vocs o que fazem por c?
- No admito perguntas - disse o de Castro-d'Aire, aventurando alguns
passos vacilantes para a frente. - Quero saber quem so.
Mestre Joo disse ao ouvido do cunhado:
- Diz-lhe que, se d mais um passo, que o arrebentas.
O arreeiro repetiu a clusula, e Baltasar parou.
Um dos criados deles chamou-o ao lado para lhe dizer que aquele dos
dois que no falava parecia ser o Joo da Cruz. O morgado duvidou, e
quis esclarecer-se; mas o ferrador ouvira as palavras do criado, e disse
ao cunhado:
- Vem comigo, que eles conhecem-me.
Dizendo, voltou as costas ao grupo, e caminhou ao longo do quintal de
Tadeu de Albuquerque. Os criados de Baltasar, gloriosos da retirada,
como de uma derrota certa, apressaram o passo, na cola dos supostos
fugitivos. O morgado ainda lhes disse que os no seguissem; mas eles,
momentos antes cobardes, queriam desforrar-se agora, correndo aps o
inimigo tanto quanto lhe tinham fugido antes.
Simo Botelho ouvira passos ligeiros, e, compelido pelo susto de Teresa,
abrira a porta do quintal, sem saber ainda de quem fossem os passos.
Joo da Cruz, com ar galhofeiro, j quando os perseguidores se viam,
disse ao filho do corregedor, se estavam ajustando o casamento, que
no havia pano para mangas.
Simo entendeu o perigo, apertou convulsamente a mo de Teresa, e
retirou-se. Queria ele reconhecer os dois vultos parados a distncia, mas
Joo da Cruz, com o tom imperioso de quem obriga  submisso, disse
ao filho do corregedor:
- V por onde veio, e no olhe para trs. Simo foi indo at encontrar o
cavalo. Montou, e esperou os dois inalterveis guardas que o seguiam a
passo vagaroso. Maravilhara-os o sbito desaparecimento dos criados
de Baltasar, e recearam-se de alguma espera fora da cidade. O ferrador
conhecia o atalho que podia levar os da emboscada ao caminho, e
revelou o seu receio a Simo, dizendo-lhe que picasse a toda a brida,
que ele e o cunhado l iriam ter. O acadmico recebeu com enfado a
advertncia, admoestando-os a que o no tivessem em tal vil preo. E
acintemente sofreu as rdeas para no forar os homens a aligeirar o
passo.
- V como quiser - disse mestre Joo - que ns vamos por fora do
caminho.
36
E subiram a uma rampa de olivais, para tornarem a descer encobertos
por moitas de giesta, cosendo-se aos torcicolos duma parede paralela
com a estrada.
- O atalho vai acol onde a serra faz aquele cotovelo - disse o ferrador
ao cunhado, - ho de ali passar, ou j passaram. A estrada vai mesmo
na quebrada daquele outeirinho. Os homens  dali que vo atirar,
encobertos pelos sobreiros. Vamos depressa...
E um pouco descobertos, e outro curvados  sombra das devesas,
chegaram a um valado donde ouviram os passos dos dois homens que
atravessavam o pontilho de um crrego.
- J no vamos a tempo - disse aflito o Joo da Cruz - os homens vo
atirar-lhe, porque o cavalo trupa c muito atrs.
E corriam j sem temor de serem vistos, porque os outros tinham
dobrado o outeiro, em cujo vale corria a estrada.
- Os homens vo atirar-lhe... - disse o ferrador.
- Gritemos daqui ao doutor que no v para diante.
- J no  tempo... Ou o matem ou no matem, quando voltarem so
nossos.
Tinham j passado o pontilho, e subiam a ladeira quando ouviram dois
tiros.
- Arriba! - exclamou Joo da Cruz - que no vo meter-se  estrada, se
mataram o fidalgo.
Tinham vencido o ch, esbofados e ansiados, com as davinas aperradas.
Os criados de Baltasar, ao invs da conjetura do ferrador, retrocediam
pelo mesmo atalho, supondo que os companheiros de Simo iam
adiante batendo os pontos azados  emboscada, ou se tinham
retardado.
- Eles a vm! disse o arreero.
- Ns c estamos - respondeu o ferrador, sentando-se a coberto de um
cmoro. - Senta-te tambm, que eu no estou para correr atrs deles.
Os assassinos, a dez passos, viram de frente erguerem-se os dois vulto,
e ladearam cada qual para seu lado, um galgando os socalcos duma
vinha e outro atirando-se a uns silveirais.
- Atira ao da esquerda - disse Joo da Cruz.
Foram simultneas as exploses. A pontaria do ferrador fez logo um
cadver. Os balotes do arreeiro no estremaram o outro entre o
carrascal onde se embrenhara.
A este tempo assomava Simo no teso donde lhe tinham atirado, e
corria ao ponto onde ouvira o segundo tiro.
-  vossa senhoria, fidalgo - bradou o ferrador.
- Sou.
- No o mataram?
- Creio que no - respondeu Simo.
37
- Este desalmado deixou fugir o melro - tomou Joo da Cruz - mas o
meu l est a pernear na vinha. Sempre lhe quero ver as trombas...
O ferrador desceu os trs socalcos da vinha, e curvou-se sobre o
cadver, dizendo:
- Alma de cntaro, se eu tivesse duas clavinas, no ias sozinho para o
inferno.
- Anda da! - disse o arreeiro - deixa l esse diabo, que o senhor doutor
est ferido num ombro. Vamos depressa, que est o sangue a escorrerlhe.
- Eu vi duas cabeas a espreitarem-me de cima da ribanceira, e cuidei
que eram vocs - disse Simo, enquanto o ferrador, com a destreza de
hbil cirurgio, lhe enfaixava com lenos o brao ferido. - Parei o cavalo,
e disse: "Ol! h novidade?" Logo que me no responderam, saltei para
terra; mas ainda eu tinha um p no estribo quando me fizeram fogo.
Quis saltar  ribanceira, mas no pude romper o mato. Dei uma voltar
grande para achar subida, e foi ento que dei f de estar ferido.
- Isto  uma arranhadura - disse Joo da Cruz - olhe que eu sei disto,
fidalgo! Estou afeito a curar muitas feridas.
- Nos burros, mestre Joo? - disse o ferido, sorrindo.
- E nos cristos tambm, senhor doutor. Olhe que houve em Portugal
um rei que no queria outro mdico seno um alveitar. Hei de mostrarlhe
o meu corpo, que est uma rede de facadas, e nunca fui ao
cirurgio. Com ceroto e vinagre sou capaz de ir ressuscitar aquela alma
do diabo que ali est a escutar a cavalaria.
Nisto ouviu-se um leve rumor de folhagem no matagal para onde tinha
saltado o companheiro do morto.
Joo da Cruz, como galo de fino olfato, fitou a orelha e resmungou:
- Querem vocs ver que eles se armam!.
Dar-se- caso que o outro ainda esteja por ali a tremer maleitas?
O rumor continuou, e logo um bando de pssaros rompeu dentre a
folhagem, chilreando.
- O homem est ali - tornou o ferrador. - Passe-me c uma pistola,
senhor Simo!
Correu mestre Joo, e ao mesmo tempo uma grande restolhada se fez
entre as moitas de codessos e urzes.
- Ele estrina lenha como um porco do monte! - exclamou o ferrador, -
 cunhado, bate este mato com alguns penedos; quero ver sair o javali
da moita!..
Para o outro lado da boua estava um plaino cultivado. Simo, rodeando
a sebe, conseguira saltar ao campo por sobre a pedra dum ageiro.
- Tenha l mo, mestre; no v voc atirar-me! - bradou Simo ao
ferrador.
- Pois o fidalgo j a anda!? Ento est fechado o cerco. Eu c vou fazer
de furo. Se este nos escapa, no h nada seguro neste mundo!
38
No se enganaram. O criado de Baltasar Coutnho, quando se atirara
desamparado  brenha, deslocara um joelho, e cara atordoado. O
arreeiro no examinou o efeito do tiro, porque atirara  ventura, e
achava natural que o fugitivo se no molestasse. Quando volveu a si do
aturdimento da queda, o homem arrastou-se at encontrar um cercado
de rvores silvestres, em que pernoitava a passarinhada. Como os
melros cacarejassem, esvoaando, o criado de Baltasar retrocedeu para
o mato, cuidando que a escaparia; mas o arreeiro jogava enormes
calhaus em todas as direes, e alguns acercavam mais que as balas do
seu bacamarte. Joo da Cruz tirou do bolso da jaqueta um podo, e
comeou a cortar a selva de carvalhas novas e giestas que se
emaranhavam em redor do esconderijo. J cansado, porm, e vendo o
pouco fruto do trabalho, disse ao arreeiro:
- Petisca lume, vai ali dentro buscar um pouco de restolho seco, e
vamos pegar fogo ao mato, que este ladro h de morrer assado.
O perseguido, quando tal ouviu, tirou do maior perigo coragem para
fugir, rompendo a espessura e saltando a parede da tapada para o
campo do restolho em que o arreeiro andava apanhando palha e Simo
esperava o desfecho da montaria. Correram a um tempo o arreeiro e o
acadmico sobre ele, O fugitivo, sentindo-se alcanado, lanou-se de
joelhos e mos erguidas, pedindo perdo, e dizendo que o amo o
obrigaria quela desgraa. J a coronha do bacamarte do arreeiro lhe ia
direita ao peito, quando Simo lhe reteve o brao.
- No se bate num homem ajoelhado! - disse o moo - Levanta-te,
rapaz!
- Eu no posso, senhor. Tenho uma perna quebrada e estou aleijado
para a minha vida!
Neste comenos chegou o ferrador, e exclamou:
- Pois esse tratante ainda est vivo!?
E correu sobre ele com o podo.
- No mate o homem, senhor Joo! - disse o filho do corregedor'.
- Que o no mate! Essa  de cabo de esquadra! Com que ento o fidalgo
quer pagar-me com a forca o favor de o acompanhar... hein?
- Com a forca?! - atalhou Simo.
- Pudera no! Quer que este homem fique para ir contar a histria?
Acha bonito? L vossa senhoria, como  filho de ministro, no ter
perigo; mas eu, que sou ferrador, posso contar que desta vez tenho o
barao no pescoo. No me faz jeito o negcio. Deixe-me c com o
homem...
- No o mate, senhor Joo; peo-lhe eu que o deixe ir. Uma testemunha
no nos pode fazer mal.
- O qu! - redargiu o ferrador - vossa senhoria  doutor, saber muito,
mas de justia no sabe nada. e h de perdoar o meu atrevimento.
Basta uma s testemunha para guiar a justia na devassa. As duas por
39
trs, uma testemunha de vista, e quatro de ouvir dizer, com o fidalgo
Castro-d'Aire a mexer os pauzinhos,  forca certa, como dois e dois
serem quatro.
- Eu no digo nada; no me matem, que eu nem torno a ir para Castrod'Aire
- exclamou o homem.
- Deixe-o ficar, Joo da Cruz... vamos embora...
- Isso! - acudiu o ferrador - Chame-me Joo da Cruz... para este maroto
ficar bem certo de que sou o Joo da Cruz... Como efeito, no sei o que
me parece vossa senhoria querer deixar com vida uma alma do diabo
que lhe deu um tiro para o matar.
- Pois sim, tem voc razo; mas eu no sei castigar miserveis que no
resistem.
- E, se ele o tivesse matado, castigava-o? Responda a isto, senhor
doutor.
- Vamos embora - tornou Simo - deixemos por a esse miservel.
Mestre Joo cismou alguns momentos, coando a cabea, e resmungou
com descontentamento:
- Vamos l. .. Quem o seu inimigo poupa nas mos lhe morre.
Tinham j sado do plano e saltado o tapada, e iam descendo para a
estrada, quando o ferrador exclamou:
- L me ficou a minha clavina escostada  sebe... Vo indo que eu
venho j.
O arreeiro conduzia o cavalo, que pacificamente estivera tosando a relva
das paredes marginais da estrada, quando Simo ouviu gritos.
Conjeturou com certeza o que era.
- O Joo l est a fazer justia! - disse o arreeiro - Deix-lo l, meu
amo, que ele  homem que sabe o que faz.
Joo da Cruz apareceu da a pouco, limpando com fentos o podo
ensangentado.
- Voc  cruel, sr. Joo - disse o acadmico.
- No sou cruel - disse o ferrador - o fidalgo est enganado comigo; 
que, diz l o ditado, morrer por morrer, morra meu pai, que  mais
velho. Tanto faz matar um como dois. Quando se est com a mo na
massa, tanto faz amassar um alqueire como trs. As obras devem ser
acabadas, ou ento o melhor  no se meter a gente nelas. Agora levo a
minha conscincia sossegada. A justia que prove, se quiser; mas no
h de ser porque lho digam aqueles dois que eu mandei de presente ao
diabo.
Simo teve um instante de horror do homicida, e de arrependimento de
se ter ligado com tal homem,
VII
40
O ferimento de Simo Botelho era melindroso demais para obedecer
prontamente ao curativo do ferrador, enfronhado em aforismos de
alveitaria. A bala passara-lhe de revs a poro muscular do brao
esquerdo; mas algum vaso importante rompera, que no bastavam
compressas a vedar-lhe o sangue. Horas depois de ferido, o acadmico
deitou-se febril, deixando-se medicar pelo ferrador. O arreeiro partiu
para Coimbra, encarregado de espalhar a notcia de ter ficado no Porto
Simo Botelho.
Mais que as dores e o receio da amputao, o mortificava a nsia de
saber novas de Teresa. Joo da Cruz estava sempre de sobre-rolda,
precavido contra algum procedimento judicial por suspeitas dele. As
pessoas que vinham de feirar na cidade contavam todas que dois
homens tinham aparecido mortos, e constava serem criados dum fidalgo
de Castrod'Aire, Ningum, porm, ouvira imputar o assassnio a
determinadas pessoas.
Na tarde desse dia recebeu Simo a seguinte carta de Teresa:
"Deus permita que tenhas chegado sem perigo a casa dessa boa gente.
Eu no sei o que se passa. mas h coisa misteriosa que eu no posso
adivinhar. Meu pai tem estado toda a manh fechado com o primo, e a
mim no me deixa sair do quarto. Mandou-me tirar o tinteiro; mas eu
felizmente estava prevenida com outro. Nossa Senhora quis que a pobre
viesse pedir esmola debaixo da janela do meu quarto; seno, eu nem
tinha modo de lhe dar sinal para ela esperar esta carta. No sei o que
ela me disse Falou-me em criados mortos; mas eu no pude entender...
Tua mana Rita est-me acenando por trs dos vidros do teu quarto...
Disse-me agora tua mana que os moos de meu primo tinham aparecido
mortos perto da estrada. Agora j sei tudo. Estive para lhe dizer que tu
a ests, mas no me deram tempo. Meu pai de hora a hora d passeios
no corredor, e solta uns ais muitos altos.
 meu querido Simo, que ser feito de ti?... Ests ferido? Serei eu a
causa da tua morte?
Dize-me o que souberes. Eu j no peo a Deus seno a tua vida. Foge
desses stios: vai para Coimbra, e espera que o tempo melhore a nossa
situao. Tem confiana nesta desgraada, que  digna da tua
dedicao... Chega a pobre: no quero demor-la mais... Perguntei-lhe
se dizia de ti alguma coisa, e ela respondeu que no. Deus o queira".
Respondeu Simo a querer tranqilizar o nimo de Tereza. Do seu
sofrimento falava to de passagem, que dava a supor que nem o
curativo era necessrio. Prometia partir para Coimbra logo que o
pudesse fazer sem receio de Teresa sofrer na sua ausncia. Animava-a
a cham-lo assim que as ameaas do convento passassem a ser
realizadas.
41
Entretanto, Baltasar Coutinho, chamado s autoridades judicirias para
esclarecer a devassa instaurada, respondeu que efetivamente os
homens mortos eram seus criados, de quem ele e sua famlia se
acompanhara de Castro-d'Aire. Acrescentou que no sabia que eles
tivessem inimigos em Viseu, nem tinha contra algum as mais leves
presunes.
Os mais prximos vizinhos da localidade onde os cadveres tinham
aparecido apenas depunham que, alta noite, tinham ouvido dois tiros ao
mesmo tempo, e outro pouco depois. Um apenas adiantava coisa que
no podia alumiar a justia, e vinha a ser que o mato, nas vizinhanas
do local, fora chapotado. Nesta escuridade a justia no podia dar passo
algum.
Tadeu de Albuquerque era conivente no atentado contra a vida de
Simo Botelho. Fora seu  alvitre, quando o sobrinho denunciou a causa
das sadas freqentes de Teresa na noite do baile. Tanto ao velho como
ao morgado convinha apagar algum indcio que pudesse envolv-los no
mistrio daquelas duas mortes. Os criados no mereciam as penas dum
desforo que implicasse o desdouro de seus amos. Provas contra Simo
Botelho no podiam aduzi-las. Aquela hora o supunham eles a caminho
de Coimbra, ou refugiado em casa de seu pai. Restava-lhes ainda a
esperana de que ele tivesse sido ferido, e fosse acabar longe do local
em que o tinham assaltado.
Enquanto a Teresa, resolveu Albuquerque encerr-la num convento do
Porto, e escolheu Monchique, onde era prioresa uma sua prxima
parenta. Escreveu  prelada para lhe preparar aposentos, e ao
procurador para negociar as licenas eclesisticas para a entrada.
Todavia, receando o velho algum incidente no espao de tempo que
medeava at se conseguirem as licenas, resolveu no ter consigo
Teresa, e solicitou a reteno temporria dela num convento de Viseu.
Acabara Teresa de ler e esconder no seio a resposta de Simo Botelho
que a mendiga lhe passara ao escurecer, pendente de uma linha,
quando o pai entrou no seu quarto, e a mandou vestir-se. A menina
obedeceu, tomando uma capa e um leno,
- Vista-se como quem : lembre-se que ainda tem os meus apelidos -
disse com severidade o velho.
- Cuidei que no era preciso vestir-me melhor para sair  noite... - disse
Teresa.
- E a senhora sabe para onde vai?
- No sei... meu pai.
- Ento vista-se, e no me d leis.
- Mas, meu pai. atenda-me um momento.
- Diga.
- Se a sua idia  obrigar-me a casar com meu primo...
- E da?
42
- De certo no caso; morro, e morro contente, mas no caso.
- Nem ele a quer. A senhora  indigna de Baltasar Coutinho. Um homem
do meu sangue no aceita para esposa uma mulher que fala de noite
aos amantes nos quintais. Vista-se depressa, que vai para um convento.
- Prontamente, meu pai. Esse destino lho pedi eu muitas vezes.
- No quero reflexes. Daqui a pouco aparea-me vestida. Suas primas
esperam-na para a acompanharem.
Quando se viu sozinha, Teresa debulhou-se em lgrimas, e quis
escrever a Simo. Aquela hora quem lhe levaria a carta? Apelou para o
retbulo da Virgem, que ela fizera confidente do seu amor. Pediu-lhe de
joelhos que a protegesse, e desse foras a Simo para resistir ao golpe,
e guardar-lhe constncia atravs dos trabalhos que sucedessem, Depois
vestiu-se, comprimindo contra o seio um embrulho em que levava o
tinteiro, o papel e o macete de cartas de Simo. Saiu do seu quarto,
relanceando os olhos lacrimosos para o painel da Virgem, e,
encontrando o pai, pediu-lhe licena para levar consigo aquela devota
imagem.
- L ir ter - respondeu ele. - Se tivesse tanta vergonha como devoo,
seria mais feliz do que h de ser.
Uma das primas, irms de Baltasar, chamou-a de parte. e segredou-lhe:
-  menina, estava ainda na tua mo dares remdio  desordem desta
casa...
- Qual remdio?! - perguntou Teresa com artificial seriedade.
- Diz a teu pai que no duvidas casar com o mano Baltasar...
- Primo Baltasar no me quer - replicou ela, sorrindo.
- Quem te disse isso, Teresinha?
- Disse-me meu pai.
- Deixa falar teu pai, est desatinado com o amor que te tem. Queres tu
que eu lhe fale.
- Para qu?
- Para se remediar deste modo a desgraa de todos ns.
- Ests a brincar, prima! - redargiu Teresa. - Eu hei de ser tua cunhada
quando no tiver corao. Teu mano tem a certeza de que eu amo outro
homem. Queria viver para ele; mas, se quiserem que eu morra por ele,
abenoarei' todos os meus algozes. Podes dizer isto ao primo Baltasar e
dize-lhe antes que te esquea.
- Ento? Vamos! - disse o velho.
- Estou pronta, meu pai.
Abriu-se a portaria do mosteiro. Teresa entrou sem uma lgrima. Beijou
a mo de seu pai, que ele no ousou recusar-lhe na presena das
freiras. Abraou suas primas, com semblante de regozijo; e, ao fecharse
a porta, exclamou, com grande espanto das monjas:
- Estou mais livre que nunca. A liberdade do corao  tudo.
43
As freiras olharam-se entre si, como se ouvissem na palavra "corao"
uma heresia, uma blasfmia proferida na casa do Senhor.
- Que diz a menina?! - perguntou a prioresa, fitando-a por cima dos
culos, e apanhando no leno de Alcobaa a destilao do esturrinho.
- Disse eu que me sentia aqui muito bem, minha senhora.
- No diga - minha senhora - atalhou a escriv.
- Como hei de dizer?
- Diga: "nossa madre prioresa".
- Pois sim, nossa madre prioresa, disse eu que me sentia aqui muito
bem.
- Mas quem vem para estas casas de Deus no vem para se sentir bem
- tornou a nossa madre prioresa.
- No?! - disse Teresa com sincera admirao.
- Quem para aqui vem, menina, h de mortificar o esprito, e deixar l
fora as paixes mundanas. Ora pois! Aqui est a nossa madre mestra de
novias, a quem compete encaminh-la e dirigi-la.
Teresa no redargiu: fez um gesto de respeito  mestra de novias, e
seguiu o caminho que a prelada lhe ia indicando.
A nossa madre entrou nos seus aposentos, e disse a Teresa que era sua
hspeda enquanto ali estivesse; e ajuntou que no sabia se seu pai
escolheria aquele convento ou outro.
- Que importa que seja um ou outro? - disse Teresa.
-  conforme. Seu pai pode querer que a menina professe em ordem
rica das bentas ou bernardas.
- Professe! - exclamou Teresa. - Eu no quero ser freira aqui, nem
noutra parte.
- A senhora h de ser o que seu pai quiser que seja.
- Freira?! A isso no pode ningum obrigar-me! -recalcitrou Teresa.
- Isso assim  - retorquiu a prioresa - mas, como a menina tem de
noviciado um ano, sobra-lhe tempo para se habituar a esta vida, e ver
que no h vida mais descansada para o corpo, nem mais saudvel para
a alma.
- Mas a nossa madre - tornou Teresa, sorrindo, como se a ironia lhe
fosse habitual - j disse que a estas casas ningum vem para se sentir
bem...
-  um modo de falar, menina. Todos temos as nossas mortificaes e
obrigaes de coro e de servios para que nem sempre o esprito est
bem disposto. Ora vs a. Mas, em comparao do que l vai pelo
mundo, o convento  um paraso. Aqui no h paixes, nem cuidados
que tirem o sono, nem a vontade de comer, bendito seja o Senhor!
Vive-nos umas com as outras como Deus com os anjos. O que uma quer
querem todas. Ms lnguas  coisa que a menina no h de achar aqui,
nem intriguistas, nem murmuraes de soalheiro. Enfim, Deus far o
que for servido. Eu vou  cozinha buscar a ceia da menina, e j volto.
44
Aqui a deixo com a senhora madre organista, que  uma pomba, e com
a nossa mestra de novias, que sabe dizer melhor que eu o que  a
virtude nestas santas casas.
Apenas a prioresa voltou as costas, disse a organista  mestra de
novias:
- Que impostora!
- E que estpida! - acudiu a outra. - A menina no se fie nesta
trapalhona, e veja se seu pai lhe d outra companhia enquanto c
estiver, que a prioresa  a maior intriguista do convento. Depois que fez
sessenta anos, fala das paixes do mundo como quem as conhece por
dentro e por fora. Enquanto foi nova, era a freira que mais escndalos
dava na casa; depois de velha era a mais ridcula porque ainda queria
amar e ser amada; agora, que est decrpita, anda sempre este
mostrengo a fazer misses e a curar indigestes.
Teresa, apesar da sua dor, no pde reprimir uma risada, lembrando-se
da vida de Deus com os anjos que as esposas do Senhor ali viviam, no
dizer da madre prioresa.
Pouco depois, entrou a prelada com a ceia, e saram as duas freiras.
- Que lhe pareceram as duas religiosas que ficaram com a menina? -
disse ela a Teresa.
- Pareceram-me muito bem.
A velha distendeu os beios matizados de meandros de esturrinho
lquido, e regougou:
- Hum!... Est feito, est feito!... Ainda no so das piores; mas, se
fossem melhores, no se perdia nada... Ora vamos a isto, menina; aqui
tem duas pernas de galinha e um caldo que o podem comer os anjos.
- Eu no como nada, minha senhora - disse Teresa.
- Ora essa! No come nada?! H de comer; sem comer ningum resiste.
Paixes... que as leve o porco-sujo!... As mulheres  que ficam
logradas, e eles no tm que perder!... Que eu, c de mim, at ao
presente, Deus louvado, no sei o que sejam paixes; mas quem tem
cinqenta e cinco anos de convento, tem muita experincia do que v
penar s outras doidivanas. E, para no ir mais longe, estas duas que
daqui saram tm pagado bem o seu tributo  asneira, Deus me perdoe,
se peco. A organista tem j os seus quarenta bons, e ainda vai ao
locutrio derreter-se em finezas; a outra, apesar de ser mestra de
novias,  falta doutra que quisesse s-lo, se eu lhe no andasse com o
olho em cima, estragava-me as raparigas.
Este edificante discurso de caridade foi interrompido pela madre escriv,
que vinha, palitando os dentes, pedir  prelada um copinho de certo
vinho estomacal com que todas as noites era brindada.
- Estava eu a dizer a esta menina as peas que so a organista e a
mestra - disse a prioresa.
45
- Oh! so para o que eu lhe prestar! L foram ambas para a cela da
porteira. A esta hora est a menina a ser cortada por aquelas lnguas,
que no perdoam a ningum.
- Vais tu ver se ouves alguma coisa, minha flor? - disse a prelada.
A escriv, contente da misso, foi imperceptivelmente ao longo dos
dormitrios at parar a uma porta, que no vedava o rudo estridente
das risadas.
No entanto, dizia a prelada a Teresa:
- Esta escriv no  m rapariga. S tem o defeito de se tomar da
pingoleta; depois, no h quem a ature. Tem uma boa tena, mas gasta
tudo em vinho, e tem ocasies de entrar no coro a fazer ss que 
mesmo uma desgraa. No tem outro defeito;  uma alma lavada, e
amiga da sua amiga. ~ verdade, que, s vezes... (aqui a prelada
ergueu-se a escutar nos dormitrios, e fechou por dentro a porta); 
verdade que, s vezes, quando anda azoratada, d por paus e por
pedras, e descobre os defeitos das suas amigas. A mim j ela me
assacou um aleive, dizendo que eu, quando saa a ares, no ia s a
ares, e andava por l a fazer o que fazem as outras. Forte pouca
vergonha! L que outra falasse, v; mas ela, que tem sempre uns
namorados pandlhas que bebem com ela na grade, isso l me custa;
mas, enfim, no h ningum perfeito!... Boa rapariga  ela... se no
fosse aquele maldito vcio...
Como tocasse ao coro nesta ocasio, a veneranda prioresa bebeu o
segundo clice do vinho estomacal, e disse a Teresa que a esperasse um
quarto de hora, que ela ia ao coro, e pouco se demoraria. Tinha ela
sado, quando a escriv entrou a tempo que Teresa, com as mos
abertas sobre a face, dizia em si: "Um convento, meu Deus! Isto  que 
um convento?"
- Est sozinha? - disse a escriv.
- Estou, minha senhora.
- Pois aquela grosseira vai-se embora, e deixa uma hspeda sozinha?!
Bem se v que  filha de funileiro!... Pois tinha tempo de ter prtica do
mundo, que tem andado por l que farte... Eu havia de ir ao coro... Mas
no vou, para lhe fazer companhia, menina.
- V, v minha senhora, que eu fico bem sozinha - disse Teresa, com a
esperana de poder desafogar em lgrimas a sua aflio.
- No vou... A menina aqui estarrecia de medo; mas a prelada no tarda
a. Ela, se pode escapar-se do coro, no para l muito tempo. Apostar
que ela lhe esteve a falar mal de mim?
- No, minha senhora, pelo contrrio...
- Ora, diga a verdade, menina! Eu sei que esta cegonha no fala bem de
ningum. Para ela tudo so libertinas e bbedas.
- Nada, no, minha senhora; nada me disse a respeito de alguma freira,
46
- E, se disse, deix-la dizer. Ela o vinho no o bebe, suga-o;  uma
esponja viva. Enquanto  libertinagem, tomara eu tantos mil cruzados
como de amantes ela tem tido! Faz l uma pequena idia, menina!...
A escriv bebeu um clice do vinho da sua prelada, e continuou:
- Faz l uma pequena idia! Ela  velhssima como a s. Quando eu
professei, j ela era velha como agora, com pouca diferena. Ora eu sou
freira h vinte e seis anos. Calcule a menina quantas arrobas de
esturrnho ela tem atulhado naqueles narizes! Pois olhe, quer me creia,
quer no, tenho-lhe conhecido mais de uma dzia de chichisbus, no
falando do padre capelo, que esse ainda agora lhe fornece a garrafeira,
 nossa custa, entende-se.  uma dissipadora dos rendimentos da casa.
Eu, que sou escriv,  que sei o que ela rouba. Eu tenho imensa pena
de ver a menina hospedada em casa desta hipcrita. No se deixe levar
das imposturices dela, meu anjinho. Eu sei que seu pai lhe mandou
falar, e a encarregou de a no deixar escrever, nem receber cartas; mas
olhe, minha filha, se quiser escrever, eu dou-lhe tinteiro, papel, obreias
e o meu quarto, se para l quiser ir escrever. Se tem algum que lhe
escreva, diga-lhe que mande as cartas em meu nome; eu chamo-me
Dionsia da Imaculada Conceio.
- Muita agradecida, minha senhora - disse Teresa, animada pelo
oferecimento. - Quem me dera poder mandar um recado a uma pobre
que mora no beco do...
- O que quiser, menina. Eu mando l logo que for dia. Esteja
descansada. No se fie de algum, seno de mim. Olhe que a mestra de
novias e a organista so duas falsas. No lhes d trela, que, se as
admite  sua confiana, est perdida. Ai vem a lesma... Falemos noutra
coisa...
A prelada vinha entrando, e a escriv prosseguiu assim:
- No h, no h nada mais agradvel que a vida do convento quando
se tem a fortuna de ter uma prelada como a nossa... A! eras tu,
menina? Olha se estivssemos a falar mal de ti!
- Eu sei que tu nunca falas mal de mim - disse a prelada, piscando o
olho a Teresa. - A est essa menina que diga o que eu lhe estive a dizer
das tuas boas qualidades...
- Pois o que eu disse de ti - respondeu sror Dionsia da Imaculada
Conceio - no precisas de perguntar porque felizmente ouviste o que
eu estava dizendo. Oxal que se pudesse dizer o mesmo das outras que
desonram a casa, e trazem aqui tudo intrigado numa meada, que 
mesmo coisa de pecado!
- Ento no vais ao coro, Nini? - tornou a prioresa.
- J agora  tarde... Tu absolves-me da falta, sim?
- Absolvo, absolvo; mas dou-te como penitncia beberes um copinho...
- Do estomacal?
- Pudera!
47
Dionisia cumpriu a penitncia, e saiu para, dizia ela deixar a prelada na
sua hora de orao.
No delongaremos esta amostra do evanglico e exemplar viver do
convento onde Tadeu de Albuquerque mandara sua filha a respirar o
purssimo ar dos anjos, enquanto se lhe preparava crisol mais depurador
dos sedimentos do vcio no convento de Manchique.
Encheu-se o corao de Teresa de amargura e nojo naquelas duas horas
de vida conventual. Ignorava ela que o mundo tinha daquilo. Ouvira
falar dos mosteiros como de um refgio da virtude, da inocncia e das
esperanas imorredoiras. Algumas cartas lera de sua tia, prelada em
Monchique, e por elas formara conceito do que devia ser uma santa.
Daquelas mesmas dominicanas, em cuja casa estava, ouvira dizer s
velhas e devotas fidalgas de Vseu virtudes, maravilhas de caridade, e
at milagres. Que desiluso to triste e, ao mesmo tempo, que nsia de
fugir dali!
A cama de Teresa estava na mesma cela da prioresa, em alcova.
separada, com cortinas de cassa.
Quando a prelada lhe disse que podia deitar-se, querendo, perguntoulhe
a menina se poderia escrever a seu pai. A freira respondeu que no
dia seguinte o faria, posto que o senhor Albuquerque ordenasse que sua
filha no escrevesse; assim mesmo, ajuntou ela, que lho no proibiria,
se tivesse tinteiro e papel na cela.
Teresa deitou-se, e a prelada ajoelhou diante dum oratrio, rezando a
coroa a meia voz, Se o murmrio da orao enfadasse a hspeda, no
teria ela muita razo de queixa, porque a devota monja, ao segundo
Padre-nosso, cabeceava de modo que j no atinou com a primeira Ave-
Maria. Levantou-se, cambaleando uma mesura s imagens do santurio,
foi deitar-se, e pegou a ressonar.
Teresa afastou sutilmente as cortinas do quarto, e tirou de entre o seu
fato o tinteiro de tarraxa e o papel.
A lmpada do oratrio lanava um frouxo raio sobre a cadeira em que
Teresa pusera os seus vestidos. Desceu da cama, ajoelhou ao p da
cadeira, e escreveu a Simo, relatando-lhe minuciosamente os sucessos
daquele dia. A carta rematava assim:
"No receies nada por mim, Simo. Todos estes trabalhos me parecem
leves, se os comparo aos que tens padecido por amor de mim. A
desgraa no abala a minha firmeza, nem deve intimidar os teus
projetos. So alguns dias de tempestade, e mais nada. Qualquer nova
resoluo que meu pai tome dir-te-ei logo, podendo, ou quando puder.
A falta das minhas noticias deves atribu-la sempre ao impossvel. Amame
assim desgraada, porque me parece que os desgraados so os que
mais precisam de amor e de conforto. Vou ver se posso esquecer-me,
dormindo. Como isto  triste, meu querido amigo!... Adeus".
48
VIII
Mariana, a filha de Joo da Cruz, quando viu seu pai pensar a chaga do
brao de Simo, perdeu os sentidos. O ferrador riu estrondosamente da
fraqueza da moa, e o acadmico achou estranha sensibilidade em
mulher afeita a curar as feridas com que seu pai vinha laureado de
todas as feiras e romarias.
- No h ainda um ano que me fizeram trs buracos na cabea, quando
eu fui  Senhora dos Remdios, a Lamego, e foi ela que me tosqueou e
rapou o casco  navalha - disse o ferrador. - Pelo que vejo, o sangue do
fidalgo deu volta ao estmago da rapariga!... Estamos ento bem
aviados! Eu tenho c a minha vida, e queria que ela fosse a enfermeira
do meu doente... s, ou no s, rapariga? - disse ele  filha quando ela
abriu os olhos, com semblante de envergonhada da sua fraqueza.
- Serei com muito gosto, se o pai quiser.
- Pois, ento, moa, se hs de ir costurar para a varanda, vem aqui para
a beira do senhor Simo. D-lhe caldos a mido, e trata-lhe da ferida;
vinagre e mais vinagre, quando ela estiver assim a modo de roxa.
Conversa com ele, no o deixes estar a malucar, nem escrever muito,
que no  bom quando se est fraco do miolo. E vossa senhoria no
tenha aquelas de cerimnia, nem me diga  Mariana - a menina isto, a
menina aquilo.  - rapariga, da c um caldo; rapariga, lava-me o brao,
da c as compressas - e nada de polticas. Ela est aqui como sua
criada, porque eu j lhe disse que, se no fosse o pai de vossa senhoria,
j ela h muito tempo que andava por a s esmolas, ou pior ainda. E
verdade que eu podia deixar-lhe uns benzinhos ganhos ali a suar na
bigorna h dez anos, afora uns quatrocentos mil ris que herdei de
minha me, que Deus haja; mas vossa senhoria bem sabe que, se eu
fosse  forca ou pela barra fora, vinha a justia, e tomava conta de tudo
para as custas.
- Vossemec tem uma casinha sofrvel - atalhou Simo - pode,
querendo, casar a sua filha numa boa casa de lavoura.
- Assim ela quisesse. Maridos no lhe faltam; at o alferes da casa da
Igreja a queria, se eu lhe fizesse doao de tudo, que pouco , mas
ainda quatro mil cruzados bons; o caso  que a moa no tem querido
casar, e eu, a falar a verdade, sou s e mais ela, e tambm no tenho
grande vontade de ficar sem esta companhia, para quem trabalho como
moiro. Se no fosse ela, fidalgo, muitas asneiras tinha eu feito! Quando
vou s feiras ou romarias, se a levo comigo, no bato, nem apanho;
indo sozinho,  desordem certa. A rapariga j conhece quando a pinga
me sobe ao capacete do alambique; puxa-me pela jaqueta, e por bons
49
modos pe-me fora do arraial. Se algum chama para beber mais um
quartilho, ela no me deixa ir, e eu acho graa  obedincia com que me
deixo guiar pela moa, que me pede que no v por alma da me. Eu
c, em ela me pedindo por alma da minha santa mulher, j no sei de
que freguesia sou.
Mariana ouvia o pai. escondendo meio rosto no seu alvssimo avental de
linho. Simo estava-se gozando na simpleza daquele quadro rstico,
mas sublime de naturalidade.
Joo da Cruz foi chamado para ferrar um cavalo, e despediu-se nestes
termos:
- Tenho dito, rapariga; aqui te entrego o nosso doente: trata-o como
quem  e como se fosse teu irmo ou marido.
O rosto de Mariana acerejou-se quando aquela ltima palavra saiu,
natural como todas, da boca de seu pai.
A moa ficou encostada ao batente da alcova de Simo.
- No foi nada boa esta praga que lhe caiu em casa, Mariana! - disse o
acadmico - Fazerem-na enfermeira dum doente, e privarem-na talvez
de ir costurar na sua varanda, e conversar com as pessoas que
passam...
- Que se me d a mim disso? - respondeu ela, sacudindo o avental, e
baixando o cs ao lugar da cintura com infantil graa.
- Sente-se, Mariana; seu pai disse-lhe que se sentasse... V buscar a
sua costura, e d-me dali um folha de papel e um lpis que est na
carteira.
- Mas o pai tambm me disse que o no deixasse escrever... - replicou
ela, sorrindo.
- Pouco, no faz mal. Eu escrevo apenas algumas linhas.
- Veja l o que faz... - tornou ela, dando-lhe o papel e o lpis - Olhe se
alguma carta se perde, e se descobre tudo...
- Tudo o qu, Mariana? Pois sabe alguma coisa.?
- Era preciso que eu fosse tola... Eu no lhe disse j que sabia da sua
amizade a uma menina fidalga da cidade?
- Disse. Mas que tem isso?
- Aconteceu o que eu receava. Vossa senhoria est ai ferido, e toda a
gente fala nuns homens que apareceram mortos.
- Que tenho eu com os homens que apareceram mortos?
- Para que est a fingir-se de novas?! Pois eu no sei que esses homens
eram criados do primo da tal senhora? Parece que vossa senhoria
desconfia de mim, e est a querer guardar um segredo que eu tomara
que ningum soubesse, para que meu pai e o senhor Simo no tenha
alguns trabalhos maiores...
- Tem razo, Mariana; eu no devia esconder de si o mau encontro que
tivemos.
50
- E Deus queira que seja o ltimo!... Tanto tenho pedido ao Senhor dos
Passos que lhe d remdio a essa paixo!... O pior futuro  o que ainda
est por passar...
- No, menina, isto acaba assim: eu vou para Coimbra logo que esteja
bom, e a menina da cidade fica em sua casa.
- Se assim for, j prometi dois arrteis de cera ao Senhor dos Passos;
mas no me diz o corao que vossa senhoria faa o que diz...
- Muito agradecido lhe estou pelo bem que me deseja - disse Simo,
comovido. - No sei o que lhe fiz para lhe merecer a sua amizade.
- Basta ver o que o seu paizinho fez pelo meu - disse ela, limpando as
lgrimas. - O que seria de mim, se ele me faltasse, e se fosse  forca
como toda a gente dizia!... Eu era ainda muito nova quando ele estava
na enxovia. Teria treze anos; mas estava resolvida a atirar-me ao poo,
se ele fosse condenado  morte. Se o degredassem, ento ia com ele; ia
morrer onde ele fosse morrer. No h dia nenhum que eu no pea a
Deus que d a seu pai tantos prazeres como estrelas tem o cu. Fui de
propsito  cidade para beijar os ps  sua mezinha, e vi suas manas,
e uma, que era a mais nova, deu-me uma saa de lapm, que eu ainda
ali tenho guardada como uma relquia. Depois, cada vez que ia  feira,
dava uma grande volta para ver se acertava de encontrar a senhora D.
Ritinha  janela; e muitas vezes vi o senhor Simo. E talvez no saiba
que eu estava a beber na fonte quando vossa senhoria, h dois para
trs anos deu muita pancada nos criados, que era mesmo um rebulio
que parecia o fim do mundo. Eu vim contar ao pai. e ele caiu ao cho a
dar risadas como um doido... Depois nunca mais o vi seno quando
vossa senhoria entrou com o tio de Coimbra; mas j sabia que vinha
para esta desgraa. porque tinha tido um sonho, em que via muito
sangue, e eu estava a chorar porque via uma pessoa muito minha
amiga a cair numa cova muito funda...
- Isso so sonhos, Mariana!...
- So sonhos, so; mas eu nunca sonhei nada que no acontecesse.
Quando o meu pai matou o almocreve, tinha eu sonhado que o via a dar
um tiro noutro homem; antes de minha me morrer, acordei eu a chorar
por ela, e mais ainda viveu dois meses... A gente da cidade ri-se dos
sonhos, mas Deus sabe o que isto ... A vem meu pai... Senhor dos
Passos! No v ser alguma m nova!...
Joo da Cruz entrou com uma carta que recebera da pobre do costume.
Enquanto Simo leu a carta escrita do convento, Mariana fitou os seus
grandes olhos azuis no rosto do acadmico, e, a cada contrao da
fronte dele, angustiava-lhe a ela o corao. No teve mo da sua nsia,
e perguntou:
- E noticia m?
- Tu s muito atrevida, rapariga! - disse Joo da Cruz.
51
- No , no - atalhou o estudante. - No  m noticia, Mariana, Senhor
Joo. deixe-me ter na sua filha uma amiga, que os desgraados  que
sabem avaliar os amigos.
- Isso  verdade; mas eu no me atrevia a perguntar o que a carta diz.
- Nem eu perguntei, meu pai; foi porque me pareceu que o senhor
Simo estava aflito quando lia.
- E no se enganou - tornou o doente, voltando-se para o ferrador. - O
pai arrastou Teresa ao convento.
- Sempre  patife duma vez! - disse o ferrador, fazendo com os braos
instintivamente um movimento de quem aperta s mos um pescoo.
Neste, lance, um observador perspicaz veria luzir nos olhos de Mariana
um claro de inocente alegria.
Simo sentou-se, e escreveu sobre uma cadeira, que Mariana
espontaneamente lhe chegou, dizendo:
- Enquanto escreve, vou olhar pelo caldinho, que est a ferver.
"E necessrio arrancar-te da - dizia a carta de Simo. - Esse convento
h de ter uma evasiva. Procura-a, e dize-me a noite e a hora em que
devo esperar-te. Se no puderes fugir, essas portas ho de abrir-se
diante da minha clera. Se da te mandarem para outro convento mais
longe, avisa-me, que eu irei, sozinho ou acompanhado, roubar-te ao
caminho.  indispensvel que te refaas de nimo para te no
assustarem os arrojos da minha paixo. s minha! No sei de que me
serve a vida, se a no sacrificar a salvar-te. Creio em ti, Teresa, creio.
Ser-me-s fiel na vida e na morte. No sofras com pacincia; luta com
herosmo. A submisso  uma ignomnia quando o poder paternal  uma
afronta. Escreve-me a toda a hora que possas. Eu estou quase bom.
Dize-me uma palavra, chama-me, e eu sentirei que a perda do sangue
no diminui as foras do corao".
Simo pediu a sua carteira, tirou dinheiro em prata, deu-o ao ferrador, e
recomendou-lhe que o entregasse  pobre com a carta.
Depois ficou relendo a de Teresa, e recordando-se da resposta que dera.
Mestre Joo foi  cozinha, e disse a Mariana:
- Desconfio de uma coisa, rapariga.
- O que , meu pai?
- O nosso doente est sem dinheiro.
- Porqu? O pai como sabe isso?
- E que ele pediu-me a carteira para tirar dinheiro, e ela pesava tanto
como uma bexiga de porco cheia de vento.
Isto bole-me c por dentro! Queria oferecer-lhe dinheiro e no sei como
h de ser...
- Eu pensarei nisso, meu pai - disse Mariana. refletindo.
- Pois sim; cogita l tu, que tens melhores idias que eu.
52
- E, se o pai no quiser bulir nos seus quatrocentos, eu tenho aquele
dinheiro dos meus bezerros: so onze moedas de ouro menos um
quarto.
- Pois falaremos: pensa tu no modo de ele aceitar sem remorsos.
Remorsos, na linguagem pouco castigada de mestre Joo, era sinmico
de escrpulos, ou repugnncia.
Foi Mariana levar o caldo a Simo, que lho rejeitou como distrado em
profundo cismar.
- Pois no toma o caldinho? - disse ela com tristeza.
- No posso, no tenho vontade, menina; ser logo. Deixe-me sozinho
algum tempo; v, v; no passe o seu tempo ao p dum doente
aborrecido.
- No me quer aqui? Irei, e voltarei quando vossa senhoria chamar.
Dissera isto Mariana com os olhos a verterem lgrimas.
Simo notou as lgrimas, e pensou um momento na dedicao da
moa; mas no lhe disse palavra alguma.
E ficou pensando na sua espinhosa situao. Deviam de ocorrer-lhe
idias aflitivas que os romancistas raras vezes atribuem aos seus heris.
Nos romances todas as crises se explicam, menos a crise ignbil da falta
de dinheiro. Entendem os novelistas que a matria  baixa e plebia. O
estilo vai de m vontade para coisas rasas. Balzac fala muito em
dinheiro; mas dinheiro a milhes. No conheo, nos cinqenta livros que
tenho dele, um gal num entre ato da sua tragdia a cismar no modo de
arranjar uma quantia com que um usurrio lhe lana, desde a casa do
juiz de paz a todas as esquinas, donde o assaltam o capital e o juro de
oitenta por cento  que os mestres em romances se escapam sempre.
Bem sabem eles que o interesse do leitor se gela a passo igual que o
heri se encolhe nas propores destes heroizinhos de botequim, de
quem o leitor dinheiroso foge por instinto, e o outro foge tambm,
porque no tem que fazer com ele. A coisa  vilmente prosica, de todo
o meu corao o confesso. No  bonito deixar a gente vulgarizar-se o
seu heri a ponto de pensar na falta de dinheiro, um momento depois
que escreveu  mulher estremecida uma carta como aquela de Simo
Botelho. Quem a lesse, diria que o rapaz tinha postadas, em diferentes
estaes das estradas do pas, carroas e folgadas parelhas de mulas
para transportarem a Paris, a Veneza, ou ao Japo a bela fugitiva! A
estradas, naquele tempo, deviam ser boas para isso, mas no tenho a
certeza de que houvesse estradas para o Japo. Agora creio que h,
porque me dizem que h tudo.
Pois eu j lhes fiz saber, leitores, pela boca de mestre Joo, que o filho
do corregedor no tinha dinheiro. Agora lhes digo que era em dinheiro
que ele cismava, quando Mariana lhe trouxe o caldo rejeitado.
A meu ver, deviam atribul-lo estes pensamentos:
Como pagaria a hospitalidade de Joo da Cruz?
53
Com que agradeceria os desvelos de Mariana?
Se Teresa fugisse, com que recurso proveria  subsistncia de ambos?
Ora, Simo Botelho sara de Coimbra com a sua mesada, que no era
grande, e quase lha absorvera o aluguel da cavalgadura, e a gorjeta
generosa que dera ao arreeiro, a quem devia o conhecimento do
prestante ferrador.
As relquias desse dinheiro dera-as ele  portadora da carta naquele dia.
M situao!
Lembrou-se de escrever  me. Que lhe diria ele? Como explicaria a sua
residncia naquela casa? Deste modo no iria ele dar indcios da morte
misteriosa dos dois criados de Baltasar Coutinho?
Alm de que, sobejamente sabia ele que sua me o no amava; e, a
mandar-lhe algum dinheiro em segredo, seria o escassamente
necessrio para a jornada at Coimbra. Pssima situao!
Cansado de pensar, favoreceu-o a providncia dos infelizes com um
sono profundo,
E Mariana entrara p ante p na sala, e, ouvindo-lhe a respirao alta,
aventurou-se a entrar na alcova. Lanou-lhe um leno de cassa sobre o
rosto, em roda do qual zumbia um enxame de moscas. Viu a carteira
sobre uma banqueta que adornava o quarto, pegou nela, e saiu p ante
p. Abriu a carteira, viu papis, que no soube ler, e num dos
repartimentos duas moedas de seis vintis. Foi restituir a carteira ao seu
lugar, e tomou de um cabide as calas, colete e jaqueta  espanhola, do
hspede. Examinou os bolsos e no encontrou um ceitil.
Retirou-se para um canto escuro do sobrado, e meditou. Esteve meia
hora assim, e meditava angustiada a nobre rapariga. Depois ergueu-se
de golpe, conversou longo tempo com o pai. Joo da Cruz escutou-a,
contrariou-a, mas ia de vencida sempre pelas rplicas da filha, at que,
a final, disse:
- Farei o que dizes, Mariana. D-me c o teu dinheiro, que no vou
agora levantar a pedra da lareira para bulir no caixote dos quatrocentos
mil ris. Tanto faz um como outro: teu  ele todo.
Mariana deu-se pressa em ir  arca, donde tirou uma bolsa de linho com
dinheiro em prata, e alguns cordes, anis e arrecadas. Guardou o seu
oiro numa boceta, e deu a bolsa ao pai.
Joo da Cruz aparelhou a gua. e saiu. Mariana foi para a sala do
doente.
Acordou Simo.
- No sabe!? - exclamou ela com semblante entre alegre e assustado,
perfeitamente contrafeito.
- Que , Mariana?
- Sua mezinha sabe que vossa senhoria aqui est.
- Sabe?! Isso  impossvel! Quem lho disse?
- No sei; o que sei  que ela mandou chamar meu pai.
54
- Isso espanta-me!... E no me escreveu?
- No, senhor!... Agora me lembro que talvez ela soubesse que o senhor
aqui esteve, e cuide que j no est, e por isso lhe no escreveu...
Poder ser?
- Poder... Mas quem lho diria!? Se isto se sabe, ento podem suspeitar
da morte dos homens.
- Pode ser que no; e ainda que desconfiem, no h testemunhas. O pai
disse que no tinha medo nenhum. O que for soar. No esteja a cismar
nisso... Vou-lhe buscar o caldinho, sim?
- V, se quer, Mariana. O cu deparou-me em si a amizade duma irm.
No achou a moa na sua alegre alma palavras em resposta  doura
que o rosto do mancebo exprimia.
Veio com o "caldinho" - diminuitivo que a retrica duma linguagem
meiga sanciona; mas contra o qual protestava a larga e funda malga
branca, ao lado da travessa com meia galinha loura, de gorda.
- Tanta coisa! - exclamou, sorrindo, Simo.
- Coma o que puder - disse ela corando. - Eu bem sei que os senhores
da cidade no comem em malgas tamanhas, mas eu no tinha outra
mais pequena; e coma sem nojo, que esta malga nunca serviu, que a fui
eu comprar  loja, por pensar que vossa senhoria no quisera ontem
comer por se atrigar da outra.
- No, Mariana, no seja injusta, eu no tinha, nem tenho vontade.
- Mas coma por eu lhe pedir... Perdoe o meu atrevimento... Faa de
conta que  uma sua irm que lhe pede. Ainda agora me disse...
- Que o cu me dava em si a amizade duma irm...
- Pois a est...
Simo achou to necessrio  sua conservao o sacrifcio, como ao
contentamento da carinhosa Mariana. Passou-lhe na mente, sem
sombra de vaidade, a conjetura de que era amado daquela doce
criatura. Entre si dizia que seria uma crueza mostrar-se conhecedor de
tal afeio quando no tinha alma para lha premiar, nem para lhe
mentir. Assim mesmo, bem longe de se afligir, lisonjeavam-no os
desvelos da gentil moa. Ningum sente em si o peso do amor que se
inspira e no comparte. Nas mximas aflies, nas derradeiras horas do
corao e da vida,  grato ainda sentir-se amado quem j no pode
achar no amor diverso das penas, nem soldar o ltimo fio que se est
partindo. Orgulho ou insaciabilidade do corao humano, seja o que for,
no amor que nos do ns graduamos o que valemos em nossa
conscincia.
No desprazia, portanto, o amor de Mariana ao amante apaixonado de
Teresa. Isto ser culpa no severo tribunal das minhas leitoras; mas, se
me deixam ter opinio, a culpa de Simo Botelho est na fraca
natureza, que  toda galas no cu, no mar e na terra, e toda
55
incoerncias, absurdas e vcios no homem, que se aclamou a si prprio
rei da criao, e nesta boa f dinstica vai vivendo e morrendo.
IX
Duas horas se detivera Joo da Cruz fora de casa. Chegou quando a
curiosidade do estudante era j sofrimento.
- Estar seu pai preso?! - disse ele a Mariana.
- No mo diz o corao, e o meu corao nunca me engana -
respondera ela.
E Simo replicara:
- E que lhe diz o corao a meu respeito, Mariana? Os meus trabalhos
ficaro aqui?
- Vou-lhe dizer a verdade, senhor Simo... mas no digo...
- Diga que lho peo, porque tenho f no bom anjo que fala em sua
alma. Diga...
- Pois sim... O meu corao diz-me que os seus trabalhos ainda esto
no comeo...
Simo ouviu-a atentamente e no respondeu. Assombrou-lhe o nimo
esta idia torva, e afrontosa  singela rapariga: - "Pensar ela em me
desviar de Teresa, para se fazer amar?"
Pensava assim quando chegou o ferrador.
- Aqui estou de volta - disse ele com semblante festivo. - Sua me
mandou-me chamar...
- J sei... E como soube ela que eu estava aqui?
- Ela sabia que o fidalgo estivera c: mas cuidava que vossa senhoria j
tinha ido para Coimbra. Quem lho disse no sei, nem perguntei; porque
a uma pessoa de respeito no se fazem perguntas. Dizia ela que sabia o
fim a que o senhor viera esconder-se aqui. Ralhou alguma coisa; mas
eu, c como pude, acomodei-a e no h novidade. Perguntou-me o que
estava o menino fazendo aqui depois que a fidalguinha fora para o
convento. Disse-lhe que vossa senhoria estava adoentado de uma queda
que dera do cavalo abaixo. Tornou ela a perguntar-me se o senhor tinha
dinheiro; e eu disse que no sabia. E, vai ela, foi dentro, e voltou dai a
pouco com este embrulho, para eu lhe entregar. A o tem tal e qual; no
sei quanto .
- E no me escreveu?
- Disse que no podia ir  escrivaninha, porque estava l o senhor
corregedor - respondeu com firmeza mestre Joo - e tambm me
recomendou que no lhe escrevesse vossa senhoria seno de Coimbra,
porque, se seu pai soubesse que o menino c estava, ia tudo raso l em
casa. Ora ai est.
56
- E no lhe falou nos criados de Baltasar?
- Nem um pio!... L na cidade ningum j falava nisso hoje.
- E que lhe disse da senhora D. Teresa?
- Nada, seno que ela fora para o convento. Agora deixe-me ir amantar
a gua, que est a escorrer em fio.  rapariga, traze-me c a manta.
Enquanto Simo contava onze moedas menos um quartinho,
maravilhando da estranha liberalidade, Mariana, abraando o pai no
repartimento vizinho da casa, exclamava:
- Arranjou muito bem a mentira!
-  rapariga, quem mentiu foste tu! Aquilo l o arranjaste tu com essa
tua cabecinha! Mas a coisa saiu ao pintar, hein? Ele comeu-a que nem
confeitos! Anda l, que ficaste sem os bezerros, mas l vir tempo em
que ele te d bois a troco de bezerros.
- Eu no fiz isto por interesse, meu pai... - atalhou ela, ressentida.
- Olha o milagre! isso sei eu: mas, como diz l o ditado; quem semeia,
colhe.
Mariana quedou pensativa, e dizendo entre si: - Ainda bem que ele no
pode pensar de mim o que meu pai pensa. Deus sabe que no tenho
esperanas nenhumas interesseiras no que fiz.
Simo chamou o ferrador, e disse-lhe:
- Meu caro Joo, se eu no tivesse dinheiro, aceitava sem repugnncia
os seus favores, e creio que vossemec mos faria sem esperana de
ganhar com eles; mas, como recebi esta quantia, h de consentir que
lhe d parte dela para os meus alimentos. Motivos de gratido a dividas
que se no pagam. ainda me ficam muitos para nunca me esquecer de
si e da sua boa filha. Tome este dinheiro.
- As contas fazem-se no fim - respondeu o ferrador, retirando a mo - e
ningum nos h de ouvir, se Deus quiser. Precisando eu de dinheiro, c
venha. Por ora, ainda est a capoeira cheia de galinhas, e o po coze-se
todas as semanas.
- Mas aceite - instou Simo - e d-lhe a aplicao que quiser.
- Em minha casa ningum d leis seno eu - replicou mestre Joo, com
simulado enfadamento. - Guarde l o seu dinheiro, fidalgo, e no
falemos mais nisso, se quer que o negcio v direito at ao fim. E victosrio!
Nos cinco subseqentes dias recebeu Simo regularmente cartas de
Teresa, umas resignadas e confortadoras, outras escritas na violncia
exasperada da saudade. Em uma dizia:
"Meu pai deve saber que ests a, e, enquanto a estiveres, decerto me
no tira do convento. Seria bom que fosses para Coimbra, e
deixssemos esquecer a meu pai os ltimos acontecimentos. Seno,
meu querido esposo, nem ele me d liberdade, nem eu sei como hei de
fugir deste inferno. No fazes idia do que  um convento! Se eu
pudesse fazer do meu corao sacrifcio a Deus, teria de procurar uma
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atmosfera menos viciosa que esta. Creio que em toda a parte se pode
orar e ser virtuosa, menos neste convento".
Noutra carta exprimia-se assim:
"No me desampares, Simo; no vs para Coimbra. Eu receio que meu
pai me queira mudar deste convento para outro mais rigoroso. Uma
freira me disse que eu no ficava aqui; outra positivamente me afirmou
que o pai diligencia a minha ida para um mosteiro do Porto. Sobretudo,
o que me aterra, mas no me dobra,  saber eu que o intento do pai 
fazer-me professar. Por mais que imagine violncias e tiranias,
nenhuma vejo capaz de me arrancar os votos. Eu no posso professar
sem ser novia um ano, e ir a perguntar trs vezes; hei de responder
sempre que no. Se eu pudesse fugir daqui!... Ontem fui  cerca, e vi l
uma porta de carro que d para o caminho. Soube que algumas vezes
aquela porta se abre para entrarem carros de lenha; mas infelizmente
no se torna a abrir at ao principio do inverno. Se no puder antes,
meu Simo, fugirei nesse tempo".
Tiveram, entretanto, bom e pronto xito as diligncias de Tadeu de
Albuquerque. A prelada de Monchique, religiosa de sumas virtudes,
cuidando que a filha de seu primo muito de sua devoo e amor a Deus
se recolhia ao mosteiro, preparou-lhe casa, e congratulou-se com a
sobrinha de to piedosa resoluo. A carta congratulatria no a
recebeu Teresa, porque viera  mo de seu pai. Continha ela reflexes
tendentes a desvanec-la do propsito, se algum desgosto passageiro a
impedia  imprudncia de procurar um refgio onde as paixes se
exacerbavam mais.
Tomadas todas as precaues, Tadeu de Albuquerque fez avisar sua
filha de que sua tia de Monchique a queria ter em sua companhia algum
tempo, e que a jornada se faria na madrugada do dia seguinte.
Teresa, quando recebeu a surpreendente nova, j tinha enviado a carta
daquele dia a Simo. Em sua aflitiva perplexidade, resolveu fazer-se
doente, e to febril estava das comoes, que dispensava o artifcio. O
velho no queria transigir com a doena; mas o mdico do mosteiro
reagiu contra a desumanidade do pai e da prioresa, interessada na
violncia. Quis Teresa nessa noite escrever a Simo; mas a criada da
prelada, obedecendo s suspeitas da ama, no desamparou a cabeceira
do leito da enferma. Era causa a esta espionagem ter dito a escriv,
numa hora de m digesto daquele certo vinho estomacal, que Teresa
passava as noites em orao mental, e tinha correspondncia com um
anjo do cu por interveno duma mendiga. Algumas religiosas tinham
visto a mendiga no ptio do convento esperando a esmola de Teresa;
mas cuidaram que era aquela pobre uma devoo da menina. As
palavras irnicas da escriv foram comentadas, e a mendiga recebeu
ordem de sair da portaria. Teresa, num mpeto de angstia, quando tal
soube, correu a uma janela, e chamou a pobre, que se retirava
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assustada, e lanou-lhe ao ptio um bilhete com estas palavras: "
impossvel a nossa correspondncia. Vou ser tirada daqui para outro
convento. Espera em Coimbra notcias minhas". Isto foi rapidamente ao
conhecimento da prioresa, e, logo, s ordens dela, partiu o hortelo no
encalo da pobre. O hortelo seguiu-a at fora da porta, espancou-a,
tirou-lhe o bilhete, e foi do convento apresent-lo a Tadeu de
Albuquerque, A mendiga no retrocedeu; caminhou a casa do ferrador,
e contou a Simo o acontecido.
Simo lanou-se fora do leito e chamou Joo da Cruz. Naquele aperto
queria ouvir uma voz, queria poder chamar amigo a um homem que lhe
estendesse mo capaz de apertar o cabo dum punhal. O ferrador ouviu
a histria e deu o seu voto: "esperar at ver". Simo repeliu a
prudencial frieza do confidente, e disse que partia para Viseu
imediatamente.
Mariana estava ali; ouvira a confidncia, e achara acertada a opinio de
seu pai. Vedando, porm, a impacincia do hspede, pediu licena para
falar onde no era chamada, e disse:
- Se o senhor Simo quer, eu vou  cidade e procuro no convento a
Brito, que  uma rapariga minha conhecida, moa duma freira, e doulhe
uma carta sua para entregar  fidalga.
- Isso  possvel, Mariana? - exclamou Simo, a ponto de abraar a
moa.
- Pois ento! - disse o ferrador - o que pode fazer-se, faz-se. Vai-te
vestir, rapariga, que eu vou botar o albardo  gua.
Simo sentou-se a escrever. To embaralhadas lhe acudiam as idias,
que no atinava a formar o desgnio mais proveitoso  situao de
ambos. Ao cabo de longa vacilao, disse a Teresa que fugisse,  hora
do dia, quando a porta estivesse aberta ou violentasse a porteira a
abrir-lhe. Dizia-lhe que marcasse ela a hora do dia seguinte em que ele
a devia esperar com cavalgaduras para a fuga. Em recurso extremo,
prometia assaltar com homens armados o mosteiro, ou incendi-lo para
se abrirem as portas. Este programa era o mais parecido com o esprito
do acadmico. Em vivo fogo ardia aquela pobre cabea! Fechada a
carta, comeou a passear em torcicolos, como se obedecesse a
desencontrados impulsos. Encravara as unhas na cabea, e arrancava os
cabelos. Investia como cego contra as paredes, e sentava-se um
momento para erguer-se de mais furioso mpeto. Maquinalmente
aferrava das pistolas, e sacudia os braos vertiginosos. Abria a carta
para rel-la, e estava a ponto de rasg-la, cuidando que iria tarde, ou
no lhe chegaria s mos. Neste conflito de contrrios projetos, entrou
Mariana, e muito alucinado devia de estar Simo para lhe no ver as
lgrimas.
O que tu sofrias, nobre corao de mulher pura! Se o que fazes por esse
moo  gratido ao homem que salvou a vida de teu pai, que rara
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virtude a tua! Se o amas, se por lhe dar alvio s dores tu mesma lhe
desempeces o caminho por onde te ele h de fugir para sempre, que
nome darei ao teu herosmo! Que anjo te fadou o corao para a
santidade desse obscuro martrio?!
- Estou pronta, disse Mariana.
- Aqui tem a carta, minha boa amiga. Faa muito por no vir sem
resposta - disse Simo, dando-lhe com a carta um embrulho de
dinheiro.
- E o dinheiro tambm  para a senhora? - disse ela.
- No,  para si, Mariana: compre um anel.
Mariana tomou a carta, e voltou rapidamente as costas para que Simo
no lhe visse o gesto de despeito seno desprezo.
O acadmico no ousou insistir, vendo-a apressar-se na descida para o
quinteiro, onde o ferrador enfreava a gua.
- No lhe chegues muito com a vara - disse Joo da Cruz a Mariana,
que, de um pulo, se assentou no albardo, coberto de uma colcha
escarlate. - Tu vais amarela como cidra, moa! - exclamou ele
reparando na palidez da filha - Tu. que tens?
- Nada; que hei de eu ter?! d-me c a vara, meu pai.
A gua partiu a galope, e o ferrador, no meio da estrada, a rever-se na
filha e na gua, dizia em solilquio, que Simo ouvira:
- Vales tu mais, rapariga, que quantas fidalgas tem Viseu! Pela mais
pintada no dava eu a minha gua; e, se c viesse o Miramolim de
Marrocas pedir-me a filha, os diabos me levem se eu lha dava! Isto 
que so mulheres, e o mais  uma histria!
X
Apeou Mariana defronte do mosteiro, e foi  portaria chamar a sua
amiga Brito.
- Que boa moa! - disse o padre capelo, que estava no raro lateral da
porta, praticando com a prioresa, acerca da salvao das almas, e de
umas coretas de vinho do Pinho que ele recebera naquele dia, e do
qual j tinha engarrafado um almude para tonizar o estmago da
prelada.
- Que boa moa! - tornou ele, com um olho nela e outro no raro, onde a
ciumosa prioresa se estava remordendo.
- Deixe l a moa, e diga quando h de ir a servente buscar o vinho.
- Quando quiser, senhora prioresa. Mas repare bem nos olhos, no feitio,
naquele todo da rapariga!...
- Pois repare o senhor padre Joo - replicou a freira - que eu tenho mais
que fazer.
E retirou-se com o corao mal-ferido, e o queixo superior escorrendo
lgrimas... de simonte,
60
- Donde  vossemec? - disse brandamente o padre capelo.
- Sou da aldeia - respondeu Mariana.
- Isso vejo eu... Mas de que aldeia ?
- No me confesso agora.
- Mas no faria mal se se confessasse a mim, menina, que sou padre...
- Bem vejo.
- Que mal gnio tem!...
-  isto que v.
- Quem procura c no convento?
- J disse l para dentro quem procuro.
- Mariana, s tu?! Anda c!
A moa fez uma cortesia de cabea ao padre capelo, e foi ao locutrio
donde vinha aquela voz.
- Eu queria falar contigo em particular, Joaquina - disse Mariana.
- Eu vou ver se arranjo uma grade: espera a..
O padre tinha sado do ptio, e Mariana, enquanto esperava, examinou,
uma a uma, as janelas do mosteiro. Numa das janelas, atravs das
reixas de ferro, viu ela uma senhora sem hbito.
- Ser aquela? - perguntou Mariana ao seu corao, que palpitava - Se
eu fosse amada como ela!...
- Sobe aquelas escadinhas, Mariana, e entra na primeira porta do
corredor, que eu l vou - disse Joaquina.
Mariana deu alguns passos, olhou novamente para a janela onde vira a
senhora sem hbito, e repetiu ainda:
- Se eu fosse amada como ela!...
Mal entrou na grade, disse  sua amiga:
- Olha l, Joaquina, quem  uma menina muito branca, alva como leite,
que estava ali agora numa janela?
- Seria alguma novia, que h duas c muito lindas.
- Mas ela no tinha vestimenta nenhuma de freira.
- Ah! j sei;  a D. Teresinha de Albuquerque.
- Ento no me enganei - disse Mariana, pensativa.
- Pois tu conhece-la?
- No; mas por amor dela  que eu c vim falar contigo.
- Ento que ?! Que tens tu com a fidalga?
- Eu c, por mim nada; mas com uma pessoa que lhe quer muito.
- O filho do corregedor?
- Esse mesmo.
- Mas esse est em Coimbra,
- No sei se est, nem se no. Faz-me tu um favor?
- Se eu puder...
- Podes... Eu queria falar com ela.
-  diabo! Isso no sei se poder ser, porque a trazem as freiras
debaixo de olho, e ela vai-se embora amanh.
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- Para onde vai?
- Vai para outro convento, no sei se de Lisboa, se do Porto. Os bas j
esto preparados, e ela est morta por sair. E tu que lhe queres?
- No to posso dizer, porque no sei... Queria dar-lhe um papel... Faze
com que ela venha c, que eu dou-te chita para um vestido.
- Como tu ests rica, Mariana!... - atalhou, rindo, Joaquina. - Eu no
quero a tua chita, rapariga. Se eu puder dizer-lhe que venha, sem que
algum me oua, digo-lho. E agora  boa mar, porque tocou ao coro...
Deixa-me ir l...
Joaquina saiu-se bem da difcil comisso. Teresa estava sozinha,
absorvida a cismar, com os olhos fitos no ponto onde vira Mariana.
- A menina faz favor de vir comigo depressinha? - disse-lhe a criada.
Seguiu-a Teresa, e entrou na grade, que Joaquina fechou, dizendo:
- O mais breve que possa bata por dentro para eu lhe abrir a porta. Se
perguntarem por vossa excelncia, digo-lhe que a menina est no
mirante.
A voz de Mariana tremia, quando D. Teresa lhe perguntou quem era.
- Sou uma portadora desta carta para vossa excelncia.
-  de Simo! - exclamou Teresa.
- Sim, minha senhora.
A reclusa leu convulsiva a carta duas vezes, e disse:
- Eu no posso escrever-lhe, que me roubaram o meu tinteiro, e
ningum me empresta um. Diga-lhe que vou de madrugada para o
convento de Monchique, do Porto. Que se no aflija, porque eu sou
sempre a mesma. Que no venha c, porque isso seria intil, e muito
perigoso. Que v ver-me ao Porto, que hei de arranjar modo de lhe
falar. Diga-lhe isto, sim?
- Sim, minha senhora.
- No se esquea, no? Vir c, por modo nenhum.  impossvel fugir, e
vou muito acompanhada. Vai o primo Baltasar e as minhas primas, e
meu pai e no sei quantos criados de bagagem e das liteiras. Tirar-me
no caminho  uma locura com resultados funestos. Diga-lhe tudo, sim?
Joaquina disse fora da porta:
- Menina, olhe que a prioresa anda l por dentro a procur-la.
- Adeus, adeus - disse Teresa, sobressaltada. - Tome l esta lembrana
como prova de minha gratido.
E tirou do dedo um anel de ouro, que ofereceu a Mariana.
- No aceito minha senhora.
- Por que no aceita?
- Porque no fiz algum favor a vossa excelncia. A receber alguma paga
h de ser de quem c me mandou. Fique com Deus, minha senhora, e
oxal que seja feliz.
Saiu Teresa, e Joaquina entrou na grade.
- J te vais embora, Mariana?
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- Vou, que  pressa; um dia virei conversar contigo muito. Adeus,
Joaquina.
- Pois no me contas o que isto ? O amor da fidalga est perto daqui?
Conta, que eu no digo nada, rapariga!...
- Outra vez, outra vez; obrigada, Joaquina?
Mariana, durante a veloz caminhada, foi repetindo o recado da fidalga;
e, se alguma vez se distraia deste exerccio de memria, era para
pensar nas feies da amada do seu hspede, e dizer, como em
segredo, ao seu corao: "No lhe bastava ser fidalga e rica: , alm de
tudo, linda como nunca vi outra!" E o corao da pobre moa,
avergando ao que a conscincia lhe ia dizendo, chorava.
Simo, de uma fresta do postigo do seu quarto, espreitava ao longo do
caminho, ou escutava a estropeada da cavalgadura.
Ao descobrir Mariana, desceu ao quinteiro, desprezando cautelas e
esquecido j do ferimento, cuja crise de perigo piorara naquele dia, que
era o oitavo depois do tiro.
A filha do ferrador deu o recado, e sem alterao de palavra. Simo
escutara-a placidamente at ao ponto em que lhe ela disse que o primo
Baltasar a acompanhava ao Porto.
- O primo Baltasar!... - murmurou ele com um sorriso sinistro - Sempre
este primo Baltasar cavando a sua sepultura e a minha!...
- A sua, fidalgo! - exclamou Joo da Cruz. - Morra ele, que o levem
trinta milhes de diabos! Mas vossa senhoria h de viver enquanto eu
for Joo. Deixe-a ir para o Porto, que no tem perigo no convento. De
hora a hora Deus melhora. O senhor doutor vai para Coimbra, est por
l algum tempo, e s duas por trs, quando o velho mal se precatar, a
fidalguinha engrampa-o, e  sua to certo como esta luz que nos
alumia.
- Eu hei de v-la antes de partir para Coimbra - disse Simo.
- Olhe que ela recomendou-me muito que no fosse l - acudiu Mariana.
- Por causa do primo? - tornou o acadmico ironicamente.
- Acho que sim, e por talvez no servir de nada l ir vossa senhoria -
respondeu timidamente a moa.
- L, se quer, - brandou mestre Joo - a mulher, vai-se-lhe tirar ao
caminho. No tem mais que dizer.
- Meu pai, no meta este senhor em maiores trabalhos? - disse Mariana.
- No tem dvida menina - atalhou Simo - eu  que no quero meter
ningum em trabalhos. Com a minha desgraa, por maior que ela seja,
hei de eu lutar sozinho.
Joo da Cruz, assumiu uma gravidade de que a sua figura raras vezes
se enobrecia, disse:
- Senhor Simo, vossa senhoria no sabe nada do mundo. No meta
sozinho a cabea aos trabalhos, que eles, como o outro que diz, quando
pegam de ensarrilhar um homem, no lhe deixam tomar flego. Eu sou
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um rstico; mas, a bem dizer, estou naquela daquele que dizia que o
mal dos seus burrinhos o fizera alveitar. Paixes... que as leve o diabo,
e mais quem com elas engorda. Por causa de uma mulher, ainda que ela
seja filha do rei, no se h de um homem botar a perder. Mulheres h
tantas como a praga, e so como as rs do charco, que mergulha uma,
e aparecem quatro  tona da gua. Um homem rico e fidalgo como
vossa senhoria, onde quer topa uma com um palmo de cara como se
quer e um dote de encher o olho. Deixe-a ir com Deus ou com a breca,
que ela, se tiver de ser sua, no lhe h de vir dar, tanto andar para trs
como para diante:  ditado dos antigos. Olhe que isto no  medo,
fidalgo. Tome sentido, que Joo da Cruz sabe o que  pr dois homens
duma feita a olhar o sete-estrelo, mas no sabe o que  medo. Se o
senhor quer sair  estrada e tirar a tal pessoa ao pai, ao primo, e a um
regimento, se for necessrio, eu vou montar na gua, e daqui a trs
horas estou de volta com quatro homens, que so quatro drages.
Simo fitara os olhos chamejantes no do ferrador, e Mariana exclamara,
ajuntando as mos sobre o seio:
- Meu pai, no lhe d esses conselhos!...
- Cala-te a, rapariga! - disse mestre Joo. - Vai tirar o albardo  gua,
amanta-a, e bota-lhe seco. No s aqui chamada.
- No v aflita, senhora - disse Simo  moa, que se retirava,
amargurada. - Eu no aproveito alguns dos conselhos de seu pai. Ouoo
com boa vontade, porque sei que quer o meu bem; mas hei de fazer o
que a honra e o corao me aconselharem.
Ao anoitecer, Simo, como estivesse sozinho, escreveu uma longa carta,
da qual extratamos os seguintes perodos:
"Considero-te perdida, Teresa. O Sol de amanh pode ser que eu o no
veja. Tudo, em volta de mim, tem uma cor de morte. Parece que o frio
da minha sepultura me est passando o sangue e os ossos.
No posso ser o que tu querias que eu fosse. A minha paixo no se
conforma com a desgraa. Eras a minha vida: tinha a certeza de que as
contrariedades me no privavam de ti, S o receio de perder-te me
mata. O que me resta do passado  a coragem de ir buscar uma morte
digna de mim e de ti. Se tens fora para uma agonia lenta, eu no
posso com ela.
Poderia viver com a paixo infeliz; mas este rancor sem vingana  um
inferno. No hei de dar barata a vida, no. Ficars sem mim, Teresa;
mas no haver ai um infame que te persiga depois da minha morte.
Tenho cimes de todas as tuas horas. Hs de pensar com muita
saudade no teu esposo do cu, e nunca tirars de mim os olhos da tua
alma para veres ao p de ti o miservel que nos matou a realidade de
tantas esperanas formosas.
Tu vers esta carta quando eu j estiver num outro mundo, esperando
as oraes das tuas lgrimas. As oraes! Admiro-me desta fasca de f
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que me alumia nas minhas trevas.!... Tu deras-me com o amor a
religio, Teresa. Ainda creio; no se apaga a luz, que  tua; mas a
providncia divina desamparou-me.
Lembra-te de mim. Vive, para explicares ao mundo, com a tua lealdade
a uma sombra, a razo por que me atraste a um abismo. Escutars
com glria a voz do mundo, dizendo que eras digna de mim.
A hora em que leres esta carta..."
No o deixaram continuar as lgrimas, nem depois a presena de
Mariana. Vinha ela pr a mesa para a ceia, e, quando desdobrava a
toalha, disse em voz abafada, como se a si mesma somente o dissesse:
-  a ltima vez que ponho a mesa ao senhor Simo em minha casa!
- Por que diz isso, Mariana?
- Por que mo diz o corao.
Desta vez, o acadmico ponderou supersticiosamente os ditames do
corao da moa, e com o silncio meditativo deu-lhe a ela a evidncia
antecipada do vaticnio.
Quando voltou com a travessa da galinha, vinha chorando a filha de
Joo da Cruz.
- Chora com pena de mim, Mariana? - disse Simo, enternecido.
- Choro, porque me parece que o no tornarei a ver; ou, se o vir, ser
de modo que oxal que eu morresse antes de o ver.
- No ser, talvez, assim, minha amiga...
- Vossa senhoria no me faz uma coisa que eu lhe peo?
- Veremos o que pede, menina.
- No saia esta noite, nem amanh,
- Pede o impossvel, Mariana. Hei de sair, porque me mataria se no
sasse.
- Ento perdoe a minha ousadia. Deus o tenha da sua mo.
A rapariga foi contar ao pai as intenes do acadmico. Acudiu logo
mestre Joo combatendo a idia da sada, com encarecer os perigos do
ferimento. Depois, como no conseguisse dissuadi-lo, resolveu
acompanh-lo. Simo agradeceu a companhia, mas rejeitou-a com
deciso. O ferrador no cedia do propsito, e estava j preparando a
clavina, e arraoando com medida dobrada a gua - para o que desse e
viesse - dizia ele, quando o estudante lhe disse que, melhor avisado,
resolvera no ir a Viseu, e seguir Teresa ao Porto, passados os dias de
convalescena. Facilmente o acreditou Joo da Cruz; mas Mariana,
submissa sempre ao que o seu corao lhe bacorejava, duvidou da
mudana, e disse ao pai que vigiasse o fidalgo.
As onze horas da noite, ergueu-se o acadmico, e escutou o movimento
interior da casa: no ouviu o mais ligeiro rudo, a no ser o rangido da
gua na manjedoura. Escorvou de plvora nova as duas pistolas.
Escreveu um bilhete sobrescritado a Joo da Cruz, e ajuntou-o  carta
que escrevera a Teresa. Abriu as portas da janela do seu quarto, e
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passou dali para a varanda de pau, da qual o salto  estrada era sem
risco. Saltou, e tinha dado alguns passos, quando a fresta, lateral 
porta da varanda, se abriu, e a voz de Mariana lhe disse:
- Ento adeus, senhor Simo. Eu fico pedindo a Nossa Senhora que v
na sua companhia.
O acadmico parou, e ouviu a voz intima que lhe dizia: - "O teu anjo da
guarda fala pela boca daquela mulher, que no tem mais inteligncia
que a do corao alumiado pelo seu amor."
- D um abrao em seu pai. Mariana - disse-lhe Simo - e adeus... at
logo, ou...
- At ao juzo final... - atalhou ela.
- O destino h de cumprir-se... Seja o que o cu quiser.
Tinha Simo desaparecido nas trevas, quando Mariana acendeu a
lmpada do santurio, e ajoelhou orando com o fervor das lgrimas.
Era uma hora, e estava Simo defronte do convento, contemplando uma
a uma as janelas. Em nenhuma vira da claro de luz; s a do
lampadrio do Sacramento se coava baa e plida na vidraa duma
fresta do templo. Sentou-se nas escaleiras da igreja, e ouviu ali, imvel
as quatro horas. Das mil vises que lhe relancearam no atribulado
esprito, a que mais a mido se repetia era a de Mariana suplicante, com
as mos postas; mas, ao mesmo tempo, cria ele ouvir os gemidos de
Teresa, torturada pela saudade, pedindo ao cu que a salvasse das
mos de seus algozes. O vulto de Ta deu de Albuquerque, arrastando a
filha a um convento, no lhe afogueava a sede da vingana; mas cada
vez que lhe acudia  mente a imagem odiosa de Baltasar Coutinho
instintivamente as mos do acadmico se asseguravam da posse das
pistolas.
As quatro horas e um quarto, acordou a natureza toda em hinos e
aclamaes ao raiar da alva. Os passarinhos trinavam na cerca do
mosteiro melodias interrompidas pelo toque solene das Ave-Marias na
torre. O horizonte passara de escarlate a alvacento. A prpura da
aurora, como labareda enorme, desfizera-se em partculas de luz, que
ondeavam no declive das montanhas, e se distendiam nas plancies e
nas vrzeas, como se o anjo do Senhor,  voz de Deus, viesse
desenrolando aos olhos da criatura as maravilhas do repontar dum dia
festivo.
E nenhuma destas galas do cu e da terra enlevara os olhos do moo
poeta.!
As quatro horas e meia, ouviu Simo o tinido de liteiras, dirigindo-se
quele ponto. Mudou de local, tomando por uma rua estreita, fronteira
ao convento.
Pararam as liteiras vazias na portaria, e logo depois chegaram trs
senhoras vestidas de jornada, que deviam ser as irms de Baltasar,
acompanhadas de dois mochilas com as mulas  rdia. As damas foram
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sentar-se nos bancos de pedra, laterais  portaria. Em seguida abriu-se
a grossa porta, rangendo nos gonzos, e as trs senhoras entraram.
Momentos depois, viu Simo chegar  portaria Tadeu de Albuquerque,
encostado ao brao de Baltasar Coutinho. O velho denotava quebranto e
desfalecimento a espaos. O de Castro-d'Are, bem composto de figura e
caprichosamente vestido  castelhana, gesticulava com o aprumo de
quem d as suas irrefutveis razes, e consola tomando a riso a dor
alheia.
- Nada de lamrias, meu tio! - dizia ele. - Desgraa seria v-la casada!
Eu prometo-lhe antes de um ano restituir-lhe curada. Um ano de
convento  um timo vomitrio do corao. No h nada como isso para
limpar o sarro do vcio em coraes de meninas criadas  discrio. Se
meu tio a obrigasse, desde menina, a uma obedincia cega, t-la-ia
agora submissa, e ela no se julgaria autorizada a escolher marido.
- Era uma filha nica, Baltasar! - dizia o velho soluando.
- Pois por isso mesmo - replicou o sobrinho. - Se tivesse outra, ser-lheia
menos sensvel a perda, e menos funesta a desobedincia. Faria a sua
casa na filha mais querida, embora tivesse de impetrar uma licena
rgia para deserdar a primognita. Assim, agora, no lhe vejo outro
remdio seno empregar o cautrio  chaga; com emplastros  que se
no faz nada.
Abriu-se novamente a portaria. e saram as trs senhoras, e aps elas
Teresa.
Tadeu enxugou as lgrimas, e deu alguns passos a saudar a filha, que
no ergueu do cho os olhos.
- Teresa... - disse o velho.
- Aqui estou, senhor - respondeu a filha, sem o encarar.
- Ainda  tempo - tornou Albuquerque.
- Tempo de qu?
- Tempo de seres boa filha.
- No me acusa a conscincia de o no ser.
- Ainda mais?!... Queres ir para tua casa, e esquecer o maldito que nos
faz a todos desgraados?
- No, meu pai. O meu destino  o convento. Esquec-lo nem por
morte. Serei filha desobediente, mas mentirosa  que nunca.
Teresa, circunvagando os olhos, viu Baltasar, e estremeceu,
exclamando:
- Nem aqui!
- Fala comigo, prima Teresa? - disse Baltasar, risonho.
- Consigo falo! Nem aqui me deixa a sua odiosa presena?
- Sou um dos criados que minha prima leva em sua companhia. Dois
tinha eu h dias, dignos de acompanharem a minha prima, mas esses
houve a um assassino que mos matou. A falta deles, sou eu que me
ofereo.
67
- Dispenso-o da delicadeza - atalhou Teresa, com veemncia.
- Eu  que me no dispenso de a servir,  falta dos meus dois fiis
criados, que um celerado me matou.
- Assim devia ser - tornou ela tambm irnica -porque os cobardes
escondem-se nas costas dos criados, que se deixam matar.
- Ainda se no fizeram as contas finais..., minha querida prima -
redargiu o morgado.
Este dilogo correu rapidamente, enquanto Tadeu de Albuquerque
cortejava a prioresa e outras religiosas. As quatro senhoras, seguidas de
Baltasar, tinham sado do trio do convento, e deram de rosto em Simo
Botelho, encostado  esquina da rua fronteira.
Teresa viu-o... adivinhou-o, primeira de todas, e exclamou:
- Simo!
O filho do corregedor no se moveu.
Baltasar, espavorido do encontro, fitando os olhos nele, duvidava ainda.
-  incrvel que este infame aqui viesse! - exclamou o de Castro-d'Aire.
Simo deu alguns passos, e disse placidamente:
- In[ame... eu! e por que?
- Infame, e infame assassino! - replicou Baltasar. - J fora da minha
presena!
-  parvo este homem! - disse o acadmico. - Eu no discuto com sua
senhoria... Minha senhora - disse ele a Teresa, com a voz comovida e o
semblante alterado unicamente pelos afetos do corao. - Sofra com
resignao, da qual eu lhe estou dando um exemplo. Leve a sua cruz,
sem amaldioar a violncia, e bem pode ser que a meio caminho do seu
calvrio a misericrdia divina lhe redobre as foras.
- Que diz este patife?! - exclamou Tadeu.
- Vem aqui insult-lo, meu tio! - respondeu Baltasar, - Tem a petulncia
de se apresentar a sua filha a confort-la na sua malvadez! Isto  de
mais! Olhe que eu esmago-o aqui, seu vilo.
- Vilo  o desgraado que me ameaa, sem ousar avanar para mim
um passo - redargiu o filho do corregedor.
- Eu no o tenho feito - exclamou enfurecidamente Baltasar - por
entender que me avilto, castigando-o na presena de criados de meu
tio, que tu podes supor meus defensores, canalha!
- Se assim  - tornou Simo, sorrindo - espero nunca me encontrar de
rosto com sua senhoria. Reputo-o to cobarde, to sem dignidade, que
o hei de mandar azorragar pelo primeiro mariola das esquinas.
Baltasar Coutinho lanou-se de mpeto a Simo. Chegou a apertar-lhe a
garganta nas mos; mas depressa perdeu o vigor dos dedos. Quando as
damas chegaram a interpor-se entre os dois, Baltasar tinha o alto do
crnio aberto por uma bala, que lhe entrara na fronte. Vacilou um
segundo, e caiu desamparado aos ps de Teresa.
68
Tadeu de Albuquerque gritava a altos brados. Os liteireiros e criados
rodearam Simo, que conservava o dedo no gatilho da outra pistola.
Animados uns pelos outros e pelos brados do velho, iam lanar-se ao
homicida, com risco de vida, quando um homem, com um leno pela
cara, correu da rua fronteira, e se colocou, de bacamarte aperrado, 
beira de Simo. Estacaram os homens.
- Fuja, que a gua est ao cabo da rua - disse o ferrador ao seu
hspede.
- No fujo... Salve-se, e depressa - respondeu Simo.
- Fuja, que se ajunta o povo e no tardam a soldados.
- J lhe disse que no fujo - replicou o amante de Teresa, com os olhos
postos nela, que cara desfalecida sobre as escadas da igreja.
- Est perdido! - tornou Joo da Cruz.
- J o estava. V-se embora, meu amigo, por sua filha lho rogo. Olhe
que pode ser-me til; fuja...
Abriram-se todas as portas e janelas, quando o ferrador se lanou na
fuga. at cavalgar a gua.
Um dos vizinhos do mosteiro, que, em razo do seu ofcio, primeiro saiu
 rua, era o meirinho geral.
- Prendam-no, prendam-no, que  um matador! - exclamava Tadeu de
Albuquerque.
- Qual? - perguntou o meirinho geral.
- Sou eu - respondeu o filho do corregedor.
- Vossa senhoria! - disse o meirnho, espantado; e, aproximando-se,
acrescentou a meia voz: - Venha, que eu deixo-o fugir.
- Eu no fujo - tornou Simo. - Estou preso. Aqui tem a minhas armas.
E entregou as pistolas.
Tadeu de Albuquerque, quando se recobrou do espasmo, fez transportar
a filha a uma das liteiras, e ordenou que dois criados a acompanhassem
ao Porto.
As irms de Baltasar seguiram o cadver de seu irmo para casa do tio.
XI
O corregedor acorda com o grande rebulio que ia na casa, e perguntou
 esposa, que ele supunha tambm desperta na cmara imediata, que
bulha era aquela. Como ningum lhe respondesse, sacudiu
freneticamente a campainha, e ferrou ao mesmo tempo, aterrado pela
hiptese de incndio na casa. Quando D. Rita acudiu, j ele estava
enfiando os cales s avessas.
- Que estrondo  este? Quem  que grita? - exclamou Domingos
Botelho.
69
- Quem grita mais  o senhor - respondeu D. Rita.
- Sou eu?! Mas quem  que chora?
- So suas filhas.
- E por qu? Diga numa palavra.
- Pois sim, direi: o Simo matou um homem.
- Em Coimbra?... E fazem tanta bulha por isso!
- No foi em Coimbra, foi em Viseu - tornou D. Ri-ta.
- A senhora manga comigo?! Pois o rapaz est em Coimbra, e mata em
Viseu! A est um caso para que as Ordenaes do Reino no
providenciaram.
- Parece que brinca, Menezes! Seu filho matou na madrugada de hoje
Baltasar Coutinho, sobrinho de Tadeu de Albuquerque.
Domingos Botelho mudou inteiramente de aspecto.
- Foi preso? - perguntou o corregedor.
- Est em casa do juiz de fora.
- Manda-me chamar o meirinho geral. Sabe como foi e por que foi essa
morte?... Mande-me chamar o meirinho, sem demora.
- Por que se no veste o senhor, e vai a casa do juiz?
- Que vou eu fazer a casa do juiz?
- Saber de seu filho como isto foi.
- Se no sou pai; sou corregedor. No me incumbe a mim interrog-lo.
Senhora D. Rita, eu no quero ouvir choradeiras; diga s meninas que
se calem, ou que vo chorar no quintal.
O meirinho, chamado, relatou miudamente o que sabia e disse ter-se
verificado que o amor  filha do Albuquerque fora causa daquele
desastre.
Domingos Botelho, ouvia a histria, disse ao meirinho:
- O juiz de fora que cumpra as leis; se ele no for rigoroso, eu o
obrigarei a s-lo.
Ausente o meirinho, disse D. Rita Preciosa ao marido:
- Que significa esse modo de falar de seu filho?
- Significa que sou corregedor desta comarca, e que no protejo
assassinos por cimes, e cimes da filha dum homem, que eu detesto.
Eu antes queria ver mil vezes morto Simo que ligado a essa famlia.
Escrevi-lhe muitas vezes dizendo-lhe que o expulsava de minha casa, se
algum me desse a certeza de que ele tinha correspondncia com tal
mulher. No h de querer a senhora que eu v sacrificar a minha
integridade a um filho rebelde, e de mais a mais homicida.
D. Rita, algum tanto por afeto maternal e bastante por esprito de
contradio, contendeu largo espao; mas desistiu, obrigada pela
inslita pertincia e clera do marido. To iracundo e spero em
palavras nunca o ela vira. Quando lhe ele disse: - "Senhora, em coisas
de pouca monta o seu domnio era tolervel; em questes de honra, o
70
seu domnio acabou: deixe-me!" - D. Rita, quando tal ouviu, e reparou
na fisionomia de Domingos Botelho, sentiu-se mulher, e retirou-se.
A ponto foi isto de entrar o juiz de fora na sala de espera. O corregedor
foi receb-lo, no com o semblante afetuoso de quem vai agradecer a
delicadeza e implorar indulgncia, seno que, de carrancudo que ia,
mais parecera ir ele representar o juiz, por vir naquela visita dar a crer
que a balana da justia na sua mo tremia algumas vezes.
- Comeo por dar a vossa senhoria os psames da desgraa de seu filho
- disse o juiz de fora.
- Obrigado a vossa senhoria. Sei tudo. Est instaurado o processo?
- No podia deixar eu de aceitar a querela.
- Se a no aceitasse, obrig-lo-ia eu ao cumprimento dos seus deveres.
- A situao do senhor Simo Botelho  pssima. Confessa tudo. Diz que
matou o algoz da mulher que ele amava...
- Fez muito bem - interrompeu o corregedor, soltando uma casquinada
seca e rouca.
- Perguntei-lhe se foi em defesa, e fiz-lhe sinal que respondesse
afirmativamente. Respondeu que no; que, a defender-se, o faria com a
ponta da bota, e no com um tiro. Busquei todos os modos honestos de
o levar a dar algumas respostas que denotassem alucinao ou
demncia; ele, porm, respondeu e replica com tanta igualdade e
presena de esprito, que  impossvel supor que o assassnio no foi
perpetrado muito intencionalmente e de claro juzo. Aqui tem vossa
senhoria uma especialssima e triste posio. Queria valer-lhe, e no
posso.
- E eu no posso nem quero, senhor doutor juiz de fora. Est na cadeia?
- Ainda no: est em minha casa. Venho saber se vossa senhoria
determina que lhe seja preparada com decncia a priso.
- Eu no determino nada. Faa de conta que o preso Simo no tem
aqui parente algum.
- Mas, senhor doutor corregedor - disse o juiz de fora com tristeza e
compuno - vossa senhoria  pai.
- Sou um magistrado.
-  demasiada a severidade - perdoe-me a reflexo, que  amiga. L
est a lei para o castigar; no o castigue vossa senhoria com o seu dio.
A desgraa quebranta o rancor de estranhos, quanto mais o afetuoso
ressentimento de um pai!
- Eu no odeio, senhor doutor; desconheo esse homem em que me
fala. Cumpra o seus deveres, que lho ordena o corregedor, e o amigo
mais tarde lhe agradecer a delicadeza.
Saiu o juiz de fora, e foi encontrar Simo na mesma serenidade em que
o deixara.
71
- Venho de falar com seu pai - disse o juiz; encontrei-o mais irado do
que era natural calcular. Penso que por enquanto nada pode esperar da
influncia ou patrocnio dele.
- Isto que importa? - respondeu sossegadamente Simo.
- Importa muito, senhor Botelho. Se seu pai quisesse haveria meios de
mais tarde lhe adoar a sentena.
- Que me importa a mim a sentena? - replicou o filho do corregedor.
- Pelo que vejo, no lhe importa ao senhor ir a uma forca?
- No, senhor.
- Que diz, senhor Simo! - redargiu espantado o interrogador.
- Digo que o meu corao  indiferente ao destino da minha cabea.
- E sabe que seu pai no lhe d mesmo proteo, a proteo das
primeiras necessidades na cadeia?
- No sabia; que tem isso? Que importa morrer de fome, ou morrer no
patbulo?
- Porque no escreve a sua me? Pea-lhe que...
- Que hei de eu pedir a minha me? - atalhou Simo.
- Pea-lhe que amacie a clera de seu pai, seno o senhor Botelho no
tem quem o alimente.
- Vossa senhoria est-me julgando um miservel, a quem d cuidado
saber onde h de almoar hoje. Penso que no incumbem ao senhor juiz
de fora essas miudezas de estmago.
- De certo no - redargiu, irritado, o juiz - Faa o que quiser.
E, chamando o meirinho geral, entregou-lhe o ru, dispensando o
aguazil de pedir fora para acompanh-lo.
O carceireiro recebeu respeitosamente o preso, e alojou-o num dos
quartos melhores do crcere; mas nu e desprovido do mnimo conforto.
Um outro preso emprestou-lhe uma cadeira de pau. Simo sentou-se,
cruzou os braos e meditou.
Pouco depois, um criado de seu pai conduziu-lhe o almoo, dizendo-lhe
que sua me lho mandava a ocultas, e entregando-lhe uma carta dela,
cujo contedo importa saber. Simo, antes de tocar no almoo, cujo
cabaz estava no pavimento, leu o seguinte:
"Desgraado, que ests perdido!
Eu no te posso valer, porque teu pai est inexorvel: As escondidas
dele  que te mando o almoo, e no sei se poderei mandar-te o jantar!
Que destino o teu! Oxal que tivesses morrido ao nascer!
Morto me disseram que tinhas nascido; mas o teu fatal destino no quis
largar a vitima (3).
Para que saiste de Coimbra? A que vieste, infeliz? Agora sei que tens
vivido fora de Coimbra h quinze dias, e nunca tiveste uma palavra que
dissesses a tua me!. ."
Simo suspendeu a leitura, e disse entre si:
72
- Como se entende isto?! Pois minha me no mandou chamar o Joo
da Cruz! E no foi e]a quem me mandou o dinheiro?
- Olhe que o almoo arrefece, menino! - disse o criado.
Simo continuou a ler, sem ouvir o criado:
"Deves estar sem dinheiro, e eu desgraadamente no posso hoje
enviar-te um pinto. Teu irmo Manuel, desde que fugiu para Espanha,
absorve-me todas as economias - Veremos, passado algum tempo, o
que posso fazer; mas receio bem que teu pai saia de Viseu, e nos leve
para Vila-Real, para abandonar de todo o teu julgamento  severidade
das leis.
Meu pobre Simo! Onde estarias tu escondido quinze dias?! Hoje mesmo
 que teu pai teve carta dum lente, participando-lhe a tua falta nas
aulas, e sada para o Porto, segundo dizia o arreeiro que te
acompanhou.
No posso mais. Teu pai j espancou a Ritinha, por ela querer ir 
cadeia.
Conta com o pouco valor da tua pobre me e ao p dum homem
enfurecido como est teu pai" -
Simo Botelho refletiu alguns minutos, e convenceu-se de que o
dinheiro recebido era de Joo da Cruz. Quando saiu com o esprito desta
meditao, tinha os olhos marejados de lgrimas.
- No chore, menino - disse o criado. - Os trabalhos so para os
homens, e Deus h de fazer tudo pelo melhor. Almoce, senhor Simo.
- Leva o almoo - disse ele.
- Pois no quer almoar?!
- No. Nem voltes aqui. Eu no tenho famlia. No quero absolutamente
nada da casa de meus pais. Diz a minha me que eu estou sossegado,
bem alojado, e feliz, e orgulhoso da minha sorte. Vai-te embora j.
O criado saiu, e disse ao carcereiro que o seu infeliz amo estava doido.
D. Rita achou provvel a suspeita do servo, e viu a evidncia da locura
nas palavras do filho.
Quando o carcereiro voltou ao quarto de Simo, entrou acompanhado
de uma rapariga camponesa: era Mariana. A filha de Joo da Cruz, que
at quele momento no apertava sequer a mo do hspede. correu a
ele com os braos abertos e o rosto banhado de lgrimas. O carcereiro
retirou-se, dizendo consigo: - "Esta  bem mais bonita que a fidalga!"
- No quero ver lgrimas, Mariana - disse Simo. - Aqui, se algum
deve chorar, sou eu; mas lgrimas dignas de mim, lgrimas de gratido
aos favores que tenho recebido de si e de seu pai. Acabo de saber que
minha me nunca me mandou dinheiro algum. Era de seu pai aquele
dinheiro que recebi.
Mariana escondeu o rosto no avental com que enxugava o pranto.
- Seu pai teve algum perigo? - tornou Simo em voz perceptvel dela.
- No, senhor.
73
- Est em casa?
- Est, e parece furioso. Queria vir aqui, mas eu no o deixei.
- Perseguiu-o algum?
- No, senhor.
- Diga-lhe que no se assuste, e v depressa sosseg-lo.
- Eu no posso ir sem fazer o que ele me disse. Eu vou sair, e volto
daqui a pouco.
- Mande-me comprar uma banca, uma cadeira, e um tinteiro e papel -
disse Simo, dando-lhe dinheiro.
- H de vir logo tudo; j c podia estar; mas o pai disse-me que no
comprasse nada sem saber se sua famlia lhe mandava o necessrio.
- Eu no tenho famlia, Mariana. Tome o dinheiro.
- No recebo dinheiro, sem licena de meu pai. Para essas compras
trouxe eu demais. E a sua ferida como estar?
- Ainda agora me lembro que tenho uma ferida! - disse Simo, sorrindo.
- Deve estar boa, que no me di... Soube alguma coisa de D. Teresa?
- Soube que foi para o Porto. Estavam ali a contar que o pai a mandara
meter sem sentidos na liteira, e est muito povo  porta do fidalgo.
- Est bom, Mariana... No h desgraado sem amparo. V, pense no
seu hspede, seja o seu anjo de misericrdia.
Saltaram de novo as lgrimas dos olhos da moa; e, por entre soluos,
estas palavras:
- Tenha pacincia. No h de morrer ao desamparo. Faa de conta que
lhe apareceu hoje uma irm.
E, dizendo, tirou das amplas algibeiras um embrulho de biscoitos e uma
garrafa de licor de canela, que deps sobre a cadeira.
- Mau almoo ; mas no achei outra coisa pronta - disse ela, e saiu
apressada, como para poupar ao infeliz palavras de gratido.
XII
O corregedor, nesse mesmo dia, ordenou que se preparassem mulher e
filhas para no dia imediato sarem de Viseu com tudo que pudesse ser
transportado em cavalgaduras.
Vou descrever a singela e dorida reminiscncia duma senhora daquela
famlia, como a tenho em carta recebida h meses:
"J l vo cinqenta e sete anos, e ainda me lembro, como se fossem
ontem passados, os tristes acontecimentos da minha mocidade. No sei
como  que tenho hoje mais clara a memria das coisas da infncia.
Parece-me que h trinta anos me no lembravam com tantas
circunstncias e pormenores.
Quando a me disse a mim e as minhas irms que preparssemos os
74
nossos bas, rompemos todas num choro que irritou a ira do pai. As
manas, como mais velhas ou mais afeitas ao castigo, calaram-se logo.
Eu, porm, que s uma vez, e unicamente por causa de Simo, tinha
sido castigada, continuei a chorar, e tive o inocente valor de pedir ao pai
que me deixasse ir ver o mano  cadeia antes de sairmos de Viseu.
Ento fui castigada pela segunda vez, e asperamente.
O criado que levou o jantar  cadeia voltou com ele, e contou-nos que
Simo j tinha alguns mveis no seu quarto, e estava jantando com
exterior sossegado. Aquela hora todos os sinos de Viseu estavam
dobrando a finados por alma de Baltasar.
Ao p dele disse o criado que estava uma formosa rapariga de aldeia e
coberta de lgrimas. Apontando-a ao criado que a observava, disse
Simo: - A minha famlia  esta.
No dia seguinte, ao romper da manh, partimos para Vila-Real. A me
chorava sempre; o pai, encolerizado por isso, saiu da liteira em que
vinha com ela, fez que eu passasse para o seu lugar, e fez toda a
jornada na minha cavalgadura.
Logo que chegamos a Vila-Real, eram to freqentes as desordens em
casa,  conta do Simo, que meu pai abandonou a famlia, e foi sozinho
para a quinta de Montezelos. A me quis tambm abandonar-nos e ir
para os primos de Lisboa, a fim de solicitar o livramento do mano. Mas o
pai. que fizera uma espantosa mudana de gnio, quando tal soube,
ameaou minha me de a obrigar judicialmente a no sair da casa de
seu marido e filhas.
Escrevia a me a Simo, e no recebia resposta. Pensava ela que o filho
no respondia: anos depois, vimos entre os papis de meu pai todas as
cartas que ela escrevera. J se v que o pai as fazia tirar no correio.
Uma senhora de Viseu escreveu  me, louvando-a pelo muito amor e
caridade com que ela acudia s necessidades de seu infeliz filho. Esta
carta foi-lhe entregue por um almocreve; quando no, teria o destino
das outras. Espantou-se minha me do conceito em que a tinha a sua
amiga, e confessou-lhe que no o tinha socorrido, porque o filho
rejeitara o pouco que ela quisera fazer em seu bem. A isto respondeu a
senhora de Viseu que uma rapariga, filha dum ferrador, estava vivendo
nas vizinhanas da cadeia, e cuidava do preso com abundncia e
limpeza, e a todos dizia que ali estava por ordem e  custa da senhora
D. Rita Preciosa. Acrescentava a amiga de minha me que algumas
vezes mandara chamar a bela moa, e lhe quisera dar alguns
cozinhados mais esquisitos para Simo, os quais ela rejeitava, dizendo
que o senhor Simo no aceitava nada.
De tempos a tempos recebamos estas novas, sempre triste, porque, na
ausncia de meu pai, conspiraram, como era de esperar, quase todas as
pessoas distintas de Viseu contra o meu desgraado irmo.
A me escrevia aos seus parentes da capital implorando a graa rgia
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para o filho; mas aquelas cartas no saiam do correio, e iam dar todas 
mo de meu pai.
E que fazia este, entretanto, na quinta, sem famlia, sem glria, nem
recompensa alguma a tantas faltas? Rodeado de jornaleiros, cultivava
aquele grande montado onde ainda hoje, por entre os tojos e urzes, que
voltaram com o abandono, se podem ver relquias de cepas plantadas
por ele. A me escrevia-lhe lastimando o filho; meu pai apenas
respondia que a justia no era uma brincadeira, e que na antigidade
os prprios pais condenavam os filhos criminosos.
Teve minha me a afoiteza de se lhe apresentar um dia, pedindo licena
para ir a Viseu. Meu inexorvel pai negou-lhe, e invectivou-a
furiosamente.
Passados sete meses, soubemos que Simo tinha sido condenado a
morrer na forca, levantada no local onde fizera a morte. Fecharam-se as
janelas por oito dias; vestimos de luto, e minha me caiu doente.
Quando isto se soube em Vila-Real, todas as pessoas ilustres da terra
foram a Montezelos, a fim de obrigarem brandamente o pai a empregar
o seu valimento na salvao do filho condenado. De Lisboa vieram
alguns parentes protestar contra a infmia, que tamanha ignomnia faria
recair sobre a famlia, Meu pai a todos respondia com estas palavras: -
A forca no foi inventada somente para os que no sabem o nome do
seu av. A ignominia das famlias so as ms aes. A justia no
infama seno aquele que castiga.
Tnhamos ns um tio-av, muito velho e venerando, chamado Antnio
da Veiga. Foi este quem fez o milagre, e foi assim: Apresentou-se a meu
pai, e disse-lhe: - Guardou-me Deus a vida at aos oitenta e trs anos.
Poderei viver mais dois ou trs? Isto nem j  vida; mas foi-o, e
honrada, e sem mancha at agora, e j agora h de assim acabar; meus
olhos no ho de ver a desonra de sua famlia. Domingos Botelho, ou tu
me prometes aqui de salvar teu filho da forca, ou eu na tua presena
me mato. - E, dizendo isto, apontava ao pescoo uma navalha de barba.
Meu pai teve-lhe mo do brao, e disse que Simo no seria enforcado.
No dia seguinte, foi meu pai para o Porto, onde tinha muitos amigos na
Relao, e de l para Lisboa. (4)
Em principio de maro de 1805, soube minha me, com grande prazer,
que Simo fora removido para as cadeias da Relao do Porto, vencendo
os grandes obstculos que opuseram a essa mudana os queixosos, que
eram Tadeu de Albuquerque e as irms do morto.
Depois..."
Suspendemos aqui o extrato da carta para no anteciparmos a narrativa
de sucessos, que importa, em respeito  arte, atar no fio cortado.
Simo Botelho vira imperturbvel chegar o dia do julgamento. Sentouse
no banco dos homicidas sem patrono nem testemunhas de defesa. As
perguntas respondeu com o mesmo nimo frio daquelas respostas ao
76
interrogatrio do juzo. Obrigado a explicar a causa do crime, deu-a com
toda a lealdade, sem articular o nome de Teresa Clementina de
Albuquerque. Quando o advogado da acusao proferiu aquele nome,
Simo Botelho ergueu-se de golpe, e exclamou:
- Que vem aqui fazer o nome de uma senhora a este antro de infmia e
sangue? Que miservel acusador est ai, que no sabe, com a confisso
do ru, provar a necessidade do carrasco sem enlamear a reputao
duma mulher? A minha acusao est feita: eu a fiz. Agora a lei que
fale, e cale-se o vilo que no sabe acusar sem infamar.
O juiz imps-lhe silncio. Simo sentou-se, murmurando:
- Miserveis todos!
Ouviu o ru a sentena de morte natural para sempre na forca,
arvorada no local do delito. E ao mesmo tempo saram dentre a
multido uns gritos dilacerantes. Simo voltou a face para as turbas, e
disse:
- Ides ter um belo espetculo, senhores! A forca  a nica festa do
povo! Levai dai essa pobre mulher que chora: essa  a criatura nica
para quem o meu suplcio no ser um passatempo,
Mariana foi transportada em braos  sua casinha, na vizinhana da
cadeia. Os robustos braos que a levam eram os de seu pai, Simo
Botelho, quando, em toda a agilidade e fora dos dezoito anos, ia do
tribunal ao crcere, ouviu algumas vozes que se alteravam deste modo:
- Quanto vai ele a padecer?
-  bem feito! Vai pagar pelos inocentes que o pai mandou enforcar.
- Queria apanhar a morgada  fora de balas!
- No que estes fidalgos cuidam que no  mais seno matar!...
- Matasse ele um pobre. e tu verias como ele estava em casal
- Tambm  verdade!
- E como ele vai de cara no ar!
- Deixa ir, que no tarda quem lha faa cair ao cho!...
- Dizem que o carrasco j vem pelo caminho.
- J chegou de noite, e trazia dois cutelos numa coifa.
- Tu viste-o?
- No; mas disse a minha comadre que lho dissera a vizinha do cunhado
da irm, que o carrasco est escondido numa enxovia.
- Tu hs de levar os pequenos a ver o padecente?
- Pudera no! Estes exemplos no se devem perder.
- Eu c de mim j vi enforcar trs, que me lembre, todos por
matadores.
- Por isso tu, h dois anos, no atiraste com a vida do Amaro Lampreia
a casa do diabo!...
- Assim foi; mas, se eu o no matasse, matava-me ele.
- Ento de que voga o exemplo?!
77
- Eu sei c de que voga? O frei Anselmo dos franciscanos  que prega
aos pas que levem os filhos a verem os enforcados.
- Isso h de ser para o no esfolarem a ele, quando ele nos esfola com
os peditrios.
To desassombrado ia o esprito de Simo, que algumas vezes esvoaou
nos lbios um sorriso, desafiado pela filosofia do povo,  cerca da forca,
Recolhido ao seu quarto. foi intimado para apelar, dentro do prazo legal.
Respondeu que no apelava, que estava contente da sua sorte, e de
boas avanas com a justia.
Perguntou por Mariana, e o carcereiro lhe disse que a mandava chamar.
Veio Joo da Cruz, e a chorar se lastimou de perder a filha, porque a via
delirante a falar em forca e a pedir que a matassem primeiro.
Agudssma foi ento a dor do acadmico ao compreender, como se
instantaneamente lhe fulgurasse a verdade, que Mariana o amava at o
extremo de morrer. Por momentos se lhe esvaiu do corao a imagem
de Teresa, se  possvel assim pens-lo. V-la-ia porventura como um
anjo redimido em serena contemplao do seu criador; e veria Mariana
como o smbolo da tortura, morrer a pedaos, sem instantes de amor
remunerado que lhe dessem a glria do martrio. Uma, morrendo
amada; outra, agonizando, sem ter ouvido a palavra "amor" dos lbios
que escassamente balbuciavam frias palavras de gratido.
E chorou ento aquele homem de ferro. Chorou lgrimas que valiam
bem as amarguras de Mariana.
- Cuide de sua filha, senhor Cruz! - disse Simo com fervente splica ao
ferrador - Deixe-me a mim, que estou vigoroso e bom. V consolar essa
criatura, que nasceu debaixo da minha m estrela. Tire-a de Viseu;
leve-a para sua casa. Salve-a, para que neste mundo fiquem duas irms
que me chorem. Os favores que me tem feito, j agora dispensa-os a
brevidade da minha vida. Daqui a dias mandam-me recolher ao
oratrio; bom ser sua filha ignore.
De volta, Joo da Cruz achou a filha prostada na pavimento, ferida no
rosto, chorando e rindo, demente em suma. Levou-a amarrada para sua
casa, e deixou a cargo de outra pessoa a sustentao do condenado.
Terribilssimas foram ento as horas solitrias do infeliz. At quele dia,
Mariana, benquista do carcereiro e protegida pela amiga de D. Rita
Preciosa, tinha franca entrada no crcere a toda a hora do dia, e raras
horas deixava sozinho o preso. Costurava enquanto ele escrevia, ou
cuidava do amanho e limpeza do quarto. Se Simo estava no leito
doente ou prostrado, Mariana, que tivera alguns princpios de escrita,
sentava-se  banca, e escrevia cem vezes o nome de Simo, que muitas
vezes as lgrimas deliam. E isto assim, durante sete meses, sem nunca
ouvir nem proferir a palavra amor. Isto assim, depois das viglias
noturnas, ora em preces, ora em trabalho, ora no caminho de sua casa,
onde ia visitar o pai a desoras.
78
Nunca mais o preso, na perspectiva da forca, viu entrar aquela doce
criatura o limiar da ferrada porta, que lhe graduava o ar, medido e
calculado para que as inteiras horas da asfixia as gozasse o cordel do
patbulo. Nunca mais!
E, quando ele evocava a imagem de Teresa, um capricho dos olhos
quebrantados lhe afigurava a viso de Mariana ao par da outra. E
lacrimosas via as duas. Saltava ento do leito, fincava os dedos nos
espessos ferros da janela, e pensava em partir o crnio contra as
grades.
No o sustinha a esperana na terra, nem no cu. Raio de luz divina
jamais penetrou no seu ergstulo. O anjo da piedade encarnada naquela
criatura celestial que enlouquecera, ou voltara para o cu com o esprito
dela. O que o salvara do suicdio no era, pois, esperanas em Deus,
nem nos homens; era este pensamento: "Afinal, cobarde! Que bravura 
morrer quando no h esperana da vida?! A forca  um triunfo quando
se encontra ao cabo do caminho da honra
XIII
- E Teresa?
Perguntam a tempo, minha senhoras, e no me hei de queixar se me
argrem de a ter esquecido e sacrificado a incidentes de menosporte.
Esquecido, no. Muito h que me reluz e voeja, alada como o ideal
querubim dos santos, nesta minha quase escuridade (5), aquela ave do
cu, como a pedir-me que lhe cubra de flores o restilho de sangue que
ela deixou na terra. Mais lgrimas que sangue deixaste,  filha da
amargura! Flores so tuas lgrimas, e do cu me diz se os perfumes
delas no valem mais aos ps do teu Deus que as preces de muita
devota que morre santificada pelo mundo, e cujo cheiro de santidade
no passa do olfato hipcrita ou estpido dos mortais.
Teresa Clementina bem a viam transportada da escadaria do templo
onde cara,  liteira que a conduziu ao Porto. Recobrando o alento, viu
defronte de si uma criada, que lhe dizia banais e frias expresses de
alvio. Se alguma criada de seu pai lhe era amiga, decerto no aquela,
acintemente escolhida pelo velho. Nem ao menos a confiana para tal
expanso em gritos restava  afligida menina! Mas um raio de piedade
ferira o peito da mulher at quela hora desafeta a sua ama.
Perguntava-se a si mesma Teresa se aquela horrorosa situao seria um
sonho! Sentia-se de novo falecer de foras, e voltava  vida, sacudida
pela conscincia da sua desgraa. Condoeu-se a criada, e incitou-a a
respirar, chorando com ela, e dizendo-lhe:
- Pode falar, menina, que ningum nos segue.
- Ningum?!
79
- As suas primas ficaram: apenas vm os dois lacaios.
- E meu pai no?
- No, fidalga... Pode chorar e falar  sua vontade.
- E eu vou para o Porto?
- Vamos, sim minha senhora.
- E tu viste tudo como foi, Constana?
- Desgraadamente vi...
- Como foi? Conta-me tudo.
- A menina bem sabe que seu primo morreu.
- Morreu?! Vi-o cair quase nos meus ps; mas...
- Morreu logo, e depois quiseram os criados,  voz de seu pai, prender o
senhor Simo; mas ele com outra pistola...
- E fugiu? - atalhou Teresa, com veemente alegria.
- Afinal foi ele que se deu  priso.
- Est preso?!
E, sufocada pelos soluos, com o rosto no leno, no ouvia as palavras
confortadoras de Constana.
Serenado algum tanto o violento acesso de gemidos e choro, Teresa
sugeriu  criada o louco plano de a deixar fugir da primeira estalagem
onde pousassem para ela ir a Viseu dar o ltimo adeus a Simo.
A criada a custo a despersuadiu do intento, pintando-lhe os novos
perigos que ia acumular  desgraa do seu amante, e animando-a com
a esperana de livrar-se Simo do crime, com a influncia do pai, apesar
da perseguio do fidalgo.
Calaram lentamente estas razes no esprito de Teresa. Chorosa,
ansiada e a reveses desfalecida, foi Teresa vencendo a distncia que a
separava de Monchique, onde chegou ao quinto dia de jornada.
A prelada j estava sabedora dos sucessos, por emissrios que se
adiantaram ao moroso caminhar da liteira.
Foi Teresa recebida com brandura por sua tia, posto que as
recomendaes de Tadeu de Albuquerque eram clausura rigorosa e
absoluta privao de meios de escrever a quem quer que fosse.
Ouviu a prelada da boca de sua sobrinha a fiel histria dos
acontecimentos, e viu uma a uma as cartas de Simo Botelho.
Choraram abraadas; mas a prelada, enxugadas as lgrimas de mulher
ao fogo da austeridade religiosa, falou e aconselhou como freira, e freira
que ciliciava o corpo com as rosetas, e o corao com as privaes
tormentosas de quarenta anos.
Teresa carecia de foras para a rebelio. Deixou a sua tia a santa
vaidade de exorcismar o demnio das paixes, e deu um sorriso ao anjo
da morte, que, de permeio ao seu amor e  esperana, lhe interpunha a
asa negra que to de luz refulgente rebrilha s vezes em coraes
infelizes.
Quis Teresa escrever.
80
- A quem, minha filha? - perguntou a prelada.
Teresa no respondeu.
- Escrever-lhe para qu? - tornou a religiosa. - Cuidas tu, menina, que
as tuas cartas lhe chegam  mo? Que vais tu fazer seno redobrar a ira
de teu pai contra ti e contra o infeliz preso?! Se o amas, como creio,
apesar de tudo, cuida em salv-lo. Se no ouves a minha razo, finge-te
esquecida. Se podes violentar a tua dor, dissimula, faze muito porque o
teu pai chegue a noticia de que lhe sers dcil em tudo, se ele tiver
piedade do teu pobre amigo.
No recalcitrou Teresa. Deu outro sorriso ao anjo da morte, e pediu-lhe
que a envolvesse a ela, e ao seu amor, e  sua esperana, de todo, na
negrura de suas asas.
De ms a ms recebia a abadessa de Monchique uma carta de seu
primo. Eram estas cartas um respiradouro de vingana. Em todas dizia o
velho que o assassino iria ao patbulo irremediavelmente. A sobrinha
no via as cartas; mas reparava nas lgrimas da compassiva freira.
A dbil compleio de Teresa deperecia aceleradamente. A cincia
condenou-a a morte breve. Disto foi informado Tadeu de Albuquerque, e
respondeu: - "Que a no desejava morta; mas, se Deus a levasse,
morreria mais tranqilo, e com a sua honra sem mancha", Era assim
imaculada a honra do fidalgo de Viseu!... A HONRA, que dizem proceder
em linha reta da virtude de Scrates, da virtude de Jesus Cristo, da
virtude de milhes de mrtires, que se deram s garras das feras,
quando predicavam a caridade e o perdo aos homens!
Quantas carcias inventou a simpatia e a piedade, todas, por ministrio
das religiosas exemplares de Monchique, aporfiaram em refrigerar o
ardor que consumia rapidamente a reclusa. Intil tudo. Teresa
reconhecia com lgrimas a compaixo, e, ao mesmo tempo, alegrava-se
tirando das carcias a certeza de que os mdicos a julgavam incurvel,
Alguma freira inadvertida lhe disse um dia que uma sua amiga do
convento dos Remdios de Lamengo lhe dissera que Simo tinha sido
condenado  morte.
- E eu vivo ainda!
Depois orou, e chorou; mas os costumes da sua vida em paroxismos
continuaram inalterveis.
Perguntou  senhora que lhe dera a noticia se a sua amiga do convento
dos Remdios lhe faria a esmola de fazer chegar s mos de Simo uma
carta. Prontificou-se a freira, depois que ouviu o parecer da prelada.
Entendeu esta religiosa que O derradeiro colquio entre dois moribundos
no podia danific-los na vida temporal, nem na vida eterna.
Esta  a carta que leu Simo, quinze dias depois do seu julgamento:
"Simo, meu esposo. Sei tudo... Est conosco a morte. Olha que te
escrevo sem lgrimas. A minha agonia comeou h sete meses. Deus 
bom, que me poupou ao crime. Ouvi a notcia da tua prxima morte, e
81
ento compreendi porque estou morrendo hora a hora. Aqui est o
nosso fim, Simo!... Olha as nossas esperanas! Quando tu me dizias os
teus sonhos de felicidade, e eu te dizia os meus!... Que mal fariam a
Deus os nossos inocentes desejos?!... Porque no merecemos ns o que
tanta gente tem?... Assim acabaria tudo, Simo? No posso cr-lo! A
eternidade apresenta-me tenebrosa, porque a esperana era a luz que
me guiava de ti para a f. Mas no pode findar assim o nosso destino.
V se podes segurar o ltimo fio da tua vida a uma esperana qualquer.
Ver-nos-emos num outro mundo, Simo? Terei eu merecido a Deus
contemplar-te? Eu rezo, suplico, mas desfaleo na f quando me
lembram as ltimas agonias do teu martrio. As minhas so suaves;
quase que as no sinto. No deve custar a morte a quem tiver o corao
tranqilo. O pior  a saudade, saudade daquelas esperanas que tu
achavas no meu corao, adivinhando as tuas. No importa, se nada h
alm desta vida. Ao menos, morrer. Se tu pudesses viver agora, de que
te serviria? Eu tambm estou condenada, e sem remdio. Segue-me,
Simo! No tenhas saudades da vida, no tenhas, ainda que a razo te
diga que podias ser feliz, se me no tivesses encontrado no caminho por
onde te levei  morte... E que morte, meu Deus!... Aceita-a! No te
arrependas. Se houver crime, a justia de Deus te perdoar pelas
angstias que tens de sofrer no crcere... e nos ltimos dias, e na
presena da..."
Teresa ia escrever uma palavra, quando a pena lhe caiu da mo, e uma
convulso lhe vibrou todo o corpo por largo espao. No escreveu a
palavra! Mas a idia da fora parou-lhe a vida. A freira entrou na cela a
pedir-lhe a carta, porque o correio ia a partir. Teresa, indicando-lhe,
disse:
- Leia, se quiser, e feche-a, por caridade, que eu no posso.
Nos trs dias seguintes Teresa no saiu do leito. A cada hora as
religiosas assistentes esperavam que ela fechasse os olhos.
- Custa muito morrer! - dizia algumas vezes a enferma.
No faltavam piedosos discursos a divertirem-lhe o esprito do mundo,
Teresa ouvia-os, e dizia com nsia:
- Mas a esperana do cu, sem ele!... Que  o cu, meu Deus?
E o apostlico capelo do mosteiro no sabia dizer se os bens do cu
tinham comum com os do mundo as delcias que falsamente na terra se
chamam assim. Aquelas sutilezas espirituais que vm com algumas
espcies de fsica, assim  maneira dos ltimos lampejos da vital flama,
tinha-as a enferma, quando acontecia falarem-lhe as religiosas na bemaventurana.
s vezes, se o capelo, convidado pela lucidez de Teresa,
entrava os domnios da filosofia, tratando como tema a imortalidade da
alma, a inculta senhora argumentava em breves termos, com razes to
claras a favor da unio eterna das almas, j deste mundo esposas, que
82
o padre ficava em dvidas se seria hertico contestar uma clusula no
inscrita em algum dos quatro evangelhos.
Maravilhava-se j a medicina da pertincia daquela vida. Tinha a
abadessa escrito a seu primo Tadeu, apressando-o a ir ver o anjo ao
despedir-se da terra. O velho, tocado de piedade e por ventura de amor
paternal, deliberou tirar do convento a filha, na esperana de salv-la
ainda, Uma forte razo acrescia quela: era a mudana do condenado
para os crceres do Porto. Deu-se pressa, pois, o fidalgo, e chegou ao
Porto a tempo que a religiosa, amiga da outra de Lamego, entregava 
doente esta carta de Simo:
"No me fujas ainda, Teresa. J no vejo a forca, nem a morte. Meu pai
protege-me, e a salvao  possvel. Prende ao corao os ltimos fios
da tua vida. Prolonga a tua agonia, enquanto te eu disser que espero.
Amanh vou para as cadeias do Porto, e hei de ali esperar a absolvio
ou comutao da sentena. A vida  tudo. Posso amar-te no degredo.
Em toda a parte h cu, e flores, e Deus. Se viveres, um dia sers livre;
a pedra do sepulcro  que nunca se levanta, Vive, Teresa, vive! H dias,
lembrava-me que as tuas lgrimas lavariam da minha face as ndoas do
sangue do enforcado. Esse pesadelo atroz passou. Agora neste inferno
respira-se; o esparto do carrasco j me no aperta em sonhos a
garganta. J fito os olhos no cu, e reconheo a providncia dos
infelizes. Ontem, vi as nossas estrelas, aquelas dos nossos segredos nas
noites da ausncia. Volvi  vida, e tenho o corao cheio de esperanas.
No morras, filha da minha alma!"
Ia alta a noite, quando Teresa, sentada no seu leito, leu esta carta.
Chamou a criada, para ajud-la a vestir, Mandou abrir a janela do seu
quarto, e encostou as faces s reixas de ferro. Esta janela olhava para o
mar, e o mar era nessa noite uma imensa flama de prata; e a Lua,
esplendidssima, eclipsava o fulgor dumas estrelas que Teresa procurava
no cu.
- So aquelas! - exclamou ela.
- Aquelas que, minha senhora? - disse Constana.
- As minhas estrelas!... plidas como eu... A vida! ai! a vida! - clamou
ela, erguendo-se, e passando pela fronte as mos cadavricas - Quero
viver! Deixai-me viver,  Senhor!
- H de viver, menina! H de viver, que Deus  piedoso! - disse a criada
- mas no tome o ar da noite. Este nevoeiro do rio faz-lhe grande mal.
- Deixa-me, deixa-me, que tudo isto  viver... No vejo o cu h tanto
tempo! Sinto-me ressuscitar aqui, Constana! Por que no tenho eu
respirado todas as noites este ar? Eu poderia viver alguns anos?
Poderei, minha Constana? Pede tu, pede muito  minha Virgem
Santssima! Vamos orar ambas! Vamos, que o Simo no morre... O
meu Simo vive, e quer que eu viva. Est no Porto amanh, e talvez j
esteja...
83
- Quem, minha senhora?!
- Simo; o Simo vem para o Porto.
A criada julgou que a sua ama delirava, mas no a contrariou.
- Teve carta dele a fidalga? - tornou ela, cuidando que assim lhe
alimentava aquele instante de febril contentamento.
- Tive... Queres ouvir?... Eu leio...
E leu a carta, com grande pasmo de Constana, que se convenceu.
- Agora vamos rezar, sim?... Tu no s inimiga dele, no? Olha,
Constana, se eu casar com ele, tu vais para a nossa companhia. Vers
como s feliz, Queres ir, no queres?
- Sim, minha senhora, vou. Mas ele conseguir livrar-se da morte?
- Livra; tu vers que livra; o pai dele h de livr-lo... e a Virgem
Santssima  que nos h de unir. Mas, se eu morro... se eu morro, meu
Deus!
E, com as mos convulsivamente enlaadas sobre o seio, Teresa
arquejava em pranto.
- Se eu no tenho j foras!... Todos dizem que eu morro, e o mdico j
nem me receita!... Ento melhor me fora ter acabado antes desta hora!
Morrer com esperanas,  Me de Deus!
E ajoelhou ante o retbulo devoto que trouxera do seu quarto de Viseu,
ao qual sua me e av j tinham orado, e em cujo rosto compassivo os
olhos das duas senhoras moribundas tinham apagado os seus ltimos
raios de luz.
XIV
Anunciara-se Tadeu de Albuquerque na portaria de Monchique, ao dia
seguinte dos anteriores sucessos.
Sua prima, primeira senhora que lhe saiu ao locutrio, vinha enxugando
as lgrimas de alegria.
- No cuide que eu choro de aflita, meu primo - disse ela. - O nosso
anjo, se Deus quiser, pode salvar-se. Logo de manh a vi passear por
seu p nos dormitrios. Que diferena de semblante ela tem hoje! Isto,
meu primo,  milagre de duas santas que temos inteiras na claustura, e
com as quais algumas perfeitas criaturas desta casa se apegaram. Se as
melhoras continuarem assim, temos a Teresa; o cu consente que
esteja entre ns aquele anjo mais alguns anos...
- Muito folgo com o que me diz, minha boa prima - atalhou o fidalgo. - A
minha resoluo  lev-la j para Viseu, e l se restabelecer com os
ares ptrios, que so muito mais sadios que os do Porto.
-  ainda cedo para to longa e custosa jornada, meu primo. No v o
senhor cuidar que ela est capaz de se meter ao caminho. Lembre-se
84
que ainda ontem pensamos em encontr-la hoje morta. Deixe-a estar
mais alguns meses; e depois no digo que no leve; mas, por enquanto,
no consinto semelhante imprudncia.
- Maior imprudncia - replicou o velho -  conserv-la no Porto, onde, as
estas horas, deve estar o malvado matador de meu sobrinho. Talvez
no saiba a prima?... Pois  verdade: o patife do corregedor saiu a
campo em defesa dele, e conseguiu que o tribunal da Relao lhe
aceitasse a apelao da sentena, passado o prazo da lei; e, no
contente com isto, fez que o filho fosse removido para as cadeias do
Porto. Eu agora trabalho para que a sentena seja confirmada, e espero
consegui-lo; mas, enquanto o assassino aqui estiver, no quero que
minha filha esteja no Porto.
- O primo  pai, e eu sou apenas uma parenta - disse a abadessa -
cumpra-se a sua vontade. Quer ver a menina, no  assim?
- Quero, se  possvel.
- Pois bem, enquanto eu vou cham-la, queira entrar na primeira grade
 sua mo direita, que Teresa l vai ter.
Avisada Teresa de que seu pai a esperava, instantaneamente a cor sadia
que alegrava as senhoras religiosas se demudou na lividez costumada.
Quis a tia, vendo-a assim, que ela no sasse do seu quarto, e
encarregava-se de espaar a visita do pai.
- Tem de ser - disse Teresa. - Eu vou, minha tia.
O pai, ao v-la, estremeceu e enfiou. Esperava mudana, mas no
tamanha. Pensou que a no conheceria sem o prevenirem de que ia ver
sua filha.
- Como eu te encontro, Teresa! - exclamou ele, comovido. - Por que me
no disseste h mais tempo o teu estado?
Teresa sorriu-se, e disse:
- Eu no estou to mal como as minhas amigas imaginam.
- Ters tu foras para ir comigo para Viseu?
- No, meu pai; no tenho mesmo foras para lhe dizer em poucas
palavras que no torno ao Viseu.
- Porque no, se a tua sade depender disso?!...
- A minha sade depende do contrrio. Aqui viverei ou morrerei.
- No  tanto assim, Teresa - replicou Tadeu com dissimulada brandura.
- se eu entender que estes ares so nocivos  tua sade, hs de ir,
porque  obrigao minha conduzir e corrigir a tua m sina.
- Est corrigida, meu pai. A morte emenda todos os erros da vida.
- Bem sei; mas eu quero-te viva, e, portanto, recobra foras para o
caminho, Logo que tiveres meio dia de jornada, vers como a sade
volta como por milagre.
- No vou, meu pai.
- No vais?! - exclamou, irritado, o velho, lanando s grades as mos
trementes de ira.
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- Separam-nos esses ferros a que meu pai se encosta, e para sempre
nos separam.
- E as leis? Cuidas tu que eu no tenho direitos legtimos para te obrigar
a sair do convento? No sabes que tens apenas dezoito anos?
- Sei que tenho dezoito anos; as leis no sei quais so, nem me
incomoda a minha ignorncia. Se pode ser que mo violenta venha
arrancar-me daqui, convena-se, meu pai, de que essa mo h de
encontrar um cadver. Depois... o que quiserem de mim. Enquanto,
porm, eu puder dizer que no vou, juro-lhe que no vou, meu pai.
- Sei o que ! - bramiu o velho. - j sabes que o assassino est no
Porto?
- Sei, sim, senhor.
- Ainda o dizes sem vergonha, nem horror de ti mesma! Ainda...
- Meu pai - interrompeu Teresa - no posso continuar a ouvi-lo, porque
me sinto mal. D-me licena... e vingue-se como puder. A minha glria
neste longo martrio seria uma forca levantada ao lado da do assassino.
Teresa saiu da grade, deu alguns passos na direo da sua cela, e
encostou-se esvada  parede. Correram a ampar-la sua tia e a criada,
mas ela, afastando-as suavemente de si, murmurou:
- No  preciso... Estou boa... Esses golpes do vida, minha tia.
E caminhou sozinha a passos vacilantes.
Tadeu batia  porta do mosteiro com irrisrio enfurecimento pancadas,
umas aps outras, com grande medo da porteira e outras madres,
espantadas do inslito despropsito.
- Que  isso, primo? - disse a prelada, com severidade.
- Quero c fora Teresa.
- Como fora? Quem h de lan-la fora?!
- A senhora, que no pode aqui reter uma filha contra a vontade de seu
pai.
- Isso assim ; mas tenha prudncia, primo.
- No h prudncia nem meia prudncia. Quero minha filha c fora.
- Pois ela no quer ir?
- No, senhora.
- Ento espere que por bons modos a convenamos a sair, porque no
havemos trazer-lhe a rastos.
- Eu vou busc-la, sendo preciso - redargiu em crescente fria. -
Abram-me estas portas, que eu a trarei!
- Estas portas no se abrem assim, meu primo, sem licena superior. A
regra do mosteiro no pode ser quebrantada para servir uma paixo
desordenada, Tranqilize-se, senhor! V descansar desse frenesi, e
venha noutra hora combinar comigo o que for digno de todos ns.
- Tenho entendido! - exclamou o velho, gesticulando contra o ralo do
locutrio. - Conspiram todas contra mim! Ora descansem, que eu lhes
86
darei uma boa lio, Fique a senhora abadessa sabendo que eu no
quero que minha filha receba mais cartas do matador, percebeu?
- Eu creio que Teresa nunca recebeu cartas de matadores, nem suponho
que as receba d'ora em diante.
- No sei se sabe, nem se no. Eu vigiarei o convento. A criada, que
est com ela, ponham-na fora, percebeu?
- Por qu? - redargiu a prelada com enfado.
- Porque a encarreguei de me avisar de tudo, e ela nada me tem
contado.
- Se no tinha que lhe dizer, senhor!
- No me conte histrias, prima! A criada quero v-la sair do convento e
j!
- Eu no lhe posso fazer a vontade, porque no fao injustias. Se vossa
senhoria quiser que a sua filha tenha outra criada, mande-lhe: mas a
que ela tem, logo que deixe de a servir, h muitas senhoras nesta casa
que a desejam, e ela mesma deseja aqui ficar.
- Tenho entendido - bradou ele - querem-me matar! Pois no matam;
primeiro h de o diabo dar um estouro!
Tadeu de Albuquerque saiu em corcovos do trio do mosteiro. Era
hedionda aquela raiva que lhe contraia as faces encorreadas, revendo
suor e sangue aos olhos acovados.
Apresentou-se ao intendente da polcia, pedindo providncias para que
se lhe entregasse sua filha. O intendente respondeu que ele no
solicitava competentemente tais providncias. Instou para que o
carcereiro da cadeia no deixasse sair alguma carta de um assassino
vindo da comarca de Viseu, por nome Simo Botelho. O intendente disse
que no podia, sem motivos concernentes a devassas, obstar a que o
preso escrevesse a quem quer que fosse.
Reduplicada a fria, foi dali ao corregedor do Porto, com os mesmos
requerimentos, em tom arrogante. O corregedor, particular amigo de
Domingos Botelho, despediu com enfado o importuno, dizendo-lhe que a
velhice sem juzo era coisa to de riso como de lstima. Esteve ento a
pique de perder-se a cabea de Tadeu de Albuquerque. Andava e
desandava as ruas do Porto, sem atinar com uma sada digna da sua
prospia e vingana. No dia seguinte, bateu  porta de alguns
desembargadores, e achava-os mais inclinados  demncia que  justia
a respeito de Simo Botelho. Um deles, amigo de infncia de D. Rita
Preciosa, e implorado por ela, falou assim ao sanhudo fidalgo:
- Em pouco est o ser homicida, senhor Albuquerque. Quantas mortes
teria vossa senhoria hoje feito se alguns adversrios se opusessem 
sua clera? Esse infeliz moo, contra quem o senhor solicita desvairadas
violncias, conserva a honra na altura da sua imensa desgraa.
Abandonou-o o pai, deixando-o condenar  forca; e ele da sua extrema
degradao nunca fez sair um grito suplicante de misericrdia, Um
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estranho lhe esmolou a subsistncia de oito meses de crcere, e ele
aceitou a esmola, que era honra para si e para quem lha dava. Hoje, fui
eu ver esse desgraado filho de uma senhora que eu conheci no pao,
sentada ao lado dos reis. Achei-o vestido de baeto e pano pedrs.
Perguntei-lhe se assim estava desprovido de fato. Respondeu-me que se
vestira  proporo dos seus meios, e que devia  caridade dum
ferrador aquelas calas e jaqueta. Repliquei-lhe eu que escrevesse a seu
pai para o vestir decentemente. Disse-me que no pedia nada a quem
consentiu que os delitos do seu corao e da sua dignidade e do
pundonor do seu nome fossem expiados num patbulo. H grandeza
neste homem de dezoito anos, senhor Albuquerque. Se vossa senhoria
tivesse consentido que sua filha amasse Simo Botelho Castelo-Branco,
teria poupado a vida ao homem sem honra que se lhe atravessou com
insultos e ofensas corporais de tal afronta, que desonrado ficaria Simo
se as no repelisse como homem de alma e brios. Se vossa senhoria se
no tivesse oposto s honestssimas e inocentes afeies de sua filha, a
justia no teria mandado arvorar uma forca, nem a vida de seu
sobrinho teria sido imolada aos seus caprichos de mau pai. E, se sua
filha casasse com o filho do corregedor de Viseu, pensa acaso vossa
senhoria que os seus brases sofriam desdouro? No sei de que sculo
data a nobreza do senhor Tadeu de Albuquerque, mas do braso de D.
Rita Teresa Margarida Preciosa Caldeiro Castelo-Branco posso dar-lhe
informaes sobre as pginas das mais verdicas e ilustres genealogias
do reino. Par parte de seu pai, Simo Botelho tem do melhor sangue de
Trs-os-Montes, e no se temer de entrar em competncias com o dos
Albuquerques de Viseu, que no  de certo o dos Albuquerques terrveis
de que reza Lus de Cames...
Ofendido at ao mago pela derradeira ironia, Tadeu ergueu-se de
mpeto, tomou o chapu e a enorme bengala de casto de ouro e fez a
cortesia de despedida.
- So amargas as verdades, no  assim? - disse-lhe, sorrindo, o
desembargador Mouro Mosqueira,
- Vossa excelncia l sabe o que diz, e eu c sei no que hei de ficar -
respondeu com tom irnico o fidalgo, alanceado na sua honra e na dos
seus quinze avs.
O desembargador retorquiu:
- Fique no que quiser; mas v na certeza, se isso lhe serve de alguma
coisa, que Simo Botelho no vai  forca.
- Veremos... - resmoneou o velho.
So treze dias decorridos do ms de Maro de 1805.
Est Simo num quarto de malta das cadeias da Relao. Um catre de
tbuas, um colcho de embarque, uma banca e cadeira de ninho e um
pequeno pacote de roupa, colocado no lugar do travesseiro, so a sua
moblia. Sobre a mesa tem um caixote de pau preto, que contm as
88
cartas de Teresa, ramilhetes secos, os seus manuscritos do crcere de
Viseu e um avental de Mariana, o ltimo com que ela, no dia do
julgamento, enxugara as lgrimas e arrancara de si no primeiro instante
de demncia.
Simo rel as cartas de Teresa, abre os envoltrios de papel que
encerram as flores ressequidas, contempla o avental de linho,
procurando esvados vestgios das lgrimas. Depois, encosta a face e o
peito aos ferros da sua janela, e avista os horizontes boleados pela
serras de Valongo e Gralheira, e cortados pelas ribas pitorescas de Gaia,
do Candal, de Oliveira e do mosteiro da Serra-do-Pilar. ~ um dia lindo,
Refletem-se do azul do cu os mil matizes da primavera. Tem aromas o
ar, e a virao fugitiva dos jardins derrama no ter as aromas que
roubou aos canteiros, Aquela indefinida alegria, que parece reluzir nas
legies de esprito que se geram ao sol de maro, rejubila a natureza
que, toda pompa de luz e flores, se est namorando do calor que a vai
fecundando.
Dia de amor e de esperanas era aquele que o Senhor mandava  choa
escravada na garganta da serra, ao palcio esplendoroso que
reverberava ao Sol os seus espirculos, ao opulento que passeava as
ruas moles equipagens, bafejado pelo respiro acre das saras, e ao
mendigo que desentorpecia os membros encostado s colunas dos
templos.
E Simo Botelho, fugindo a claridade da luz e o voejar das aves,
meditando, chorava e escrevia assim as suas meditaes:
"O po do trabalho de cada dia e o teu seio para repousar uma hora a
face, pura de manchas: no pedi mais ao cu.
Achei-me homem aos dezesseis anos. Vi a virtude  luz do teu amor.
Cuidei que era santa a paixo que. absorvia todas as outras, ou as
depurava com o seu fogo sagrado.
Nunca os meus pensamentos foram denegridos por um desejo que eu
no possa confessar alto diante de todo o mundo. Diz tu, Teresa, se os
meus lbios profanaram a pureza de teus ouvidos. Pergunta a Deus
quando quis eu fazer do meu amor o teu oprbrio.
Nunca, Teresa! Nunca, 6 mundo que me condenas!
Se teu pai quisesse que eu me arrastasse a seus ps para te merecer,
beijar-lhe-ia. Se tu me mandasses morrer para te no privar de ser feliz
com outro homem, morreria, Teresa!
Mas tu eras sozinha e infeliz, e eu cuidei que o teu algoz no devia
sobreviver-te. Eis-me aqui homicida, e sem remorsos. A insnia do
crime aturde a conscincia; no a minha, que se no temia das escadas
da forca, nos dias em que o meu despertar era sempre o
estrebuxamento da sufocao.
Eu esperava a cada hora o chamamento para o oratrio, e dizia comigo:
falarei a Jesus Cristo.
89
Sem pavor, premeditava nas setenta horas dessa agonia moral, e
antevia consolaes que o crime no ousa esperar sem injria da justia
de Deus.
Mas chorava por ti, Teresa! O travor do meu clix tinha sobre a
amargura as mil amarguras das tuas lgrimas.
Gemias aos meus ouvidos, mrtir! Ver-me-ias sacudindo nas convulses
da morte, em teus delrios. A mesma morte tem horror da suprema
desgraa. Tarde morrerias, A minha imagem, em vez de te acenar com
a palma de martrios, te seria um fantasma levando das tbuas dum
cadafalso.
Que morte a tua,  minha santa amiga!"
E prosseguiu at ao momento em que Joo da Cruz, com ordem do
intendente geral da polcia, entrou no quarto.
- Aqui! - exclamou Simo, abraando-o. - E Mariana? Deixou-a
sozinha?! Morta, talvez!
- Nem sozinha, nem morta, fidalgo! O diabo nem sempre est atrs da
porta... Mariana voltou ao seu juzo.
- Fala verdade, senhor Joo?
- Pudera mentir!... Aquilo foi coisa de bruxaria, enquanto a mim...
Sangrias, sedenhos, gua fria na cabea, e exorcismos do missionrio,
no lhe digo nada, a rapariga est escorreita, e, assim que tiver um
todo-nada de foras, bota-se ao caminho.
- Bendito seja Deus! - exclamou Simo.
- Amm - acrescentou o ferrador. - Ento que arranjo  este de casa?
Que breca de tarimba  esta?! Quer-se aqui uma cama de gente, e
alguma coisa em que um cristo se possa sentar,
- Isto assim est excelente.
- Bem vejo... E de barriga? Como vamos ns de trincadeira?
- Ainda tenho dinheiro, meu amigo.
- H de ter muito, no tem dvida; mas eu tenho mais, e vossa
senhoria tem ordem franca. Veja l esse papel.
Simo leu uma carta de D. Rita Preciosa, escrita ao ferrador, em que o
autorizava a socorrer seu filho com as necessrias despesas,
prontificando-se a pagar todas as ordens que lhe fossem apresentadas
com a sua assinatura.
-  justo - disse Simo, restituindo a carta - porque eu devo ter uma
legitima.
- Ento j v que no tem mais do que pedir por boca. Eu vou comprarlhe
arranjos...
- Abra-me o seu nobre corao para outro servio mais valioso - atalhou
o preso.
- Diga l, fidalgo.
Simo pediu-lhe a entrega de uma carta em Monchique a Teresa de
Albuquerque.
90
- O berzabum parece-me que as arma! - disse o ferrador. - Venha de l
a carta. O pai dela est c. J sabia?
- No.
- Pois est; e, se o diabo o traz  minha beira, no sei se lhe darei com
a cabea numa, j me lembrou de o esperar no caminho e pendur-lo
pelo gasnete no galho dum sobreiro. . . A carta tem resposta?
- Se lha derem, meu bom amigo.
Chegou o ferrador a Monchique, a tempo que um oficial da justia, dois
mdicos e Tadeu de Albuquerque entravam no ptio do convento.
Falou o azuazl  prelada, exigindo em nome do juiz de fora que dois
mdicos entrassem no convento a examinar a doente D. Teresa
Clementina de Albuquerque, a requerimento de seu pai.
Perguntou a prelada aos mdicos se eles tinham a necessria licena
eclesistica para entrarem em Monchique.  resposta negativa redargiu
a abadessa que as portas do convento no se abriam. Disseram os
mdicos de Tadeu de Albuquerque que era aquele o estilo dos
mosteiros, e no houve que redargir  rigorosa prelada.
Saram, e o ferrador s ento refletiu no modo de entregar a carta. A
primeira idia pareceu-lhe a melhor. Chegou ao ralo, e disse:
-  senhora freira!
- Que quer vossemec? - disse a prelada.
- A senhora faz favor de dizer  senhora D. Teresinha de Viseu, que est
aqui o pai daquela rapariga da aldeia que ela sabe?
- E quem  vossemec?
- Sou o pai da tal rapariga que ela sabe.
- J sei! - exclamou de dentro a voz de Teresa, correndo ao locutrio.
A prelada retirou-se a um lado, e disse:
- V l o que fazes, minha filha...
- A sua filha escreveu-me? - disse Teresa ao Joo da Cruz.
- Sim, senhora, aqui est a carta.
E depositou na roda a carta em que a abadessa reparou, e disse,
sorrindo:
- Muito engenhoso  o amor, Teresinha... Permita Deus que as noticias
da rapariga da aldeia te alegrem o corao; mas olha, filhinha, no
cuides que a tua velha tia  menos esperta que o pai da rapariga da
aldeia.
Teresa respondeu com beijos s jovialidades carinhosas da santa
senhora, e sumiu-se a ler a carta, e a responder-lhe. Entregando a
resposta, disse ela ao ferrador:
- No v ai sentada naquela escadinha uma pobre?
- Vejo, sim, senhora, e conheo-a. Como diabo veio para aqui esta
mulher? Cuide que depois da esfrega que lhe deu o hortelo, a
pobrezinha no tinha pernas que a c trouxessem! A mulher pelos
modos tem fibras daquela casta!
91
- Fale baixo - tornou Teresa. - Pois olhe... quando trouxer as cartas,
entregue-lhe a ela, sim? Eu j a mandei  cadeia; mas no a deixaram
l entrar.
- Bem est, e o arranjo no  mau assim. Fique com Deus, menina.
Esta boa nova alegrou Simo. A providncia divina apiedara-se dele
naquele dia. O restaurar-se o juzo de Mariana e a possibilidade de
corresponder-se com Teresa eram as mximas alegrias que podiam
baixar do cu ao seu cerrado infortnio.
Exaltara-se Simo em graas a Deus, na presena de Joo da Cruz, que
arrumava, no quarto, uns mveis que comprara em segunda mo,
quando este, suspendendo o trabalho, exclamou:
- Ento vou-lhe dizer outra coisa, que no tinha teno de lhe dizer,
para o apanhar de speto.
- Que ?
- A minha Mariana veio comigo, e ficou na estalagem porque no se
podia bulir com dores; mas amanh ela c est para lhe fazer a cozinha
e varrer a casa.
Simo, reconcentrando o indefinvel sentimento que esta noticia lhe
causara, disse com melanclica pausa:
- , pois, certo que a minha m estria arrasta a sua desgraada filha a
todos os meus abismos! Pobre anjo de caridade, que digna tu s do cu!
- Que est o senhor ai a pregar? - interrompeu o ferrador. - Parece que
ficou a modo de tristonho com a notcia!...
- Senhor Joo - tornou solenemente o preso - no deixe aqui a sua
querida filha. Deixe-me ver, traga-a consigo uma vez a esta casa; mas
no a deixe c, porque eu no posso tolher o destino de Mariana. Como
h de ela viver no Porto, sozinha, sem conhecer ningum, bela como ela
, e perseguida como tem de ser?!
- Perseguida! T carocha! No que ela  mesmo de se lhe dar que a
persigam!... Que vo para l, mas que deixem as ventas em casa. Meu
amigo, as mulheres so como as pras verdes: um homem apalpa-as, e,
se o dedo acha duro, deixa-as, e no as come.  como . A rapariga sai
 me. Minha mulher, que Deus haja, quando eu lhe andava rentanto,
dei-lhe um dia um belisco numa perna. E vai ela pe-se direita comigo,
e deu-me dois cascudos nas trombas, que ainda agora os sinto. A
Mariana!... Aquilo  d'a pele de Satans! Pergunte o senhor, se algum
dia falar com aquele fidalguinho Mendes, de Viseu, a troada que ele
levou com as rdias da gua, s por lhe bulir na chinela quando ela
estava em cima da burra!
Simo sorriu ao rasgado penegrico da bravura da moa, e orgulhou-se
secretamente dos brandos afagos com que ela o desvelara em oito
meses de quase continuada convivncia.
- E vossemec h de privar-se da companhia de sua filha? - insistiu o
preso.
92
- Eu l me arranjarei como puder. Tenho uma cunhada velha, e levo-a
para mim para me arranjar o caldo. E vossa senhoria pouco tempo aqui
estar... O senhor corregedor l anda a tratar de o pr na rua, e que o
senhor sai, c para mim so favas contadas. E assim com'assim, viu
dizer-lhe tudo duma feita: a rapariga, se eu a no deixasse vir para o
Porto, dava um estouro como uma castanha. Olhe que eu no sou tolo,
fidalgo. Que ela tem paixo d'alma por vossa senhoria, isto; to certo
como eu ser Joo.  a sua sina; que hei de eu fazer-lhe? Deix-la, que
pelo senhor Simo no lhe h de vir mal, ou ento j no h honra
neste mundo.
Simo lanou-se aos braos do ferrador, exclamando:
- Pudesse eu ser o marido de sua filha, meu nobre amigo!
- Qual marido!... - disse o ferrador com os olhos vidrados das primeiras
lgrimas que Simo lhe vira - Eu nunca me lembrei disso, nem ela!... Eu
sei que sou um ferrador, e ela sabe que pode ser sua criada, e mais
nada, senhor Simo; mas... sabe que mais? Eu desejo que os meus
amigos sejam desgraados como havia de ser o senhor se casasse com
a pobre rapariga! No falemos nisto, que eu por milagre choro; mas,
quando pego a chorar, sou um chafariz... Vamos ao arranjo: a mesa
deve aqui ficar; a cmoda ali; duas cadeiras deste lado, e duas daquele.
A barra acol. O ba debaixo da cama. A bacia e a bilha da gua sobre
esta coisa, que no sei como se chama. Os lenis e o mais bragal temnos
l a rapariga. Amanh  que o quarto h de ficar que nem uma
capela. Olhe que a Mariana j me disse que comprasse duas aquelas...
Como se chamam aquelas envasilhas de pr ramos?
- Jarras.
- E como diz, duas jarras para flores; mas eu no sei onde se vende
isso. Agora vou buscar o jantar, que a moa h de cuidar que me no
deixar sair da cadeia. Ainda lhe no disse que no me deixaram c
entrar ontem  tarde; mas eu, como trouxe uma cartinha de sua me
para um senhor desembargador, fui onde a ele, e hoje de manh j l
tinha na estalagem a ordem do senhor intendente geral da policia. At
logo.
XVI
Um incidente agora me ocorre, no muito concertado com o seguimento
da histria, mas a propsito vindo para demonstrar uma face da ndole
do ex-corregedor de Viseu, j ento exonerado do cargo.
Sabido  que Manuel Botelho, o primognito. voltando a freqentar
matemticas em Coimbra, fugira dali para Espanha com uma dama
desleal a seu marido, estudante aoreano que cursava medicina.
93
Um ano demorara na Corunha Manuel Botelho com a fugitiva.
alimentando-se dos recursos que sua me, extremosa por ele, lhe
remetia, vendendo a pouco e pouco as suas jias, e privando as filhas
dos adornos prprios dos anos e da qualidade.
Secaram-se estas fontes, e no restavam outras. D. Rita disse afinal ao
filho que deixara de socorrer Simo por no ter meios; e agora das
escassas economias que fazia nada podia enviar-lhe porque estava em
obrigao de pagar os alimentos de Simo  pessoa que por compaixo
lhos dera em Viseu, e lhos estava dando no Porto. Ajuntava ela, para
consolao do filho, que viesse ele para Vila-Real, e trouxesse consigo a
infeliz senhora; que fosse ele para casa, e a deixasse a ela numa
estalagem at se lhe arranjar habitao; que o ensejo era oportuno por
estar na quinta de Montezelos o pai, quase divorciado da famlia.
Voltou pelo Minho Manuel Botelho, e chegou com a dama ao Porto,
quinze dias depois que Simo entrara no crcere.
J noutro ponto deixamos dito que nunca os dois irmos se deram, nem
estimaram; mas o infortnio de Simo remia as culpas do gnio fatal
que o orfanara de pai e me, e s da irm Rita lhe deixara uma
lembrana saudosa.
Foi Manuel  cadeia, e, abrindo os braos ao irmo. teve um glacial
acolhimento.
Perguntou-lhe Manuel a histria do seu desastre,
- Consta do processo - respondeu Simo.
- E tem o mano esperanas de liberdade? - replicou Manuel.
- No penso nisso.
- Eu pouco posso oferecer-lhe, porque vou para casa forado pela falta
de recursos; mas, se precisa de roupa, repartirei consigo da minha.
- No preciso nada, Esmolas s as recebo daquela mulher.
J Manuel tinha reparado em Mariana, e da beleza da moa inferira
concluses para formar falsos juzos.
- E quem  esta menina? - tornou Manuel.
-  um anjo... No lhe sei dizer mais nada.
Mariana sorriu-se, e disse:
- Sou uma criada do senhor Simo e de vossa senhoria.
- E c do Porto?
- N0, meu senhor, seu dos arrabaldes de Viseu.
- E tem feito sempre companhia a meu mano?
Simo atalhou assim  resposta balbuciante de Mariana:
- A sua curiosidade incomoda-me, mano Manuel,
- Cuidei que no era ofensiva - replicou o outro, tomando o chapu. -
Quer alguma coisa para a me?
- Nada.
94
Estando Manuel Botelho, na tarde desse dia, fechando as malas para
seguir jornada para Vila-Real, foi visitado pelo desembargador Mouro
Mosqueira e pelo corregedor do crime.
- Devemos  espionagem da polcia - disse o corregedor - a novidade de
estar nesta estalagem um filho do meu antigo amigo, condiscpulo e
colega Domingos Correia Botelho. Aqui vimos dar-lhe um abrao e
oferecer o nosso prstimo. Esta senhora  sua esposa? - continuou o
magistrado, reparando na aoreana.
- No  minha esposa... - balbuciou Manuel - ... minha irm.
- Sua irm... - disse Mosqueira - qual das trs? H cinco anos que as vi
em Viseu, e grande mudana fez esta senhora, que no me recordo das
suas feies absolutamente coisa nenhuma. E a senhora D. Ana Amlia?
- Justamente - disse Manuel.
- Bela lhe afirmo eu que est, minha senhora; mas fez-se um rosto
muito outro do que era!...
- Vieram ver o infeliz Simo? - atalhou o corregedor.
- Sim, senhor... viemos ver meu pobre irmo.
- Foi um raio que caiu na famlia aquele rapaz!... -ajuntou Mosqueira -
mas pode estar na certeza que a sentena no se executa; diga a sua
me que mo ouviu da minha boca. O meu tribunal est preparando para
lhe minorar a pena em dez anos de degredo para a ndia, e seu pai.
segundo me disse na passagem para Vila-Real, j preparou as coisas na
suplicao e no desembargo do pao, no obstante o morto ter l
parentes poderosos nas duas instncias. Quisramos absolv-lo e
restitu-lo  sua famlia; mas tanto  impossvel. Simo matou, e
confessa soberbamente que matou. No consente mesmo que se diga
que em defesa o fez.  um doido desgraado com sentimentos
nobilssimos! Chovem cartas de empenho a favor do Albuquerque.
Pedem a cabea do pobre rapaz com uma sem-cerimnia que indigna o
nimo.
- E essa menina que foi a causa da desgraa? - perguntou Manuel.
- Isso  uma herona! - respondeu o corregedor do crime, - Davam-na
j por morta quando Simo chegou aqui. Desde que soube das
probabilidades da comutao da pena, deu um pontap na morte, e est
salva, segundo me disse o mdico.
- Conhece-a muito bem, minha senhora? - disse o desembargador 
dama, suposta irm de Manuel.
- Muito bem - respondeu ela, relaceando os olhos ao amante.
- Dizem que  formosssima!
- Decerto - acudiu Manuel -  formosssima!
- Muito bem - disse o corregedor, erguendo-se. - Leve este abrao ao
pai, e diga-lhe que o condiscpulo c est leal e dedicado como sempre.
Eu tenho de lhe escrever brevemente.
- E outro abrao a sua virtuosa, me - acrescentou o desembargador.
95
- Vou desconfiado! - disse o Mosqueira ao colega. - Manuel Botelho
tinha, h coisa de um ano, fugido para Espanha com uma senhora
casada. Aquela mulher que vimos no  irm dele.
- Pois, se nos mentiu,  patife, por nos obrigar a cortejar uma
concubina!... Eu me informarei... - disse o corregedor, ofendido no seu
austero pundonor.
E no prximo correio, escrevendo a Domingos Botelho, dizia no perodo
final "Tive o gosto de conhecer teu filho Manuel e uma de tuas filhas;
por ele te mandei um abrao, e por ela te mandaria outro, se fosse
moda ensinarem velhos a meninas bonitas como se do os abraos nos
pais".
Estava j Manuel em casa, e cuidava em trajar uma modesta casa para
a aoreana, auxiliado por sua bondosa e indulgente me. Domingos
Botelho fora informado da vinda, e dissera que no queria ver o filho,
avisando-o de que era considerado desertor de cavalaria seis desde que
abandonara os estudos, onde estava com licena.
Recebeu depois a carta do corregedor do crime, e mandou imediata e
secretamente devassar se em Vila-Real estava a senhora que indicava a
carta. A espionagem deu-a como certa na estalagem, enquanto Manuel
Botelho cuidava nos adornos de uma casa. Escreveu o magistrado ao
juiz de fora, e este mandou chamar  sua presena a mulher suspeita, e
ouviu dela a sua histria sincera e lacrimosamente contada. Condoeu-se
o juiz, e revelou ao colega as suas averiguaes, Domingos Botelho foi a
Vila-Real, e hospedou-se em casa do juiz de fora, onde a senhora foi
novamente chamada, sendo que ao mesmo tempo o general da
provncia lavrava ordem de priso para o cadete desertor de cavalaria
de Bragana.
A aoreana, em vez do juiz, encontrou um feio homem, de carrancuda
sambra, e aparncia de intenes sinistras.
- Eu sou pai de Manuel - disse Domingos Botelho. Sei a histria da
senhora. O infame  ele. Vossa senhoria  a vtima. O castigo da
senhora principiou desde o momento em que a sua conscincia lhe disse
que praticou uma ao indigna. Se a conscincia lho no disse ainda, ela
lho dir. Donde ?
- Da ilha do Faial - respondeu trmula a dama.
- Tem famlia?
- Tenho me e irms.
- Sua me aceita-la-ia, se a senhora lhe pedisse abrigo?
- Creio que sim.
- Sabe que Manuel  um desertor, que a estas horas est preso ou
fugitivo?
- No sabia...
- Quer isto dizer que a senhora no tem proteo de algum...
A pobre mulher soluava, abafada por nsias, e debulhada em lgrimas.
96
- Por que no vai para sua me?
- No tenho recursos alguns - respondeu ela.
- Quer partir hoje mesmo? A porta da estalagem. daqui a pouco,
encontrar uma liteira e uma criada para acompanh-la at ao Porto. L
entregar uma carta. A pessoa a quem escrevo lhe cuidar da passagem
para Lisboa. Em Lisboa outra pessoa a levar a bordo da primeira
embarcao que sair para os Aores. Estamos combinados? Aceita?
- E beijo as mos de vossa senhoria... Uma desgraada como eu no
podia esperar tanta caridade.
Poucas horas depois. a esposa do mdico...
- Que tinha morrido de paixo e vergonha talvez! - exclama uma leitora
sensvel.
- No, minha senhora; o estudante continuava nesse ano a freqentar a
Universidade; e, como tinha j vasta instruo em patologia, poupou-se
 morte da vergonha. que  uma morte inventada pelo visconde de A.
Garrett no Fr. Luiz de Sousa, e  morte da paixo. que  outra morte
inventada pelos namorados nas cartas despeitosas, e que no pega nos
maridos a quem o sculo dotou de uns longes de filosofia, filosofia grega
e romana, porque bem sabem que os filsofos da Antigidade davam
por mimo as mulheres aos seus amigos, quando os seus amigos por
favor lhas no tiravam, E esta filosofia hoje ento...(6)
Pois o mdico no morreu, nem sequer desmedrou, ou levou R
significativo de preocupao do nimo, insensvel s amenidades da
teraputica.
A esposa, inquestionavelmente muito mais alquebrada e valetudinria
que seu esposo, lavada em pranto, morta de saudades, sem futuro, sem
esperanas, sem voz humana que a consolasse, entrou na liteira, e
chegou ao Porto, onde procurou o corregedor do crime para entregarlhe
uma carta do doutor Domingos Botelho. Um perodo desta carta
dizia assim:
"Deste-me a noticia duma filha que eu no conhecia, nem conheo. A
me desta senhora est no Faial, para onde ela vai. Cuida tu, ou manda
cuidar no seu transporte para Lisboa, e encarrega ali algum de correr
com a passagem dela para os Aores no primeiro navio. A mim me
dars conta das despesas. Meu filho Manuel teve ao menos a virtude de
no matar ningum para se constituir amante. Do modo como correm
os tempos, muito virtuoso  o rapaz que no mata o marido da mulher
que ama. V se consegues do general, que est ai, perdo para o rapaz,
que  desertor da cavalaria seis, e me consta que est escondido em
casa dum parente. Enquanto a Simo, creio que no  possvel salv-lo
do degredo temporrio...  uma lana em frica livr-lo da forca. Em
Lisboa movem-se grandes potncias contra o desgraado, e eu estou
mal visto do intendente geral por abandonar o lugar... etc.".
97
Partiu para Lisboa a aoreana, e dali para a sua terra, e para o abrigo de
sua me, que a julgara morta, e lhe deu anos de vida, se no ditosa,
sossegada e desiludida de quimeras.
Manuel Botelho, obtido o perdo pela preponderncia do corregedor do
crime, mudou de regimento para Lisboa, e ai permaneceu at que,
falecido seu pai, pediu a baixa e voltou  provncia.
XVII
Joo da Cruz, no dia 4 de agosto de 1805, sentou-se  mesa com triste
aspecto e nenhum apetite do almoo.
- No comes, Joo? - disse-lhe a cunhada.
- No passa daqui o bocado - respondeu ele, pondo o dedo nos
gorgomilos.
- Que tens tu?
- Tenho saudades da rapariga... Dava agora tudo quando tenho para a
ver aqui ao p de mim, com aqueles olhos que pareciam ir direito aos
desgostos que um homem tem no seu interior. Mal hajam as desgraas
da minha vida, que ma fizeram perder, Deus sabe se para pouco, se
para sempre!... Se eu no tivesse dado o tiro no almocreve, no vinha a
ficar em obrigao ao corregedor, e no se me dava que o filho vivesse
ou morresse...
- Mas, se tens saudades - atalhou a senhora Josefa - manda buscar a
rapariga, tem-na c algum tempo, e torna depois para onde ao senhor
Simo.
- Isso no  de homem que pe navalha na cara, Josefa. O rapaz, se ela
lhe falta, morre de pasmo dentro daqueles ferros. Isto  veneta que me
deu hoje... Sabes que mais? Leve a breca o dinheiro! Amanh vou ao
Porto.
- Pois isso  o que deves fazer.
- Est dito. Quem c ficar que o ganhe. Vo-se os anis e fiquem os
dedos. Por ora, tem-se resistido a tudo com o meu brao. A rapariga, se
ficar com menos, l se avenha. Assim o quer, assim o tenha.
Reanimou-se a fisionomia do mestre ferrador, e como que os empeos
da garganta se iam removendo  medida que planizava a sua ida ao
Porto.
Acabara de almoar, e ficara cismtico, encostado  mesa do escano.
- Ainda ests malucando?! - tornou Josefa.
- Parece coisa do demnio, mulher!... A rapariga estar doente ou
morta?
98
- Anjo bento da Santssima Trindade! - exclamou a cunhada, erguendo
as mos - que dizes tu, Joo?
- Estou c por dentro negro como aquela sert!
- Isso  flato, homem! Vai tomar ar; trabalha um poucochinho para
espaireceres.
Joo da Cruz passou ao coberto onde tinha o armrio da ferragem e a
bigorna, e comeou a atarracar cravos.
Alguns conhecidos tinham passados, palavreando com ele consoante
costumavam, e achavam-no taciturno e nada para graas.
- Que tens tu, Joo? - dizia um.
- No tenho nada. Vai  tua vida e deixa-me, que no estou para lrias.
Outro parava e dizia:
- Guarde-o Deus, senhor Joo.
- E a vossemec tambm. Que novidade h?
- No sei nada.
- Pois ento v com Nossa Senhora, que eu estou c de candeias s
avessas.
O ferrador largava o martelo; sentava-se aos poucos no tronco, e
coava a cabea com frenesi. Depois recomeava novamente, e to
alheado o fazia, que estragava o cravo, ou martelava os dedos.
- Isto  coisa do diabo! - exclamou ele; e foi  cozinha procurar a
pichorra, que emborcou como qualquer elegante de paixes etreas se
aturde com absinto. - Hei de afogar-te, coisa m, que me ests
apertando a alma! - continuou o ferrador, sacudindo os braos, e
batendo o p no soalho.
Voltou ao coberto a tempo que um viandante ia passando sobre a sua
possante mula. Envolvia-se o cavaleiro num amplo capote  moda
espanhola, sem embargo da calma que fazia. Viam-se-lhe as botas de
couro cru, com esporas amarelas afiveladas, e o chapu derrubado
sobre os olhos.
- Ora viva! - disse o passageiro.
- Viva! - respondeu mestre Joo, relaceando os olhos pelas quatro patas
da mula, a ver se tinha obra em que entreter o esprito - A mula  de
rpia e chibana!
- No  m. Vossemec  que  o senhor Joo da Cruz?
- Para o servir.
- Venho aqui pagar-lhe uma dvida.
- A mim? O senhor no me deve nada, que eu saiba.
- No sou eu que devo;  meu pai, e ele que me encarregou de lhe
pagar.
- E quem  seu pai?
- Meu pai era um recoveiro de Caro, chamado Bento Machado.
99
Proferida metade destas palavras, o cavalheiro afastou rapidamente as
bandas do capote e desfechou um bacamarte no peito do ferrador. O
ferido recuou, exclamando:
- Mataram-me!... Mariana, no te vejo mais!...
O assassino teria dado cinqenta passos a todo o galope da espantada
mula, quando Joo da Cruz, debruado sobre o banco, arrancava o
ltimo suspiro com a cara posta no cho, donde apontara ao peito do
almocreve dez anos antes.
Os caminheiros, que perpassaram pelo cavaleiro inadvertidamente,
ajuntaram-se em redor do cadver. Josefa acudiu ao estrondo do tiro, e
j no ouviu as ltimas palavras de seu cunhado. Quis transport-lo
para dentro e correr a chamar cirurgio; mas um cirurgio estava no
ajuntamento, e declarou morto o homem.
- Quem o matou? - exclamavam trinta vozes a um tempo.
Nesse mesmo dia vieram justia de Viseu lavrar auto e devassar:
nenhum indcio lhes deu o fio do misterioso assassnio. O escrivo dos
rfos inventariou os objetos encontrados, e fechou as portas quando os
sinos corriam o derradeiro dobre ao cair da lousa sobre Joo da Cruz.
Deus ter descontado nos instintos sanguinrios do teu temperamento a
nobreza de tua alma! Pensando nas incoerncias da tua ndole, homem
que me explicas a providncia, assombram-me as caprichosas antteses
que a mo de Deus infunde em alentos na criatura. Dorme o teu sono
infinito, se nenhum outro tribunal te cita a responder pelas vidas que
tiraste, e pelo uso que fizeste da tua. Mas, se h estncia de castigo e
de misericrdia, as lgrimas de tua filha tero sido, na presena do Juiz
Supremo, os teus merecimentos.
Fez Josefa escrever a Mariana, noticiando-lhe a morte de seu pai, mas
sobrescritou a carta a Simo Botelho, para maior segurana. Estava
Mariana no quarto do preso, quando a carta lhe foi entregue.
- No conheo a letra, Mariana... E a obreia  preta...
Mariana examinou o sobrescrito, e empalideceu.
- Eu conheo a letra - disse ela -  do Joaquim da loja. Abra, depressa,
senhor Simo... Meu pai morreria?
- Que lembrana! Pois no teve h trs dias carta dele?... E no disse
que estava bom?
- Isso que tem?... Veja quem assina.
Simo buscou a assinatura, e disse:
- Josefa Maria!...  a tua tia que lhe escreve.
- Leia... leia... Que diz ela? Deixe-me ler a mim...
O preso lia mentalmente, e Mariana instou:
- Leia alto, por quem , senhor Simo, que estou a tremer... e vossa
senhoria descora... Que , meu Deus?
Simo deixou cair a carta, e sentou-se prostrado de nimo. Mariana
correu a levantar a carta, e ele, tomando-lhe a mo, murmurou:
100
- Pobre amigo!... Choremo-lo ambos... choremo-lo, Mariana, que o
amvamos como filhos...
- Pois morreu? - bradou ela.
- Morreu... mataram-no!...
A moa expediu um grito estrdulo, e foi com o rosto contra os ferros
das grades. Simo inclinou-a para o seio, e disse-lhe com muita ternura
e veemncia:
- Mariana, lembre-se que  o meu amparo. Lembre-se de que as ltimas
palavras de seu pai deviam ser recomendar-lhe o desgraado que
recebe das tuas mos benfeitoras o po da vida. Mariana, minha querida
irm, vena a dor, que pode mat-la, e vena-a por amor de mim.
Ouve-me, amiga da minha alma?
Mariana exclamou:
- Deixe-me chorar, por caridade!... Ai! meu Deus, se eu torno a
endoidecer!
- Que seria de mim! - A quem deixaria Mariana o seu nobre corao
para me suavizar este martrio? Quem me levaria ao desterro uma
palavra amiga que me animasse a crer em Deus? No h de
enlouquecer, Mariana, porque eu sei que me estima, que me ama, e que
afrontar com coragem a maior desgraa que ainda pode sugerir-me o
inferno! Chore, minha irm, chore: mas veja-me atravs das suas
lgrimas!
XVII
Mariana, decorridos dias, foi a Viseu recolher a herana paterna Em
proporo com o seu nascimento, bem dotada a deixara o laborioso
ferrador. Afora os campos, cujo rendimento bastaria para a sustentao
dela, Mariana levantou a laje conhecida da lareira e achou os
quatrocentos mil ris com que Joo da Cruz contava para alimentar as
regalias de sua decrepitude inerte. Vendeu Mariana as terras, e deixou a
casa a sua tia, que nascera nela, e onde seu pai casara.
Liquidada a herana, tornou para o Porto, e depositou o seu cabedal nas
mos de Simo Botelho, dizendo que receava ser roubada na casinha
em que vivia, fronteira  Relao, na Rua de S. Bento.
- Por que vendeu as suas terras, Mariana? - perguntou o preso.
- Vendi-as, porque no fao teno de l voltar.
- No faz?... Para onde h de ir, Mariana, indo eu degredado? Fica no
Porto?
- No, senhor, no fico - balbuciou ela como admirada desta pergunta, 
qual o seu corao julgava ter respondido de muito.
- Pois no?!
101
- Vou para o degredo, se vossa senhoria me quiser na sua companhia.
Fingindo-se surpreendido, Simo seria ridculo aos seus prprios olhos.
- Esperava essa resposta, Mariana, e sabia que no me dava outra. Mas
sabe o que  o degredo, minha amiga?
- Tenho ouvido dizer muitas vezes o que , senhor Simo...  uma terra
mais quente que a nossa; mas tambm h l po, e vive-se...
- E morre-se abrasado ao sol doentio daquele cu morre-se de saudades
da ptria, morre-se muitas vezes dos maus tratos dos governadores das
gals, que tm um condenado na conta de fera.
- No h de ser tanto assim. Eu tenho perguntado muito por isso 
mulher dum preso, que cumpriu dez anos de sentena na ndia, e viveu
muito bem em uma terra chamada Solor, onde teve uma tenda; e, se
no fossem as saudades, diz ela que no vinha, porque lhe corria
melhor por l a vida que por c. Eu, se for por vontade do Senhor
Simo, vou pr uma lojinha tambm. Ver como eu amanho a vida.
Afeita ao calor estou eu; vossa senhoria no est; mas no h de ter
preciso, se Deus quiser, de andar ao tempo.
- E suponha, Mariana, que eu morro apenas chegar ao degredo?
- No falemos nisso, senhor Simo...
- Falemos, minha amiga, porque eu hei de sentir  hora da morte, a
pesar-me na alma, a responsabilidade do seu destino... Seu eu morrer?
- Se o senhor morrer, eu saberei morrer tambm.
- Ningum morre quando quer, Mariana...
- Oh! se morre!... E vive tambm quando quer... No mo disse j a
senhora D. Teresa?
- Que lhe disse ela?
- Que estava a passar quando vossa senhoria chegou ao Porto, e que a
sua chegada lhe dera vida. Pois h muita gente assim, senhor Simo...
E mais a fidalga  fraquinha, e eu sou mulher do campo, vezada a todos
os trabalhos; e, se fosse preciso meter uma lanceta no brao e deixar
correr o sangue at morrer, fazia-o como quem o diz.
- Oua-me, Mariana que espera de mim?
- Que hei de eu esperar!... Por que me diz isso o senhor Simo?
- Os sacrifcios que Mariana tem feito e quer fazer por mim s podiam
ter uma paga, embora mos no faa esperando recompensa. Abre-me o
seu corao, Mariana?
- Que quer que eu lhe diga?
- Conhece a minha vida to bem como eu, no  verdade?
- Conheo. E que tem isso?
- Sabe que eu estou ligado pela vida e pela morte quela desgraada
senhora?
- E dai? Quem lhe diz menos disso?!
- Os sentimentos do corao s os posso agradecer com amizade.
- Eu j lhe pedi mais alguma coisa, senhor Simo?!
102
- Nada me pediu, Mariana; mas obriga-me tanto, que me faz mais infeliz
o peso da obrigao.
Mariana no respondeu; chorou.
- E por que chora? - tornou Simo carinhosamente.
- Isso  ingratido... e eu no mereo que me diga que o fao infeliz.
- No me compreendeu... Sou infeliz por no poder faz-la minha
mulher. Eu queria que Mariana pudesse dizer:
- "Sacrifiquei-me por meu marido; no dia em que o vi ferido em casa de
meu pai, velei as noites a seu lado; quando a desgraa o encerrou entre
ferros, dei-lhe o po que nem seus ricos pais lhe davam; quando o vi
sentenciado  forca, endoideci; quando a luz da minha razo me tornou
num raio de compaixo divina, corri ao segundo crcere, alimentei-o,
vesti-o, e adornei-lhe as paredes nuas do seu antro; quando o
desterraram, acompanhei-o, fiz-me a ptria daquele pobre corao,
trabalhei  luz do sol homicida para ele se resguardar do clima, do
trabalho, e do desamparo, que o matariam..."
O esprito de Mariana no podia altear-se  expresso do preso; mas o
corao adivinhava-lhe as idias. E a pobre moa sorria e chorava a um
tempo. Simo continuou:
- Tem vinte e seis anos, Mariana. Viva, que esta sua existncia no pode
ser seno um suplcio oculto. Viva, que no deve dar tudo a quem lhe
no pode restituir seno as lgrimas que eu lhe tenho custado. O tempo
do meu desterro no pode estar longe; esperar outro melhor destino
seria uma locura. Se eu ficasse na ptria, livre ou preso, pediria a minha
irm que completasse a obra generosa da sua compaixo, esperando
que eu lhe desse a ltima palavra da minha vida. Mas no v comigo 
frica ou  ndia, que sei que voltar sozinha  ptria depois que eu
fechar os olhos. Se o meu degredo for temporrio, e a morte me
guardar para maiores naufrgios, voltarei  ptria um dia.  preciso que
Mariana aqui esteja para eu poder dizer que venho para a minha famlia,
que tenho aqui uma alma extremosa que me espera. Se a encontrar
com marido e filhos, a sua extremosa famlia ser a minha. Se a vir livre
e s, irei para a companhia de minha irm. Que me responde, Mariana?
A filha de Joo da Cruz, erguendo os olhos do pavimento. disse:
- Eu verei o que hei de fazer quando o senhor Simo partir para o
degredo...
- Pense desde j, Mariana.
- No tenho que pensar... A minha teno est feita...
- Fale, minha amiga; diga qual  a sua teno.
Mariana hesitou alguns segundos, e respondeu serenamente:
- Quando eu vir que no lhe sou precisa, acabo com a vida. Cuida que
eu ponho muito em me matar? No tenho pai, no tenho ningum, a
minha vida no faz falta a pessoa nenhuma. O senhor Simo pode viver
sem mim? Pacincia!... Eu  que no posso...
103
Susteve o complemento da idia como quem se peja duma ousadia. O
preso apertou-a nos braos estremecidamente, e disse:
- Ir, ir comigo, minha irm. Pense muito no infortnio de ns ambos
d'ora em diante, que ele  comum;  um veneno que havemos de tragar
unidos, e l teremos uma sepultura de terra to pesada como a da
ptria.
Desde este dia, um secreto jbilo endoidecia o corao de Mariana. No
inventemos maravilhas de abnegao. Era de mulher o corao de
Mariana. Amava como a fantasia se compraz de idear o amor duns anjos
que batem as asas de baile em baile, e apenas quedam o tempo preciso
para se fazerem ver e adorar a um reflexo de poesia apaixonada.
Amava, e tinha cimes de Teresa, no cimes que se refrigeram na
expanso ou no despeito, mas infernos surdos, que no rompiam em
labareda aos lbios, porque os olhos se abriam prontos em lgrimas
para apag-la. Sonhava com as delcias do desterro, porque voz
humana alguma no iria l gemer  cabeceira do desgraado. Se a
forassem a resignar a sua inglria misso de irm daquele homem,
resigna-la-ia, dizendo: - "Ningum lhe adoar as penas to
desinteresseiramente como o eu fiz".
E, contudo, nunca vacilou em aceitar da mo de Teresa ou da mendiga
as cartas para Simo. A cada vinco de dor que a leitura daquelas cartas
sulcava na fronte do preso, Mariana, que o espreitava disfarada, tremia
em todas as fibras do seu corao, e dizia entre si: - "Para que h de
aquela senhora amargurar-lhe a vida?"
E amargurava acerbamente a desditosa menina!
Ressurgiram naquela alma esperanas, que no deviam durar alm do
tempo necessrio para que a desiluso lhe acrisolasse o infortnio.
Imaginara ela a liberdade, o perdo, o casamento, a ventura, a coroa do
seu martrio. As suas amigas matizavam-lhe a tela da fantasia, umas
porque no conheciam a atroz realidade das coisas, outras porque
fiavam em demasia nas oraes das virtuosas do mosteiros. Se os
vaticnios das profetisas se realizassem, Simo sairia da cadeia, Tadeu
de Albuquerque morreria de velhice e de raiva, o casamento seria um
ato indisputvel, e o cu dos desgraados principiaria neste mundo.
Porm, Simo Botelho, ao cabo de cinco meses de crcere, j sabia o
seu destino, e achara til prevenir Teresa, para no sucumbir ao
inevitvel golpe da separao. Bem queria ele alumiar com esperanas a
perspectiva negra do desterro; mas froixos e frios eram os alvios em
que no era parte a convico nem o sentimento. Teresa no podia
sequer iludir-se, porque tinha no peito um despertador que a estava
acordando sempre para a hora final, embora o semblante enganasse a
condolncia dos estranhos.
E, ento, era o expandir-se em lstimas nas cartas que escrevia ao seu
amigo; invocaes a Deus, e sacrlegas apstrofes ao destino;
104
branduras de pacincia e mpetos de clera contra o pai; o aferro  vida
que lhe foge, e splicas  morte.
No termo de sete meses o tribunal de segunda instncia comutou a
pena ltima em dez anos de degredo para a ndia. Tadeu de
Albuquerque acompanhou a Lisboa a apelao, e ofereceu a sua casa a
quem mantivesse de p a forca de Simo Botelho. O pai do condenado,
segundo assustador aviso que seu filho Manuel lhe dera, foi para Lisboa
lutar com o dinheiro e as poderosas influncias que Tadeu de
Albuquerque granjeara na Casa da Suplicao e no Desembargo do
Pao. Venceu Domingos Botelho, e, instigado mais do seu capricho que
do amor paternal, alcanou do Prncipe Regente a graa de cumprir o
condenado a sua sentena na priso de Vila-Real.
Quando intimaram a Simo Botelho a deciso do recurso e a graa do
Regente, o preso respondeu que no aceitava a graa; que queria a
liberdade do degredo; que protestaria perante os poderes judicirios
contra um favor que no implorava e que reputava mais atroz do que a
morte.
Domingos Botelho, avisado da rejeio do filho, respondeu que fizesse
ele a sua vontade; mas que a sua vitria dele sobre os protetores e os
corrompidos pelo ouro do fidalgo de Viseu estava plenamente obtida.
Foi aviso ao intendente geral da polcia, e o nome de Simo Botelho foi
inscrito no catlogo dos degredados para a ndia.
XIX
A verdade  algumas vezes o escolho de um romance.
Na vida real, recebemo-la como ela sai dos encontrados casos, ou da
lgica implacvel das coisas; mas, na novela, custa-nos a sofrer que o
autor, se inventa, no invente melhor; e, se copia, no minta por amor
da arte.
Um romance que estriba na verdade o seu merecimento  frio, 
impertinente,  uma coisa que no sacode os nervos, nem a gente,
sequer uma temporada, enquanto ele nos lembra, deste jogo de nora,
cujos alcatruzes somos, uns a subir, outros a descer, movidos pela
manivela do egosmo.
A verdade! Se ela  feia, para que oferec-la em painis ao pblico!?
A verdade do corao humano! Se o corao humano tem filamentos de
ferro que o prendem ao barro doente saiu, ou pesam nele e o
submergem no charco da culpa primitiva, para que  emergi-lo, retratlo
e p-lo  venda!?
Os reparos so de quem tem o juzo no seu lugar; mas, pois que eu
perdi o meu a estudar a verdade, j agora a desforra que tenho  pintla
como ela  feia e repugnante.
105
A desgraa afervora ou quebranta o amor?
Isto  que eu submeto  deciso do leitor inteligente. Fatos e no teses
 o que eu trago para aqui. O pintor retrata uns olhos, e no explica as
funes pticas do aparelho visual.
Ao cabo de dezenove meses de crcere, Simo Botelho almejava um
raio de Sol, uma lufada do ar no coada pelos ferros, o pavimento do
cu, que o da abbada do seu cubculo pesava-lhe o peito.
nsia de viver era a sua; no era j nsia de amar.
Seis meses de sobressaltos diante da forca deviam distender-lhe as
fibras do corao; e o corao, para o amor, quer-se forte e tenso, de
uma certa rijeza, que se ganha com o bom sangue, com os anseios das
esperanas, e com as alegrias. que o enchem e reforam para os
reveses.
Caiu a forca pavorosa aos olhos de Simo; mas os pulsos ficaram em
ferros, o pulmo ao ar mortal das cadeias, o esprito entanguido no
glacial estupidez dumas paredes salitrosas, e dum pavimento que ressoa
os derradeiros passos do ltimo padecente, e dum teto que filtra a
morte a gotas de gua.
O que  o corao, o corao dos dezoito anos, o corao sem
remorsos, o esprito anelante de glrias, ao cabo de dezoito meses de
estagnao da vida?
O corao  a vscera, ferida de paralisia, a primeira que falece sufocada
pela rebelies da alma que se identifica  natureza, e a quer, e se
devora na nsia dela, e se estorce nas agonias da amputao, para os
quais a saudade da ventura extinta  um cautrio em brasa; e o amor,
que leva ao abismo pelo caminho da sonhada felicidade, no  sequer
um refrigrio.
Ao deslaar da garganta a corda da justia, Simo Botelho teve uma
hora de desafogo, como que sentia o patbulo lascar entre os seus
braos, e ento convidou o corao da mulher que o perdera a assistir
s segundas npcias da sua vida com a esperana.
Depois, a passo igual, a esperana fugia-lhe para as areias da sia, e o
corao intumescia-se de fel, o amor afogava-se nele. morte inevitvel,
quando no h abertura por onde a esperana entre a luzir na escurido
ntima.
Esperana para Simo Botelho, qual?
A ndia, a humilhao, a misria, a indigncia.
E os anelos daquela alma tinham mirado as ambies de um nome. Para
a felicidade do amor envidava as foras do talento; mas, alm do amor,
estava a glria, o renome e a v imortalidade, que s no  demncia
nas grandes almas e nos gnios que se sentem previver nas geraes
vindouras.
Mas grinaldas de amor a escorrerem sangue dos espinhos, essas
infiltram veneno corrosivo no pensamento, apagam no seio a fasca das
106
nobres afoitezas, apoucam a idia que abrangera mundos, e paralisam
de mortal espasmo o corao.
Assim te sentias tu, infeliz, quando dezoito meses de crcere, com o
patbulo ou o degredo na linha do teu porvir, te haviam matado o
melhor da alma.
A ti mesmo perguntavas pelo teu passado, e o corao, se ousava
responder, retraa-se, recriminado pelos ditames da razo.
De alm, daquele convento onde outra existncia agonizava, gementes
queixas te vinham espremer fel na chaga; e tu, que no sabias nem
podias consolar, pedias palavras ao anjo da compaixo para ela, e as do
demnio do desespero para ti.
Os dez anos de ferros em que lhe quiseram minorar a pena, eram-lhe
mais horrorosos que o patbulo. E aceita-los-ia, porventura, se amasse o
cu, onde Teresa bebia o ar, que nos pulmes se lhe formava em
peonha? Creio: - antes a masmorra, onde pode ouvir-se o som abafado
de uma voz amiga; antes os paroxismos de dez anos sobre as lajes
midas de uma enxovia, se, na hora extrema, a ltima fasca da paixo,
ao bruxulear para morrer, nos alumia o caminho do cu por onde o anjo
do amor desditoso se levantou a dar conta de si a Deus, e a pedir a
alma do que ficou.
Teresa pedira a Simo Botelho que aceitasse dez anos de cadeia, e
esperasse ai a sua redeno por ela.
"Dez anos! - dizia-lhe a enclausurada de Monchique. Em dez anos ter
morrido meu pai e eu serei tua esposa, e irei pedir ao rei que te perdoe,
se no tiveres cumprido a sentena. Se vais ao degredo, para sempre te
perdi, Simo, porque morrers, ou no achars memria de mim,
quando voltares".
Como a pobre se iludia nas horas em que as dbeis foras de vida se lhe
concentravam no corao!
As nsias, a lividez, o deperecimento tinham voltado. O sangue, que
criara novo, j lhe saa em golfadas com a tosse.
Se por amor ou piedade o condenado aceitasse os ferrolhos trs mil
seiscentas e cinqenta vezes corridos sobre as suas longas noites
solitrias, nem assim Teresa susteria a pedra sepulcral que a vergava de
hora a hora.
"No esperes nada, mrtir - escrevia-lhe ele. - A luta com a desgraa 
intil, e eu no posso j lutar. Foi um atroz engano o nosso encontro.
No temos nada neste mundo, Caminhemos ao encontro da morte... H
um segredo que s no sepulcro se sabe. Ver-nos-emos?
Vou. Abomino a ptria, abomino a minha famlia; todo este solo est aos
meus olhos coberto de forcas, e quantos homens falam a minha lngua,
creio que os ouo vociferar as imprecaes do carrasco. Em Portugal,
nem a liberdade com a opulncia; nem j agora a realizao das
esperanas que me dava o teu amor, Teresa!
107
Esquece-te de mim, e adormece no seio do nada. Eu quero morrer, mas
no aqui. Apague-se a luz dos meus olhos; mas a luz do cu, quero-a!
Quero ver o cu no meu ltimo olhar!
No me peas que aceite dez anos de priso. Tu no sabes o que  a
liberdade cativa dez anos! No compreendes a tortura dos meus vinte
meses. A voz nica que tenho ouvido  a da mulher piedosa que me
esmola o po de cada dia, e a do aguazil que veio dar-me a sarcstica
boa-nova de uma graa real, que me comuta o morrer instantneo da
forca pelas agonias de dez anos de crcere.
Salva-te, se podes, Teresa. Renuncia ao prestgio dum grande
desgraado. Se teu pai te chama, vai. Se tem de renascer para ti uma
aurora de paz, vive para a felicidade desse dia. E, se no, morre,
Teresa, que a felicidade  a morte,  o desfazerem-se em p as fibras
laceradas pela dor,  o esquecimento que salva das injrias a memria
dos padecentes".
As palavras nicas de Teresa, em resposta quela carta, significativa da
turbao do infeliz, foram estas: "Morrerei, Simo, morrerei. Perdoa tu
ao meu destino... Perdi-te... Bem sabes que sorte eu queria dar-te... e
morro, porque no posso, nem poderei jamais resgatar-te. Se podes,
viva; no te peo que morras, Simo; quero que vivas para me
chorares. Consolar-te- o meu esprito... Estou tranqila. Vejo a aurora
da paz... Adeus, at ao cu, Simo".
Seguiram-se a esta carta muitos dias de terrvel taciturnidade. Simo
Botelho no respondia s perguntas de Mariana, Di-lo-eis arroubado
nas voluptuosas angstias do seu prprio aniquilamento. A criatura
posta por Deus ao lado daqueles dezoito anos to atribulados chorava;
mas as lgrimas, se Simo as via, tiravam-no da mudez sossegada para
mpetos de aflio, que afinal o extenuavam..
Decorreram seis meses ainda.
E Teresa vivia, dizendo s suas consternadas companheiras que sabia
ao certo o dia do seu trespasse.
Duas primaveras via Simo Botelho pelas grades do seu crcere. A
terceira j enflorava as hortas, e esverdeava as florestas do Candal.
Era em maro de 1807.
No dia 10 desse ms, recebeu o condenado intimao para sair na
primeira embarcao que levava ncora do Douro para a ndia. Nesse
tempo vinham aqui os navios buscar os degredados, e recebiam em
Lisboa os que tinham igual destino.
Nenhum estorvo impedia o embarque de Mariana, que se apresentou ao
corregedor do crime como criada do degredado, com passagem paga
por seu amo.
- E a passagem vale-a bem! - disse o galhofeiro magistrado.
Simo assistiu ao encaixotar da sua bagagem, numa quietao terrvel,
como se ignorasse o seu destino.
108
Quis muitas vezes escrever a derradeira carta  moribunda Teresa, e
nem sinais de lgrimas podia j enviar-lhe no papel.
- Que trevas, meu Deus! - exclamava ele, e arrancava a mos cheias os
cabelos. - Dai-me lgrimas, Senhor! Deixai-me chorar, ou matai-me,
que este sofrimento e insuportvel!
Mariana contemplava estarrecida estes e outros lances de loucura, ou os
no menos medonhos da letargia.
- E Teresa! - bradava ele, surgindo subitamente do seu espasmo. - E
aquela infeliz menina que eu matei! No hei de v-la mais, nunca mais!
Ningum me levar ao degredo a noticia de sua morte! E, quando a eu
chamar para que me veja morrer digno dela, quem te dir que eu morri,
 mrtir?!
A 17 de maro de 1807, saiu dos crceres da Relao Simo Antnio
Botelho, e embarcou no cais da Ribeira, com setenta e cinco
companheiros. O filho do ex-corregedor de Viseu, a pedido do
desembargador Mouro Mosqueira, e por ordem do regedor das justia,
no ia amarrado com cordas ao brao de algum companheiro. Desceu
da cadeia ao embarque, ao lado de um meirinho, e seguido de Mariana,
que vigiava os caixes da bagagem. O magistrado, fiel amigo de D. Rita
Preciosa, foi a bordo da nau, e recomendou ao comandante que
distinguisse o condenado Simo, consentindo-o na tolda, e sentando-o 
sua mesa. Chamou Simo de parte, e deu-lhe um cartucho de dinheiro
em ouro, que sua me lhe enviava. Simo Botelho aceitou o dinheiro, e,
na presena de Mouro Mosqueira. pediu ao comandante que fizesse
distribuir pelos seus companheiros de degredo o dinheiro que lhe dava.
-  demente o senhor Simo?! - disse o desembargador.
- Tenho a demncia da dignidade: por amor da minha dignidade me
perdi; quero agora ver a que extremo de infortnio ela pode levar os
seus amantes. A caridade s me no humilha quando parte do corao e
no do dever. No conheo a pessoa que me remeteu esse dinheiro.
-  sua me - tornou Mosqueira.
- No tenho me. Quer vossa excelncia remeter-lhe esta esmola
rejeitada?
- No, senhor.
- Ento, senhor comandante, cumpra o que lhe peo, ou eu atiro com
isto ao rio.
O Comandante aceitou o dinheiro, e o desembargador saiu de bordo
como espantado da sinistra condio do moo.
- Onde  Monchique? - perguntou Simo a Mariana.
-  acol, senhor Simo - respondeu. indicando-lhe o mosteiro, que se
debrua sobre a margem do Douro, em Miragaia.
Cruzou os braos Simo, e viu atravs do gradeamento do mirante um
vulto (7),
Era Teresa.
109
Na vspera recebera ela o adeus de Simo, e respondera enviando-lhe a
trana dos seus cabelos.
Ao anoitecer daquele dia, pediu Teresa os sacramentos, e comungou 
grade do coro, onde se foi amparada  sua criada, Parte das horas da
noite passou-as sentada ao p do santurio de sua tia, que toda a noite
orou, Algumas vezes pediu que a levassem  janela que se abria para o
mar, e no sentia ali a frialdade da virao. Conversava serenamente
com as freiras, e despedira-se de todas, uma a uma, indo por seu p s
celas das senhoras entrevadas para lhes dar o beijo da despedida.
Todas cuidavam em reanim-la, e Teresa sorria, sem responder aos
piedosos artifcios com que as boas almas a si mesmas queriam simular
esperanas. Ao abrir da manh, Teresa leu uma a uma a cartas de
Simo Botelho. As que tinham sido escritas nas margens do Mondego
enterneciam-na a copiosas lgrimas. Eram hinos  felicidade prevista:
eram tudo que mais formoso pode dar o corao humano quando a
poesia da paixo d cor ao pensamento, e uma formosa e inspirativa
natureza lhe empresta os seus esmaltes, Ento lhe acudiam vivas
reminiscncias daqueles dias: a sua alegria doida, as suas doces
tristezas, esperanas a desveneceram saudades, os mudos colquios
com a irm querida de Simo, o cu aromtico que se lhe alargava 
inspirao sfrega de vagos desejos, tudo, enfim, que lembra a
desgraados.
Emaou depois as cartas, e cintou-as com fitas de seda desenlaadas de
raminhos de flores murchas, que Simo, dois anos antes, lhe atirara da
sua janela ao quarto dela.
As ptalas das flores soltas quase todas se desfizeram, e Teresa,
contemplando-as, disse: - "Como a minha vida..." - e chorou, beijando
os clices desfolhados das primeiras que recebeu.
Deu as cartas a Constana, e encarregou-a de uma ordem, a respeito
delas, que logo veremos cumprida.
Depois foi orar, e esteve ajoelhada meia hora, com meio corpo reclinado
sobre uma cadeira. Erguendo-se, quase tirada pela violncia, aceitou
uma xcara de caldo, e murmurou com um sorriso: - "Para a viagem..."
As nove horas da manh pediu a Constana que a acompanhasse ao
mirante, e, sentando-se em nsias mortais, nunca mais desfitou os
olhos da nau, que j estava verga alta, esperando a leva dos
degredados.
Quando viu, a dois a dois, entrarem, amarrados, no tombadilho, os
condenados, Teresa teve um breve acidente, em que a j frouxa
claridade dos olhos se lhe apagou, e as mos conclusas pareciam querer
aferrar a luz fugitiva.
Foi ento que Simo Botelho a viu.
E ao mesmo tempo atracou  nau um bote em que vinha a pobre de
Viseu, chamando Simo. Foi ele ao portal, e, estendendo o brao 
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mendiga, recebeu o pacotinho das suas cartas. Reconheceu ele que a
primeira no era sua, pela lisura do papel, mas no a abriu.
Ouviu-se a voz de levar ncora e largar amarras. Simo encostou-se 
amurada da nau, com os olhos fitos no mirante.
Viu agitar-se um leno, e ele respondeu com o seu quele aceno.
Desceu a nau ao mar, e passou fronteira ao convento. Distintamente
Simo viu um rosto e uns braos suspensos das reixas de ferro; mas
no era de Teresa aquele rosto: seria antes um cadver que subiu da
claustra ao mirante, com os ossos da cara inados ainda das herpes da
sepultura.
-  Teresa? - perguntou Simo a Mariana.
- , senhor,  ela - disse num afogado gemido a generosa criatura,
ouvindo o seu corao dizer-lhe que a alma do condenado iria breve no
seguimento daquela por quem se perdera.
De repente aquietou o leno que se agitava no mirante, e entreviu
Simo um movimento impetuoso de alguns braos e o desaparecimento
de Teresa e do vulto de Constana, que ele divisara mais tarde.
A nau parou defronte de Sobreiras. Uma nuvem no horizonte da barra, e
o sbito encapelamento das ondas causara a suspenso da viagem
anunciada pelo comandante. Em seguida, velejou da Foz uma catraia
com o piloto-mor, que mandava lanar ferro at novas ordens. Mais
tarde adiou-se a sada para o dia seguinte.
E, no entanto, 5imo Botelho, como o cadver embalsamado, cujos
olhos artificiais rebrilham cravados num ponto, l tinha os seus imersos
na interior escuridade do miradouro. Nenhum sinal de vida. E as horas
passaram at que o derradeiro raio de Sol se apagou nas grades do
mosteiro.
Ao escurecer, voltou de terra o comandante, e contemplou, com os
olhos embaciados de lgrimas. o desterrado, que contemplava as
primeiras estrelas, iminentes ao mirante,
- Procura-a no cu? - disse o nauta.
- Se a procuro no cu... - repetiu maquinalmente Simo.
- Sim!... No cu deve ela estar.
- Quem, senhor?
- Teresa.
- Teresa...! Morreu?!
- Morreu, alm, no mirante, donde ela estava acenando.
Simo curvou-se sobre a amurada, e fitou os olhos na torrente. O
comandante lanou-lhe os braos, e disse:
- Coragem, grande desgraado, coragem! Os homens do mar crem em
Deus! Espere que o cu se abra para si pelas splicas daquele anjo!
Mariana estava um passo atrs de Simo, e tinha as mos erguidas.
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- Acabou-se tudo!... - murmurou Simo.  Eis me livre... para a morte...
Senhor comandante - continuou ele energicamente - eu no me suicido.
Pode deixar-me.
- Peo-lhe que se recolha  cmara. O seu beliche est ao p do meu.
-  obrigatrio recolher-me?
- Para vossa senhoria no h obrigaes; h rogos: peo-lhe, no
mando.
- Vou, e agradeo a compaixo.
Mariana seguiu-o com aquele olhar quebrado e mavioso do Jau, quando
o poeta desembarcava, segundo a idia apaixonada do cantor de
Cames.
Encarou nela Simo, e disse ao comandante:
- E esta infeliz?
- Que o siga... - respondeu o compassivo homem do mar, que cria em
Deus.
Simo recolheu-se ao beliche, e o comandante sentou-se em frente
dele, e Mariana ficou no escuro da cmara a chorar.
- Fale, senhor Simo! - disse o comandante - desafogue e chore.
- Chorei, senhor!
- Eu no tinha imaginado uma angstia igual  sua. A inveno humana
no criou ainda um quadro to atroz. Arrepiam-me os cabelos, e tenho
visto espetculos horrveis na terra e no mar.
Acintemente, o comandante estava provocando Simo ao desabafo. No
respondia o condenado. Ouvia os soluos de Mariana, e tinha os olhos
postos no mao das Cartas, que pusera sobre uma banqueta.
O capito prosseguiu:
- Quando em Miragaia me contaram a morte daquela senhora, pedi a
uma pessoa relacionada no convento que me levasse a ouvir de alguma
freira a triste histria. Uma religiosa ma contou; mas eram mais os
gemidos que as palavras. Soube que ela, quando descamos na altura
do Oiro, proferia em alta voz: - "Simo, adeus at  eternidade!" - E
caiu nos braos duma criada. A criada gritou, e outras foram ao mirante,
e a trouxeram meia-morta para baixo, ou morta, melhor direi, que
nenhuma palavra mais lhe ouviram. Depois, contaram-me o que ela
penara em dois anos e nove meses naquele mosteiro; o amor que ela
lhe tinha, e as mil mortes que ali padeceu, de cada vez que a esperana
lhe morria. Que desgraada menina, e que desgraado moo o senhor !
- Por pouco tempo... - disse Simo, como se o dissesse a si prprio, ou
a prpria imaginao estivesse dialogando consigo.
- Creio, creio, por pouco tempo - prosseguiu o capito - mas, se os
amigos pudessem salv-lo, senhor, eu da-los-ia na ndia mais fiis que
em Portugal. Prometo-lhe, sob a minha palavra de honra, alcanar do
vice-rei a sua residncia em Goa. Prometo segurar-lhe um decente
principio de vida e as comodidades que fazem a existncia to saudvel
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como ela  na sia. No o intimide a idia do degredo, senhor Simo.
Viva, faa por vencer-se, e ser feliz!
- O seu silncio, por piedade, senhor... - atalhou o degredado.
- Bem sei que  cedo ainda para planizar futuros. Desculpe  simpatia
que me inspira a indiscrio, mas aceite um amigo nesta hora
atribulada.
- Aceito, e preciso dele... Mariana! - Chamou Simo. - Venha aqui, se
este cavalheiro o permite.
Mariana entrou no quarto.
- Esta mulher tem sido a minha providncia - disse Simo. - Porque ela
me valeu, no senti a fome em dois anos e nove meses de crcere.
Tudo que tinha vendeu para me sustentar e vestir. Aqui vai comigo esta
criatura. Seja respeitvel ao seus olhos, senhor, porque ela  to pura
como a verdade o deve ser nos lbios dum moribundo. Se eu morrer,
senhor comandante, aceite o legado de a amparar com a sua caridade
como se ela fosse minha irm. Se ela quiser voltar  sua ptria, seja o
seu protetor na passagem. - E, estendendo-lhe a mo, disse com
transporte: - Promete-me isto, senhor?
- Juro-lhe.
O comandante, obrigado a subir ao tombadilho, deixou Simo com
Mariana.
- Estou tranqilo pelo seu futuro, minha amiga.
- Eu j o estava, senhor Simo - respondeu ela.
No se trocam palavras por largo espao. Simo apoiou a face sobre a
mesa, e apertou com as mos as fontes arquejantes. Mariana, de p, ao
lado dele, fitava os olhos na luz mortia da lmpada oscilante, e
cismava, como ele, na morte.
E o nordeste sibilava, como um gemido, nas gveas da nau.
CONCLUSO
As onze horas da noite, o comandante recolhera-se num beliche de
passageiro, e Mariana, sentada no pavimento, com o rosto sobre os
joelhos, parecia sucumbir ao quebranto das trabalhosas e aflitivas horas
daquele dia.
Simo Botelho velava prostrado no camarote, com os braos cruzados
sobre o peito, e os olhos fitos na luz que balanava, pendente de um
arame. O ouvido t-lo-ia, talvez, atento a um assobio da ventania: devia
de soar-lhe como um ai plangente aquele silvo agudo, voz nica no
silncio da terra e cu.
A meia-noite, estendeu Simo o brao trmulo ao mao das cartas que
Teresa lhe enviara, e contemplou um pouco a que estava ao de cima,
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que era dela. Rompeu a obreia, e disps-se no camarote para alcanar o
bao claro da lmpada.
Dizia assim a carta:
" j o meu esprito que te fala, Simo. A tua amiga morreu. A tua
pobre Teresa,  hora em que leres esta carta, se Deus no me engana,
est em descanso.
Eu devia poupar-te a esta ltima tortura; no devia escrever-te; mas
perdoa  tua esposa do cu a culpa, pela consolao que sinto em
conversar contigo a esta hora, hora final da noite da minha vida,
Quem te diria que eu morri, se no fosse eu mesma, Simo? Daqui a
pouco. perders de vista este mosteiro; corrers milhares de lguas, e
no achars, em parte alguma do mundo, voz humana que te diga:
- A infeliz espera-te noutro mundo, e pede ao Senhor que te resgate. -
Se te pudesses iludir, meu amigo, quererias antes pensar que eu ficava
com a vida e com esperana de ver-te na volta do degredo? Assim pode
ser, mas, ainda agora, neste solene momento, me domina a vontade de
fazer-te sentir que eu no podia viver. Parece que a mesma infelicidade
tem s vezes vaidade de mostrar que o , at no pod-lo ser mais!
Quero que digas: - Est morta, e morreu quando eu lhe tirei a ltima
esperana. -
- Isto no  queixar-me, Simo: no . Talvez, que eu pudesse resistir
alguns dias  morte, se tu ficasses; mas, de um modo ou de outro, era
inevitvel fechar os olhos quando se rompesse o ltimo fio, este ltimo
que se est partindo, e eu mesma o ouo partir.
No vo estas palavras acrescentar a tua pena. Deus me livre de
ajuntar um remorso injusto  tua saudade.
Se eu pudesse ainda ver-te feliz neste mundo; se Deus permitisse 
minha alma esta viso!... Feliz, tu, meu pobre condenado!... Sem o
querer, o meu amor agora te fazia injria, julgando-te capaz de
felicidade! Tu morrers de saudade, se o clima do desterro te no matar
ainda antes de sucumbires  dor do esprito.
A vida era bela, era, Simo, se a tivssemos como tu ma pintavas nas
tuas cartas, que li h pouco! Estou vendo a casinha que tu descrevias
defronte de Coimbra, cercada de rvores, flores e aves. A tua
imaginao passeava comigo s margens do Mondego,  hora pensativa
do escurecer. Estrelava-se o cu, e a Lua abrilhantava a gua. Eu
respondia com a mudez do corao ao teu silncio, e, animada por teu
sorriso, inclinava a face ao teu seio, como se fosse ao de minha me.
Tudo isto li nas tuas cartas; e parece que cessa o despedaar da agonia
enquanto a alma se est recordando. Noutra carta, me falavas em
triunfos e glrias e imortalidade do teu nome. Tambm eu ia aps da
tua aspirao, ou adiante dela, porque o maior quinho dos teus
prazeres de esprito queria eu que fosse meu. Era criana h trs anos,
Simo, e j entendia os teus anelos de glria, e imaginava-os realizados
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como obra minha, se tu me dizias, como disseste muitas vezes, que no
serias nada sem o estimulo do meu amor.
 Simo, de que cu to lindo camos! A hora que te escrevo, tu ests
para entrar na nau dos degredados, e eu na sepultura.
Que importa morrer, se no podemos jamais ter nesta vida a nossa
esperana de h trs anos? Poderias tu com a desesperana e com a
vida, Simo? Eu no podia. Os instantes do dormir eram os escassos
benefcios que Deus me concedia; a morte  mais que uma necessidade,
 uma misericrdia divina, uma bem-aventurana para mim.
E que farias tu da vida sem a tua companheira de martrio? Onde tu irs
aviventar o corao que a desgraa te esmagou, sem o esquecimento da
imagem desta dcil mulher, que seguiu cegamente a estrela da tua
malfadada sorte?!
Tu nunca hs de amar, no, meu esposo? Terias pejo de ti mesmo, se
uma vez visses passar rapidamente a minha sombra por diante dos teus
olhos enxutos? Sofre, sofre ao corao da tua amiga estas derradeiras
perguntas, a que tu responders, no alto mar, quando esta carta leres.
Rompe a manh. Vou ver a minha ltima aurora... a ltima dos meus
dezoito anos!
Abenoado sejas, Simo! Deus te proteja, e te livre de uma agonia
longa. Todas as minhas angstias lhe ofereo em desconto das tuas
culpas. Se algumas impacincias a justia divina me condena, oferece tu
a Deus, meu amigo, os teus padecimentos, para que eu seja perdoada.
Adeus!  luz da eternidade parece-me que j te vejo, Simo!"
Ergueu-se o degredado, olhou em redor de si e fitou com espasmo
Mariana, que levantava a cabea ao menor movimento dele.
- Que tem, senhor Simo? - disse ela, erguendo-se.
- Estava aqui, Mariana?... No se vai deitar?!
- No vou; o comandante deu-me licena de ficar aqui.
- Mas h de assim passar a noite?! Rogo-lhe que v, porque no 
necessrio o seu sacrifcio.
- Se o no incomodo, deixe-me aqui estar, senhor Simo.
- Esteja, minha amiga, esteja... Poderei subir ao convs?
- Quer ir ao convs, senhor Botelho? - disse o comandante, lanando-se
do beliche.
- Queria, senhor comandante.
- Iremos juntos.
Simo ajuntou a carta de Teresa ao mao das suas, e saiu
cambaleando. No convs sentou-se num monte de cordame, e
contemplou o mirante do Manchique, que avultava negro ao sop da
serra penhascosa em que atualmente vai a Rua da Restaurao.
O capito passeava da proa  r, mas com o ouvido fito aos movimentos
do degredado. Receara ele o propsito do suicdio, porque Mariana lhe
incutira semelhante suspeita.
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Queria o martimo falar-lhe palavras consoladoras, mas pensava
consigo: - "O que h de dizer-se a um homem que sofre assim?" - E
parava junto dele algumas vezes, como para desviar-lhe o esprito
daquele mirante.
- Eu no me suicido! - exclamou abruptamente Simo Botelho. - Se a
sua generosidade, senhor capito. se interessa em que eu viva, pode
dormir descansado a sua noite, que eu no me suicido.
- Mas mereo-lhe eu a condescendncia de descer comigo  cmara?
- Irei; mas eu, l, sofro mais, senhor.
No replicou o comandante, e continuou a passear no convs apesar das
rajadas de vento.
Mariana estava agachada entre os pacotes da carga, a pouca distncia
de Simo. O comandante viu-a, falou-lhe, e retirou-se.
As trs horas da manh, Simo Botelho segurou entre as mos a testa,
que se lhe abria abrasada pela febre. No pde ter-se sentado, e deixou
cair o meio corpo. A cabea, ao declinar, pousou no seio de Mariana.
- O Anjo da compaixo sempre comigo! - murmurou ele, - Teresa foi
muito desgraada...
- Quer descer ao camarote? - disse ela.
- No poderei... Ampare-me, minha irm.
Deu alguns passos para a escadinha, e olhou ainda sobre o mirante.
Desceu a ngreme escada, apegando-se s cordas. Lanou-se sobre o
colcho, e pediu gua que bebeu insaciavelmente. Seguiu-se a febre, o
estarcimento, e as nsias, com intervalo de delrio.
De manh veio a bordo um facultativo, por convite do capito.
Examinando o condenado, disse que era febre maligna a doena, e bem
podia ser que ele achasse a sepultura no caminho da ndia.
Mariana ouviu o prognstico, e no chorou.
As onze horas saiu barra fora a nau. As nsias da doena acresceram as
do enjo. A pedido do comandante, Simo bebia remdios, que bolsava
logo, revoltos pelas contraes do vmito.
Ao segundo dia de viagem, Mariana disse a Simo:
- Se o meu irmo morrer, que hei de eu fazer quelas cartas que vo na
caixa?
Pasmosa serenidade a desta pergunta!
- Se eu morrer no mar - disse ele - Mariana, atire ao mar todos os meus
papis, todos; e estas cartas que esto debaixo do meu travesseiro
tambm.
Passada uma nsia, que lhe embargava a voz, Simo continuou:
- Se eu morrer, que tenciona fazer, Mariana?
- Morrerei, senhor Simo.
- Morrers?!... Tanta gente desgraada que eu fiz!...
A febre aumentava. Os sintomas da morte eram visveis aos olhos do
capito, que tinha sobeja experincia de ver morrerem centenares de
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condenados, feridos da febre no mar, e desprovidos de algum
medicamento.
Ao quarto dia, quando a nau se movia ronceira defronte de Cascais,
sobreveio tormenta sbita. O navio fez-se ao largo muitas milhas, e,
perdido o rumo de Lisboa, navegou desnorteado. Ao sexto dia de
navegao incerta, por entre espessas brumas, partiu-se o leme
defronte de Gibraltar. E, em seguida ao desastre, aplacaram as
refregas, desencapelaram-se as ondas, e nasceu, com a aurora do dia
seguinte, um formoso dia de primavera. Era o dia de primavera. Era o
dia 27 de maro, o nono da enfermidade de Simo Botelho.
Mariana tinha envelhecido. O comandante, encarando nela, exclamou:
- Parece que volta da ndia com os dez anos de trabalhos j passados!...
- J acabados... de certo... - disse ela.
Ao anoitecer desse dia o condenado delirou pela ltima vez, e dizia
assim no seu delrio:
"A casinha, defronte de Coimbra, cercada de rvores, flores e aves.
Passeavas comigo  margem do Mondego,  hora pensativa do
escurecer. Estrelava-se o cu, e a Lua abrilhantava a gua. Eu
respondia com a mudez do corao ao teu silncio, e, animada por teu
sorriso, inclinada a face ao teu seio, como se fosse o de minha me...
De que cu to lindo camos!... A tua amiga morreu... A tua pobre
Teresa..."
"E que farias tu da vida, sem a tua companheira de martrio?... Onde
irs tu aviventar o corao que a desgraa te esmagou?!... Rompe a
manh... Vou ver a minha ltima aurora... a ltima dos meus dezoito
anos. Oferece a Deus os teus padecimentos, para que eu seja
perdoado... Mariana..."
Mariana colocou os ouvidos aos lbios roxos do moribundo, quando
cuidou ouvir o seu nome.
"Tu virs ter conosco; ser-te-emos irmos no cu... O mais puro anjo
sers tu... se s deste mundo, irm; se s deste mundo, Mariana..."
A transio do delrio para a letargia completa era o anncio infalvel do
trespasse.
Ao romper da manh apagara-se a lmpada. Mariana sara a pedir luz, e
ouvira um gemido estertoroso. Voltando s escuras, com os braos
estendidos para tatear a face do agonizante, encontrou a mo convulsa,
que lhe apertou uma das suas, e relaxou de sbito a presso dos dedos.
Entrou o comandante com uma lmpada, e aproximou-lha da
respirao, que no embaciou levemente o vidro.
- Est morto! - disse ele.
Mariana curvou-se sobre o cadver, e beijou-lhe a face. Era o primeiro
beijo. Ajoelhou depois ao p do beliche com as mos erguidas, e no
orava nem chorava.
Algumas horas volvidas, o comandante disse a Mariana:
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- Agora  tempo de dar sepultura ao nosso venturoso amigo...  ventura
morrer quando se vem a este mundo com tal estrela. Passe a senhora
Mariana ali para a cmara que vai ser levado daqui o defunto.
Mariana tirou o mao das cartas debaixo do travesseiro, e foi a uma
caixa buscar os papis de Simo. Atou o rolo no avental, que ele tinha
daquelas lgrimas dela, choradas no dia da sua demncia, e cingiu o
embrulho  cintura.
Foi o cadver envolto num lenol, e transportado ao convs.
Mariana seguiu-o.
D0 poro da nau foi trazida uma pedra, que um marujo lhe atou s
pernas com um pedao de cabo. O comandante contemplava a cena
triste com os olhos midos, e os soldados que guarneciam a nau, to
funeral respeito os impressionara, que insensivelmente se descobriram.
Mariana estava, no entanto, encostada ao flanco da nau, e parecia
estupidamente encarar aqueles empuxes que o marujo dava ao
cadver, para segurar a pedra na cintura.
Dois homens ergueram o morto ao alto sobre a amurada. Deram-lhe o
balano para o arremessarem longe. E, antes que o baque do cadver
se fizesse ouvir na gua, todos viram, e ningum j pde segurar
Mariana, que se atirara ao mar.
A voz do comandante desamarraram rapidamente o bote, e saltaram
homens para salvar Mariana.
Salv-la!...
Viram-na, um momento, bracejar, no para resistir  morte mas para
abraar-se ao cadver de Simo, que uma onda lhe atirou aos braos. O
comandante olhou para o stio donde Mariana se atirara, e viu, enleado
no cordame, o avental, e  flor da gua, um rolo de papis, que os
marujos recolheram na lancha. Eram, como sabem, a correspondncia
de Teresa e Simo.
Da famlia de Simo Botelho vive ainda, em Vila-Real-de-Trs-os-
Montes, a senhora D. Rita Emlia da Veiga Castelo Branco, a irm
predileta dele (8). A ltima pessoa falecida, h vinte e seis anos, foi
Manoel Botelho, pai do autor deste livro.
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Notas
(1) H vinte anos que eu ouvi de um coevo do fato a histria do
assassnio, assim contada Era em Quinta-feira Santa. Marcos Botelha,
irmo de Domingos, estava na Festa de Endoenas, em So Francisco,
defrontando com uma dama, namorada sua, e desleal dama que ela era.
Noutro ponto da Igreja estava, apontando em olhos e corao  mesma
mulher, um alferes de infantaria. Marcos enfrentou o seu cime at ao
final do ofcio da Paixo.  sada do templo encarou no militar, e
provocou-o. O alferes tirou da espada, e o fidalgo do espadim. Teraram
as armas longo tempo sem desaire, nem sangue. Amigos de ambos
tinham conseguido aplac-los, quando Lus' Botelha, outro irmo de
Marcos, desfechou uma clavina no peito do alferes, e ali,  entrada da
"Rua do Jogo da Bola", o derribou morto. O homicida foi livre por graa
rgia.
(2)  a casa-palacete  "Rua da Piedade", hoje pertencente ao Major
Antnio Girardo Monteiro. - (Nota da 1" edio).
(3) Esclarece este dizer de D. Rita a certido de idade de Simo a qual
tenho presente, e  extrada por Herculano Henrique Garcia Camilo
Galhardo, reitor da real igreja da Senhora da Ajuda, do livro 14, a folhas
159 v. Reza assim:
Aos dois dias do ms de maio de 1784, ps os Santos leos o
reverendo padre cura Joo Domingues Chaves a Simo, o qual foi
batizado em casa em perigo de vida pelo reverendo frei Antnio de S.
Palgio, etc..
(4) Nalguns papis que possumos do corregedor de Viseu achamos esta
carta: "Meu amigo, colega e senhor. Entregar ao portador desta, que 
o senhor padre Manuel de Oliveira, as cinqenta moedas em que lhe
falei na sua passagem para Lisboa. A apelao de seu filho est a meu
cuidado, e est segura, a pesar das grandes foras contrrias. Seu
amigo - O desembargador Antnio Jos Dias Mouralo Mosqueira. - Porto,
11 de fevereiro de 1805, Sobrescrito: limo. Sr. Domingos Jos Botelho
de Mesquita e Meneses - Lisboa."
(Nota do Autor).
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(5) Este romance foi escrito num dos cubculos-crceres da Relao do
Porto, a uma luz coada por entre ferros, e abafada pela sombra das
abbadas. Ano da Graa de 1861.
(6) "Hoje ento!..." Vou-lhes contar um lance memorando dum filsofo
da atualidade, lance nico pelo qual eu fiquei conhecendo a pessoa.
Hoje (21 de setembro de 1861) estava eu no escritrio do ilustre
advogado Joaquim Marcelino de Matos, e um cliente entrou, contando o
seguinte: - "Senhor doutor, eu sou um lojista da rua de...: e fui roubado
em oitocentos mil ris por minha mulher, que fugiu com um amante
para Viena. Venho saber se posso querelar, e receber o meu dinheiro."
Pode querelar, respondeu o advogado, se tiver testemunhas. O senhor
quer querelar por adultrio? - Responde o queixoso: "O que eu quero 
o meu dinheiro." - Mas, redargiu o consultor, o senhor pode querelar
de ambos, dela como adultera, e dele como receptador do furto. - "E
receberei o meu dinheiro?" - Conforme. Eu sei c se ele tem o seu
dinheiro?! O que  que no pode pronunci-la a ela como ladra. - "Mas
os meus oitocentos mil ris?!" - Ah! o senhor no se lhe d que sua
mulher fuja e no volte? - "No, senhor doutor, que a leve o diabo; o
que eu quero  o meu dinheiro." - Pois querele de ambos, e veremos
depois. "Mas no  certo receber eu O meu dinheiro!?" - Certo no ;
veremos se, depois de pronunciado, as autoridades administrativas
capturam o ladro com o seu dinheiro. - "E se ele o no tiver j" -
redargi o marido consternado. - Se o no tiver j, o senhor vinga-se na
querela por adultrio. - "E gasta-se alguma coisa?" - Gasta, sim; mas
vinga-se. - "O que eu queria era o meu dinheiro, senhor doutor; a
mulher deix-la ir, que tem cinqenta anos". - Cinqenta anos! - acudiu
o doutor. - O senhor est vingado do amante. V para casa, deixe-se de
querelas, que o mais desgraado  ele.
(7) Quando escrevi este livro, ainda existia o mirante. Agora, l, ou a
por perto, est um salo de baile em que danam nos dias santificados
marujos e as damas correspondentes. - (Nota da 5 edio).
(8) Morreu em 1872. (Nota da 5 edio).
***************
120
Camilo Castelo Branco (1825-1890) nasce em
Lisboa no dia 16 de Maro, filho ilegtimo de
Manuel Joaquim Botelho e Jacinta Maria.
Frequentou a sociedade portuense, dedicando-se
ao jornalismo, e teve uma vida romanticamente
agitada, desde vrios casos amorosos e priso.
Sentindo-se cego, suicida-se com um tiro na
cabea na casa de So Miguel de Seide.
Notabilizou-se com vrias novelas, uma delas
Amor de Perdio.  um dos maiores escritores
portugueses do sculo XIX.
Algumas obras: Os Pundonores Desagravados (poema satrico, 1845), O
Juzo Final e O Sonho do Inferno (poema satrico, 1845), Agostinho de
Ceuta (teatro, 1847), A Murraa (stira, 1848), Maria, no me mates,
que sou tua me (novela, 1848), O Marqus de Torres Novas (teatro,
1849), O Caleche (stira, 1849), O Clero e o sr. Alexandre Herculano
(polmica, 1850), Inspiraes (poesia lrica, 1851), Antema (novela,
1851), Mistrios de Lisboa (novela, 1854), Livro Negro de Padre Dinis
(novela, 1855), Cenas Contemporneas (1855), A Filha do Arcediago
(novela, 1855), A Neta do Arcediago (novela, 1856), Onde est a
felicidade? (novela, 1856), Um Homem de Brios (novela, 1857), Carlota
ngela (novela, 1858), O Que fazem Mulheres (novela, 1858), Cenas da
Foz (novela, 1861), O Romance de um Homem Rico (novela, 1861),
Amor de Perdio (novela, 1862), Corao, Cabea e Estmago (novela,
1862), Aventuras de Baslio Fernandes Enxertado (novela, 1863), O
Bem e o Mal (novela, 1863), Amor de Salvao (novela, 1864), A Sereia
(novela, 1865), A Queda dum Anjo (novela, 1866), O Judeu (novela,
1866), O Olho de Vidro (novela, 1866), A Bruxa de Monte Crdova
(novela, 1867), A Doida do Candal (novela, 1867), O Retrato de
Ricardina (novela, 1868), Os Brilhantes do Brasileiro (novela, 1869), A
Mulher Fatal (novela, 1870), O Regicida (novela, 1874), A Filha do
Regicida (novela, 1875), A Caveira do Mrtir (novela, 1875), Eusbio
Macrio (novela, 1879), A Corja (novela, 1880), A Brasileira de Prazins
(novela, 1883), etc.

